Trabalhei até as dez da noite.
De repente, senti um peso em meus ombros.
Era Gustavo, colocando seu paletó sobre mim.
"Isadora, eu te mandei mensagem, por que não respondeu?"
Não olhei para trás, apenas acendi a tela do celular para ver a notificação pendente:
"De que sabor de chá de bolhas vocês, mulheres, costumam gostar?"
Três anos atrás, eu havia cedido ao clichê e pedido a Gustavo o famoso "primeiro chá de bolhas do outono".
Naquela época, ele me olhou com total desdém:
"Isadora, você é uma mulher de quase trinta anos, não me venha com essas futilidades nojentas".
Mas agora, era o próprio Gustavo quem trazia um copo de chá espontaneamente.
Ao ver que eu não toquei na bebida e continuei trabalhando, ele pareceu confuso:
"Você não vivia implorando por isso?"
Respondi com indiferença:
"Está tarde. Se eu beber, vou ter insônia".
Houve um silêncio momentâneo.
"Vou ao banheiro e então vamos para casa juntos", disse ele, com a voz fria.
Meio minuto depois, o celular de Gustavo, que ele havia deixado em minha mesa, brilhou.
Era uma mensagem de Luna:
"Guto, seu bobinho! Quem manda dezenas de chás de bolhas de uma vez? Você quer mesmo transformar sua Luna em uma porquinha? Estou até tremendo aqui".
Chegamos em casa depois das onze.
Fui para o quarto e comecei a organizar meus pertences pessoais.
Gustavo entrou no quarto após o banho e percebeu que os itens na penteadeira haviam diminuído visivelmente.
Ele franziu o cenho: "Isadora, vou a Paris a negócios no mês que vem.
Se quiser alguma coisa, faça uma lista para mim".
Respondi sem hesitar: "Não precisa se incomodar, não preciso de nada".
Eu iria embora em poucos dias de qualquer forma.
Não havia motivo para aceitar presentes.
Ele jogou a toalha na cama com força e me encarou com um olhar gélido:
"Só porque comprei um café da manhã que não era do seu agrado, você vai ficar com esse joguinho de birra até agora?"
Eu ia explicar que não estava brava.
Mas ele soltou uma risada debochada:
"Você sabe que eu odeio mulheres dramáticas. Isadora, você cruzou a linha".
Ele entrou no escritório e bateu a porta com violência.
Em sete anos de relacionamento, Gustavo iniciou inúmeras guerras de silêncio.
E eu, em todas elas, implorei humildemente por paz.
No entanto, desta vez, eu realmente não me importava mais.
Ele passou a noite inteira no escritório sem ouvir sequer uma batida na porta.
Na manhã seguinte, preparei o café da manhã para dois, como de costume.
Assim que terminei minha parte e me preparava para ir trabalhar, Gustavo saiu do escritório com um semblante sombrio.
Segurando o celular, ele me deu uma ordem impaciente:
"Isadora, tire o dia de folga. Quero que você faça um bolo artístico idêntico a este até as cinco da tarde".
Desde que começamos a namorar, eu mesma fazia o bolo de aniversário dele todos os anos.
Olhei para o desenho animado na tela do celular dele.
Era a foto de perfil da Luna.
A sala mergulhou no silêncio.
Justo quando ele parecia se dar conta de que o pedido era absurdo, eu apenas assenti.
"Mande a foto para o meu celular. Vou sair agora para comprar os ingredientes".
Sete anos atrás, em um jantar de negócios, se não fosse por Gustavo, eu não teria conseguido sair ilesa daquela situação sendo uma novata no mercado de trabalho.
Ao terminar este bolo, eu realmente não lhe deveria mais nada.
Vendo minha silhueta solitária caminhar em direção à porta, Gustavo me chamou, hesitante.
Não olhei para trás, apenas perguntei:
"Mais alguma instrução?"
"... Já transferi o dinheiro para os ingredientes".
Ao entrar no elevador, abri o histórico de conversas com Gustavo.
Achei irônico notar que, ao longo dos anos, eu havia enviado 5.363 mensagens para ele.
Ele me respondeu apenas 25 vezes.
Na sala, ao ouvir o sinal sonoro indicando que a transferência de cem mil havia sido recusada, Gustavo apertou o celular com força.
Às oito da noite, recebi uma ligação dele.
"Isadora, onde você está?"