No dia em que sofri o acidente e perdi meu bebê, Gustavo passava de carro com sua assistente.
Ao me ver de vestido branco manchado de sangue, ele cobriu os olhos curiosos dela e soltou um frio: "Que azar, não olhe".
E acelerou.
Naquela mesma noite, no canto do armário do nosso quarto, encontrei uma lingerie de renda que não me pertencia.
Fechei a porta do armário e, com calma, disquei um número:
"Dr. Ricardo, tomei minha decisão. Posso me mudar na próxima semana e assumir o cargo na sua empresa".
"Isso é uma ótima notícia, Isadora. Seja bem-vinda".
No segundo seguinte após desligar, Gustavo saiu do banheiro.
O cabelo estava meio úmido, exalando um vapor leve.
Antigamente, ele não levava mais de cinco minutos no banho.
Ultimamente, sempre levava o celular e demorava pelo menos meia hora.
"Com quem você estava falando?" Ao me questionar, os olhos de Gustavo permaneciam fixos na tela do aparelho.
Contei a verdade, que acabara de falar com o Dr. Ricardo.
Ele apenas murmurou um "ah".
Eu sabia que, como de costume, ele nem sequer processou o que eu disse.
E eu, pela primeira vez, não briguei nem questionei.
Comecei a redigir minha carta de demissão no celular.
Quando Gustavo pegou seu copo e percebeu que não havia o chá calmante que eu preparava todas as noites, seu olhar finalmente se voltou para mim, como se fosse uma esmola.
"Isadora, levei seu laudo para um especialista ortopédico. Ele disse que foi apenas um ferimento superficial. É só tomar cuidado para não molhar os pontos".
Continuei digitando sem desviar os olhos: "Entendido".
Naquela tarde, minha perna havia levado oito pontos por causa do acidente.
Além disso, fui diagnosticada com quatro semanas de gravidez e um aborto espontâneo iminente.
O médico lamentou, dizendo que se eu tivesse chegado ao hospital um pouco antes, talvez o bebê pudesse ter sido salvo.
Ao notar meu semblante excessivamente frio, Gustavo franziu as sobrancelhas e fez menção de vir ver o que eu estava fazendo.
Nesse momento, o celular dele vibrou.
Ele sorriu instantaneamente e caminhou em direção ao escritório.
Aproveitei para abrir o perfil dele através de uma conta secundária.
Vi uma nova postagem visível para todos, exceto para mim.
Carta de Retratação.
Autor: Gustavo.
Eu não deveria ter quebrado minha promessa com a assistente mais fofa do universo.
Prometi sair pontualmente para levá-la a um jantar especial, mas por causa do trabalho, deixei que ela passasse fome por dez minutos inteiros.
Eu errei feio e, de agora em diante, serei um chefe melhor.
Curti a postagem e, logo em seguida, recebi o contrato enviado pelo Dr. Ricardo.
Abri o link e assinei meu nome sem hesitar.
Na manhã seguinte, Gustavo acordou cedo e trouxe especialidades de uma famosa rotisserie.
Quando eu ia abrir a embalagem térmica dos pães de caranguejo, ele me deu um tapa na mão, deixando-a vermelha:
"Você não prefere guioza? Comprei os de camarão especialmente para você".
Fiquei atônita por um instante, logo percebendo que os de caranguejo eram para a Luna.
Não consegui me conter e perguntei:
"Estamos juntos há sete anos. Você não sabe que eu sou alérgica a camarão?"
O rosto de Gustavo mudou levemente. Ele se levantou bruscamente e disse friamente:
"Você sempre criando problema. Coma se quiser".
Quando ele estava prestes a sair, entrei no quarto e trouxe uma sacola.
"Quando encontrar a Luna, por favor, devolva isso a ela".
Ao ver a lingerie de renda lá dentro, um brilho de choque passou pelos olhos de Gustavo.
Ele abriu a boca, parecendo querer explicar algo.
Mas, ao ver minha indiferença absoluta, sem qualquer sinal de discussão, ele apenas disse:
"Vou dizer para a Luna parar de ser tão distraída".
"Hum".
Ao notar meu desânimo, Gustavo propôs me levar ao trabalho hoje.
Em sete anos de relacionamento, mesmo sob tempestades, ele, como CEO, sempre foi tão rigoroso entre o pessoal e o profissional que nunca me deu uma carona.
No entanto, desde o primeiro dia de trabalho da Luna, ela desfruta desse privilégio de ida e volta no carro dele.
Pensando nisso, deixei os talheres caírem no chão, meus dedos tremendo ao tentar pegá-los.
Quando me levantei, Gustavo já estava no hall de entrada.
Sem olhar para trás, ele soltou: "Surgiu um imprevisto na empresa. Te levo na próxima" e saiu apressado.
Meia hora depois, apareci mancando em meu posto de trabalho.
Por algum motivo, os olhares dos meus colegas carregavam uma profunda piedade.
Ao ir buscar água, ouvi duas colegas cochichando:
"Então o Sr. Gustavo realmente trocou a Isadora por aquela Luna?"
"Com certeza. Você não viu esta manhã? A Luna teve um pequeno imprevisto com o ciclo menstrual e sujou a saia. O Sr. Gustavo, na frente de todos os diretores na sala de reunião, a pegou no colo como uma princesa e a levou para a sala dele na cobertura".
A caneca em minha mão escorregou e se despedaçou.
A fofoca na copa cessou abruptamente.
Abaixei-me, recolhi os cacos em silêncio e joguei tudo no lixo.