14
Ao sair daquele clube carregado de uma atmosfera opressiva, o vento frio da noite me trouxe uma clareza instantânea. Entrei no carro providenciado por Vitória e me recostei no banco, sentindo o corpo subitamente sem forças.
— O senhor está bem? — Vitória perguntou enquanto ligava o motor, observando meu semblante com preocupação pelo retrovisor.
— Estou bem. A gravação foi salva corretamente? — Minha voz soou um pouco rouca, mas carregava uma determinação inédita.
— A gravação foi criptografada em várias camadas e enviada diretamente para o meu servidor pessoal — Vitória assentiu, com um brilho de desprezo por Letícia nos olhos. — Ainda estou investigando o histórico dela, mas temo que aqueles documentos não sejam falsos.
Fechei os olhos. A imagem do olhar cruel de Letícia antes da minha partida não saía da minha mente. A filha de Ricardo Lin certamente herdou a capacidade diabólica de planejamento do pai. Ela me ajudou a vencer o processo contra Heloísa e até entregou a cabeça da ex-mulher em uma bandeja com um único propósito: conquistar minha confiança absoluta.
Assim, ela poderia usar minhas mãos para obter acesso às credenciais centrais do Grupo Fontes. Aqueles fluxos de caixa que ela me mostrou no jantar eram, muito provavelmente, o trunfo final que seu pai guardou por anos. Se fossem reais, a situação de Isabela era extremamente perigosa. Se fossem falsos, Letícia certamente teria preparado uma mentira perfeita e sem brechas para nos atrair.
— Não vá para a empresa. Vá direto para a casa da minha irmã.
— Mas a senhorita Isabela ordenou que, se o senhor voltasse tarde, eu deveria levá-lo diretamente para a mansão para descansar — Vitória hesitou, claramente querendo me manter fora de conflitos mais profundos.
— Ela quer me proteger, mas não posso deixá-la ser o único alvo exposto.
O carro traçou uma curva elegante na rodovia e acelerou em direção à vila à beira-rio onde Isabela morava. Eu precisava abrir todas as cartas antes que Letícia desse o próximo passo.
Ao chegar, vi Isabela no terraço do segundo andar, fumando. A brasa do cigarro brilhava e se apagava na escuridão, fazendo sua silhueta parecer estranhamente solitária. Ao notar minha chegada tardia com Vitória, ela percebeu que algo estava errado e desceu imediatamente.
— O que houve? Achei que estivesse tratando dos detalhes finais com a advogada. — Ela veio ao meu encontro.
Fiz sinal para que Vitória guardasse a porta e levei Isabela para o escritório.
— Irmã, a pessoa que vi hoje não foi a Dra. Fabiana. Foi Letícia Lin.
Fui direto ao ponto. A mão de Isabela congelou no ar, e seu olhar, sempre imperturbável, estremeceu violentamente.
— Letícia Lin... ela te procurou?
Ela caminhou rapidamente até a porta para verificar as trancas, sua aura tornando-se subitamente afiada como uma lâmina. Coloquei o gravador sobre a mesa e abri as cópias dos documentos que Letícia me dera. Isabela ouviu a gravação em silêncio absoluto e folheou os dados contábeis. O ar no escritório ficou tão pesado que o tique-taque do relógio parecia amplificado.
Longo tempo depois, ela soltou um longo suspiro e desabou na poltrona.
— Bernardo, me desculpe. Eu achei que poderia lidar com isso sozinha, que poderia evitar que você visse essas coisas sujas. — Sua voz carregava uma culpa profunda; era a primeira vez que eu a via tão vulnerável.
— Essas contas são reais? — Aproximei-me dela, fixando meu olhar nos seus olhos.
— Uma parte é real, mas não da forma que Letícia descreveu — Isabela me encarou sem desviar o olhar. — Aquele dinheiro realmente foi transferido, mas foi para salvar nosso pai e garantir os alicerces da família Fontes. Na época, o rombo que Ricardo Lin deixou nas operações internacionais era grande demais. Para equilibrar as contas, tive que usar métodos extremos.
— Esse assunto sempre foi uma bomba-relógio nas minhas costas. Achei que, com a prisão de Ricardo, os rastros tivessem sumido. Não imaginei que ele entregaria isso à filha e que eles planejariam algo tão a longo prazo.
Ela segurou minha mão com uma determinação desesperada.
— Bernardo, amanhã cedo você sai daqui. Vá para o exterior por um tempo. Eu cuido de tudo sozinha. O que ela quer é o Grupo Fontes; se for o caso, eu entrego a ela.
Soltei minha mão bruscamente, e as lágrimas finalmente transbordaram.
— Isabela! Quem você pensa que eu sou? Três anos atrás, você me disse para não fugir, que um Fontes nunca é um desertor. Agora que você está em apuros, quer me mandar embora e me fazer assistir você cair no abismo?
Apoiei as mãos na mesa, encarando sua alma.
— Letícia quer me usar como o ponto de ruptura. Pois bem, vamos virar o jogo contra ela. Ela acha que, com essas "provas", eu ficarei com medo e roubarei seu selo oficial para me salvar. Vamos encenar para ela. Vamos fazê-la acreditar que o plano dela funcionou.
Isabela me olhou com uma mistura de choque e admiração. Ela não esperava que aquele irmão, que antes apenas buscava seu refúgio, tivesse agora tamanha audácia.
— Bernardo, você não entende o quão cruéis os Lin podem ser. Se falharmos, não haverá volta para você.
— Eu já não tenho volta, irmã — sequei as lágrimas, com um olhar frio e límpido. — Aprendi uma coisa no dia em que destruí meu casamento com a Heloísa: a melhor defesa é a aniquilação total do inimigo.