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No fim das contas, eu nunca fui o jogador. Eu era apenas uma peça, um peão disputado e manipulado por diferentes forças no tabuleiro.
Heloísa achou que tinha encontrado minha fraqueza e tentou me usar para chantagear Isabela. Ricardo Lin, por sua vez, me via como a primeira peça do dominó para derrubar todo o clã Fontes. Meu casamento, a traição que sofri, meu contra-ataque... para mim, era uma batalha de sobrevivência pessoal. Mas, para eles, era apenas um movimento insignificante em uma partida monumental.
Uma profunda sensação de impotência me envolveu.
— Então, o desespero final da Heloísa não foi por sua causa — sussurrei para mim mesmo, finalmente conectando os pontos do vídeo. — Foi porque ela percebeu que também tinha sido descartada pelo Ricardo Lin.
Isabela olhou para mim, e um brilho de compaixão cruzou seus olhos.
— Sim. Ricardo prometeu ajudá-la a escapar da justiça com a condição de que ela entregasse você. Heloísa aceitou sem hesitar. Mas ela não esperava que Ricardo nunca tivesse a intenção de cumprir a promessa.
— Ricardo não precisava de uma Heloísa viva e livre. Ele precisava de uma "vítima" que pudesse arrastar os Fontes para a lama. Ele queria criar a ilusão de que nossa família usou seu poder para oprimir e destruir um ex-genro, incitando a opinião pública contra nós. Eu contei essa verdade a ela no final. Foi por isso que ela desmoronou completamente.
O tom de Isabela era calmo, mas revelava uma realidade cruel. Heloísa, a mulher que agia de forma soberana diante de mim, foi enganada do início ao fim. Ela se achava brilhante, mas era pateticamente tola.
— O que fazemos agora? — forcei-me a manter a calma. O medo não resolveria nada. Já que eu estava no jogo, teria que lutar.
— Quando a água sobe, a gente constrói o dique — Isabela deu partida no carro, recuperando sua confiança habitual. — Ele é apenas um velho que acabou de sair da prisão. O mundo mudou nos últimos quinze anos. Ele acha que ainda é o rei do mercado externo, mas eu já limpei cada recurso e contato que ele tinha. Hoje, ele é um tigre sem dentes. Não há o que temer.
As palavras dela me tranquilizaram um pouco, mas eu sabia que ela estava tentando me poupar. Alguém como Ricardo Lin, que suportou quinze anos de cárcere, não voltaria sem um plano de contingência devastador.
Ao chegarmos à mansão, Isabela convocou seus principais assessores para uma reunião de emergência no escritório. Eu não quis interrompê-los. Fui para o meu quarto, liguei o laptop e comecei a pesquisar tudo sobre o nome "Ricardo Lin".
Os dados públicos eram escassos. Havia apenas notícias antigas sobre uma organização de empresários no exterior onde ele atuava como vice-presidente. Nas fotos, ele parecia um homem erudito, gentil, com um sorriso que jamais denunciaria o mentor de conspirações que ele era.
Tentei acessar o banco de dados interno do Grupo Fontes usando as senhas de alto nível que meu pai e Isabela me deram. Desta vez, o passado de Ricardo jorrou como uma torrente: sua ascensão, como ele ganhou a confiança do meu pai, como construiu seu império nas sombras e, finalmente, como planejou o golpe que quase destruiu nossa família.
Quanto mais eu lia, mais meu coração pesava. Isabela disse que ele era um tigre sem dentes, mas os registros mostravam um homem astuto, cruel e extremamente vingativo. Ele era mestre em manipular o coração humano, encontrando o ponto mais vulnerável para desferir o golpe fatal.
Com o meu pai, ele usou a "fraternidade". Com Isabela, o que ele usaria? Seria eu?
Meus pensamentos foram interrompidos por batidas leves na porta. Era a governanta, Zezé, trazendo uma tigela de sopa de ninho de andorinha.
— Menino Bernardo, vi a luz acesa e imaginei que estivesse acordado. A senhorita Isabela pediu para prepararem isso para o senhor relaxar.
Agradeci, sentindo um calor no peito.
— Zezé, você está nesta casa há muito tempo... você se lembra do Ricardo Lin? — perguntei, sondando.
A mão de Zezé, que arrumava a mesa, parou por um instante. Seus olhos turvos mostraram hesitação e um suspiro pesado.
— Como esquecer? — ela baixou a voz. — Naquela época, o Sr. Ricardo e o seu pai eram como irmãos de sangue. Seu pai confiava nele cegamente, entregando os negócios mais importantes em suas mãos. Ninguém imaginava a traição. Foi a maior dor da vida do seu pai.
— Por que perguntou dele agora? — ela quis saber.
— Nada, apenas ouvi minha irmã comentar — menti, para não preocupá-la. — Zezé, que tipo de homem ele era?
Ela pensou por um momento.
— Ele... ele era como uma cobra escondida na grama. Parecia inofensivo, mas uma vez que ele te marcava como alvo, era impossível escapar. E ele tinha uma filha.
— O quê? — levantei o olhar rapidamente. Nenhum dos arquivos mencionava que ele tinha filhos.
— Sim — assentiu Zezé, confusa. — É estranho, depois do escândalo, a menina desapareceu junto com ele. Ninguém soube para onde ela foi.
— Qual era o nome dela? Que idade ela teria? — perguntei ansioso.
— Não lembro bem... acho que era Letícia? Ou algo assim. Ela deve ter quase a mesma idade da senhorita Isabela.
Uma filha misteriosa, da mesma idade de Isabela, que desapareceu sem deixar rastros. Um estalo ecoou na minha mente. Abri o laptop novamente e digitei um nome que eu nunca tinha questionado antes.
Fabiana Lemos.
Minha advogada de divórcio. A mulher que apareceu no meu momento de maior desamparo, profissional, fria e que me garantiu a vitória no tribunal. Ela era perfeita demais. Apareceu no tempo certo, com as informações certas. Coincidência demais.
Acessei os registros mais profundos que o sistema do Grupo Fontes permitia buscar sobre antecedentes civis e históricos escolares internacionais. A ficha dela era impecável... mas, ao cruzar dados de registros de nascimento estrangeiros vinculados a Ricardo Lin antes da sua prisão, o véu caiu.
O nome do pai: Ricardo Lin. O nome de batismo dela não era Fabiana Lemos. Era Letícia Lin.