10
O líquido carmesim na taça oscilava sob a luz suave do restaurante. Cadu tinha um brilho de satisfação genuína no rosto.
— Sabe, Bê... eu nunca te vi tão... radiante — disse ele, observando-me com um olhar nostálgico. — Antes, você era bonito, claro, mas parecia que faltava algo. Como uma pintura coberta por poeira: bela, mas sem alma.
Ele tomou um gole de vinho e continuou:
— Agora é diferente. Você exala uma confiança e uma força que vêm de dentro, do fundo dos seus ossos.
Sorri, saboreando o vinho.
— Talvez seja porque, antes, eu vivia para os outros. Agora, eu só quero viver para mim mesmo.
Isabela, recostada na cadeira, observava-nos com seu habitual ar de superioridade descontraída.
— Exatamente — pontuou ela. — Um irmão meu nasceu para ser rei, não um servo. Aquela mulher, a Cavalcante, não passou de uma pedra no seu caminho. Agora que você a chutou para longe, a estrada à frente está livre e pavimentada.
Ela falava com tamanha naturalidade que parecia que a ruína total de Heloísa era um detalhe insignificante de rodapé. Mas eu sabia que, por trás daquela calma, estavam os métodos implacáveis de Isabela.
— Isabela... o que aconteceu com a Heloísa no final das contas? — não contive a curiosidade.
Minha irmã girou a taça, e um brilho gélido passou por seus olhos.
— Ela foi para o lugar onde pessoas como ela pertencem. Entre as acusações de sonegação fiscal e crimes corporativos, ela tem garantidos pelo menos dez anos atrás das grades.
— E quanto ao "protetor" influente que ela dizia ter? — perguntei.
Isabela soltou uma risada curta.
— Eu o arranquei pela raiz, junto com os esquemas dela. Heloísa passará o resto da vida amargando o que fez lá dentro. Ela nunca mais terá a chance de cruzar o seu caminho ou poluir a sua visão.
Assenti, sentindo o último peso sair dos meus ombros. Em relação a Heloísa, eu não sentia mais ódio. Apenas uma indiferença absoluta. O fim dela foi consequência de suas próprias escolhas.
— Ah! — Cadu exclamou, lembrando-se de algo. Ele se inclinou, conspiratório. — Vocês não imaginam quem eu vi nas notícias de fofoca hoje.
— Quem? — perguntei.
— Thiago Costa! — O tom de Cadu era de puro deleite com a desgraça alheia. — Ele foi fotografado trabalhando como garçom em um restaurante de beira de estrada na cidade natal dele. Usando um uniforme barato, sendo humilhado pelos clientes. Nem parece aquele secretário de luxo arrogante de antes.
— Dizem que a reputação dele ficou tão suja que nem a família quer papo. Os pais o expulsaram de casa por vergonha. Agora ele vive de bicos, numa miséria total.
A notícia não me causou grande impacto. A tragédia de Thiago foi nunca ter entendido o seu real lugar no mundo.
Enquanto conversávamos, o celular de Isabela tocou. Ela olhou para a tela e franziu o cenho levemente. Levantou-se para atender a uma certa distância. Embora falasse baixo, consegui captar fragmentos da conversa.
“...Tem certeza?”
“...Ela voltou?”
“...Entendi. Mantenha os olhos nela.”
Quando ela retornou à mesa, sua expressão parecia calma, mas seus olhos profundos escondiam uma seriedade que eu não conseguia decifrar.
— Aconteceu algo, irmã? — questionei.
— Nada demais — respondeu ela, sentando-se. — Um pequeno contratempo na empresa, já está sendo resolvido.
Quanto mais ela minimizava, mais eu sentia que algo estava errado. Isabela é o tipo de pessoa que não se abala nem se o mundo estiver acabando. Aquela expressão não era para um "pequeno contratempo". Mas, como ela não queria falar, não insisti.
O jantar terminou em um clima sutilmente tenso. Isabela deixou Cadu em casa e seguimos para a mansão dos Fontes. Durante o trajeto, ela permaneceu em silêncio, batucando os dedos no volante — um hábito que ela tem quando está processando algo complexo.
— Isabela — eu finalmente quebrei o silêncio. — Quem foi que voltou?
A mão dela apertou o volante com força. O carro reduziu a velocidade até parar no acostamento. Ela virou-se para mim com um olhar carregado de emoções conflitantes.
— Bernardo... há coisas que eu não queria que você enfrentasse tão cedo. Mas parece que não há como fugir mais.
Ela respirou fundo, como quem toma uma decisão irrevogável.
— Você se lembra de um homem que frequentava nossa casa quando éramos crianças? Um tal de Ricardo Lin?
Busquei na memória. Um vulto borrado começou a ganhar nitidez. Era um homem de aparência erudita e gentil, sempre usando óculos de armação dourada. Ele sempre trazia brinquedos sofisticados para mim. Meu pai e ele pareciam muito próximos, passando tardes inteiras trancados no escritório. Mas, de repente, ele desapareceu.
— Lembro vagamente — eu disse. — O que tem ele?
— Ele não desapareceu. Ele foi colocado na cadeia pelo nosso pai — a voz de Isabela estava sombria. — Ele gerenciava todos os ativos do clã Fontes no exterior, mas deixou a ganância falar mais alto e tentou dar um golpe para tomar todo o império. Quase fomos à falência por causa dele.
— No último segundo, papai conseguiu as provas e o mandou para a prisão por quinze anos. Pelas minhas contas... a pena dele terminou este mês.
Meu coração deu um salto.
— A ligação que você recebeu... ele voltou?
— Sim — Isabela assentiu, a expressão endurecida. — E há algo pior. Assim que saiu, ele entrou em contato com Heloísa Cavalcante.
— O quê?! — quase gritei. — Como? Ela não está sob custódia?
— Foi antes da prisão preventiva ser oficializada — explicou Isabela, com os olhos afiados como lâminas. — Eles se encontraram no centro de detenção através de um advogado subornado. Ricardo Lin não voltou apenas para recomeçar. Ele voltou por vingança.
— Ele quer destruir os Fontes. E por causa de tudo o que aconteceu com você e a Heloísa, ele encontrou a brecha perfeita. Heloísa viu em você um trunfo contra mim, mas Ricardo Lin... ele vê você como a peça fundamental para derrubar toda a nossa família.
Senti um calafrio percorrer minha espinha. Eu achei que tinha escapado do pesadelo chamado Heloísa Cavalcante, mas mal sabia que, sem querer, eu havia sido arrastado para o centro de um turbilhão muito mais sombrio e perigoso.