08
— O quê?
Do outro lado da linha, a Dra. Fabiana Lemos ficou visivelmente atordoada com a minha decisão.
— Tem certeza disso, senhor Bernardo? Este é o momento ideal. Temos a vantagem absoluta, ela está disposta a aceitar tudo sem questionar, nós poderíamos...
— Dra. Fabiana — interrompi, minha voz soando baixa e firme. — Hoje, ela enviou pessoas para me matar.
Houve um silêncio mortal do outro lado da linha. Após um longo tempo, a advogada respondeu com uma voz pesada e sombria.
— Eu compreendo agora. Heloísa Cavalcante cavou a própria cova. Já sei exatamente o que fazer. Fique tranquilo, farei com que ela pague o preço mais alto possível por cada um de seus atos.
Ao desligar, meu coração ainda batia descompassado. Cadu me olhava com uma preocupação evidente.
— Bernardo... a Heloísa...
— Sim — assenti. — Ela me queria morto.
O rosto de Cadu perdeu a cor instantaneamente, sendo substituído por uma fúria avassaladora.
— Aquela desgraçada! Como ela teve coragem?! — Ele tremia de raiva. — Vamos à polícia! Vamos denunciar isso agora mesmo!
— Não precisa — balancei a cabeça negativamente. — Minha irmã vai cuidar disso.
Eu tinha confiança absoluta nos métodos de Isabela. Se Heloísa queria jogar sujo, ela tinha escolhido o adversário errado. Peguei o celular exclusivo para falar com Isabela. Havia uma mensagem nova dela, com apenas uma palavra:
"Confie."
Logo em seguida, um vídeo foi enviado. Dei o play.
A imagem estava escura, parecia um galpão abandonado. Heloísa estava de joelhos, em uma situação deplorável. Suas roupas caríssimas estavam sujas e rasgadas, o cabelo desgrenhado e o rosto apresentava hematomas. Não restava nenhum traço daquela mulher arrogante que me ameaçara no café.
Ao lado dela, também ajoelhados, estavam os homens que me seguiram mais cedo. Estavam todos desfigurados, claramente após terem recebido uma lição severa. No vídeo, uma mulher de jaqueta de couro preta, de silhueta esguia, estava de costas para a câmera. Ela brincava com um isqueiro de metal, que emitia um estalo rítmico:
clack, clack
.
O galpão estava em silêncio absoluto, quebrado apenas pelo som do isqueiro e pela respiração pesada e ofegante de Heloísa.
— Então, Dra. Heloísa... — Isabela finalmente falou. Sua voz era gélida, desprovida de qualquer emoção. — Ouvi dizer que você queria que meu irmão desaparecesse deste mundo?
O corpo de Heloísa estremeceu violentamente. Ela ergueu o rosto aterrorizado.
— Não... não é isso... é um mal-entendido! Eu... eu não sabia que ele era seu irmão! — Ela gaguejava, desesperada. — Dona Isabela! Eu juro que não sabia! Se eu soubesse da ligação dele com a senhora, eu nunca teria ousado, nem em um milhão de anos!
— Ah, é? — Isabela soltou uma risada curta e se virou. Seu rosto estava parcialmente nas sombras, mas seus olhos brilhavam como os de um falcão na escuridão. — Então sua lógica é: se ele fosse apenas um homem comum, sem uma irmã poderosa, você poderia tirar a vida dele quando bem entendesse?
— Eu... não foi o que eu quis dizer... — O suor frio escorria pela testa de Heloísa. — Foi um momento de loucura! Eu fui encurralada! Dona Isabela, por favor, tenha piedade! Eu pago o que for preciso! Entrego todo o meu patrimônio para ele! Só peço que me deixe viver!
Ela começou a bater a testa no chão de cimento repetidamente, num gesto frenético de súplica. Isabela apenas observava, imóvel. Quando Heloísa estava prestes a desmaiar de exaustão e dor, Isabela se agachou e tocou o rosto dela com o metal gelado do isqueiro.
— Heloísa Cavalcante. Seu maior erro não foi trair meu irmão. Nem desviar dinheiro, muito menos ameaçá-lo.
Isabela aproximou-se do ouvido de Heloísa e sussurrou algo que apenas as duas puderam ouvir. O vídeo terminou abruptamente ali.
Não sei o que Isabela disse, mas vi Heloísa desabar completamente, como se toda a força tivesse sido drenada de seu corpo. Em seu rosto, havia uma expressão de desespero absoluto, algo pior do que o medo da morte.
Fechei o celular e soltei um longo suspiro. Estava acabado. O destino de Heloísa estava selado. Ela havia tocado no ponto mais sensível de Isabela, e o que a aguardava seria um abismo muito mais profundo do que qualquer punição legal.
Nesse momento, a porta da suíte se abriu. Isabela entrou. Ela agora vestia roupas casuais limpas e exalava um perfume suave e sofisticado. Ao me ver, exibiu aquele sorriso sarcástico e familiar.
— E então? Ficou tão emocionado com a sua irmã te defendendo que vai querer se casar comigo agora?
Cadu, ao lado, estava em choque. Ele olhava para a beleza estonteante e a aura de poder de Isabela sem conseguir articular uma palavra. Eu apenas revirei os olhos.
— Nem nos seus sonhos.
Embora eu respondesse com ironia, sentia um conforto e uma segurança que não experimentava há anos.
— Está tudo resolvido? — perguntei.
— Sim — Isabela foi até o bar e serviu-se de um whisky. — Problemas pequenos não merecem muita atenção.
Ela tomou um gole e fixou o olhar em mim.
— Mas e você? O que pretende fazer agora? Vai voltar para casa?
Casa? O termo me soou estranho. A mansão dos Fontes, aquele lugar onde meu pai me via como uma decepção e minha madrasta como um inimigo... eu poderia mesmo voltar?
— Eu... não tenho certeza — respondi.
Isabela percebeu minha hesitação. Ela pousou o copo, veio até mim e bagunçou meu cabelo com um gesto carinhoso, exatamente como fazia quando éramos crianças.
— Seu bobo — disse ela, com uma doçura rara. — Onde eu estiver, será a sua casa. Mas... — ela mudou o tom — se você quiser voltar para a empresa, as portas estão abertas. Para ser sincera, o papai não anda muito bem de saúde e aqueles velhos conselheiros estão começando a querer aparecer demais. Estou sobrecarregada. Volte e me ajude.
Ela me encarou com uma expectativa genuína nos olhos.
— Bernardo, chega de brincar de dono de casa. Volte para onde você pertence. Assuma o seu lugar como o verdadeiro herdeiro da família Fontes.