06
— Você está mentindo! — gritou Thiago, perdendo completamente o controle. — A Heloísa me ama! Ela só está agindo assim porque você a encurralou!
Ele apontou freneticamente para o acordo sobre a mesa.
— Você acha que só porque tem alguns segredos dela, pode fazer o que quiser? Fique sabendo que a Heloísa já se preveniu! Essas suas "provas" não valem nada, você nunca vai conseguir derrubá-la!
Observei aquela bravata vazia e entendi tudo. Heloísa estava desesperada, agindo como um animal acuado. Mandar Thiago como mediador e tentar me provocar com uma psicologia reversa tão barata... era sinal de que ela realmente não tinha mais para onde correr.
Ignorei-o completamente e voltei minha atenção para a Dra. Luciana.
— Dra. Luciana, se veio aqui para negociar um acordo, deveria demonstrar o mínimo de seriedade. Permitir que um terceiro fique gritando e interrompendo... é essa a "sinceridade" da Sra. Heloísa Cavalcante?
A advogada pareceu visivelmente constrangida. Ela ajeitou os óculos e lançou um olhar severo para Thiago.
— Senhor, por favor, recomponha-se.
Em seguida, ela adotou um tom estritamente profissional para se dirigir a mim.
— Senhor Bernardo, foquemos no conteúdo da proposta. A Sra. Heloísa está disposta a transferir para o seu nome o apartamento da Zona Sul e um dos veículos da frota particular. Além disso, ela oferece uma compensação adicional de cinco milhões de reais em espécie.
— Em troca, o senhor assina o acordo de confidencialidade e destrói todas as supostas "evidências" que possui. Assim, as contas estariam quitadas entre vocês.
Ela falava com uma leveza insultuosa. O apartamento da Zona Sul era o imóvel menos valorizado de todo o patrimônio dela. O carro era um modelo antigo que ela já planejava descartar. E quanto aos cinco milhões... perto da fortuna bilionária dela e do rombo fiscal que ela ocultava, aquilo era uma esmola para despachar um mendigo.
— Dra. Luciana — eu sorri. — Eu tenho cara de quem é tão fácil de enganar? Ou a senhora realmente acredita que a liberdade da Heloísa vale tão pouco?
O rosto da advogada mudou de cor.
— Espero que o senhor considere bem as suas opções. Uma guerra total não trará benefícios a ninguém. A empresa da Sra. Heloísa sustenta milhares de famílias. Se algo acontecer à companhia, o senhor terá coragem de carregar essa responsabilidade nas costas?
Ela tentou inverter os papéis, usando a moralidade para me chantagear emocionalmente.
— Eu carregar a responsabilidade? — Soltei uma risada fria. — Doutora, esse é o tipo de sermão que a senhora deveria dar à Heloísa. Foi ela quem, para satisfazer seus próprios desejos, colocou a empresa em risco. Foi ela quem burlou a lei e criou esta situação. Por que agora a responsabilidade deve recair sobre mim, a vítima? Existe alguma lógica nisso?
Minhas palavras foram precisas como bisturis, deixando a Dra. Luciana sem argumentos. Thiago, ao lado, alternava entre o vermelho e o pálido. Ele nunca imaginou que o homem submisso que ele conhecia pudesse ser tão articulado.
— Bernardo, não seja mal-agradecido! — ele explodiu novamente. — A Heloísa está te oferecendo dinheiro por consideração ao passado! Você acha mesmo que pode contra ela? Vou te dizer uma coisa: se continuar sendo teimoso, você vai sair daqui sem um centavo sequer!
— É mesmo? — Meu olhar finalmente caiu sobre ele, mas desta vez com um profundo sentimento de piedade. — Thiago, você sabia que você é uma figura patética? Você acha que venceu, que conquistou essa mulher... mas na verdade, você só catou o lixo que eu joguei fora.
— O quê?! — Thiago tremia de ódio.
— E você ainda é ingênuo o suficiente para acreditar que ela vai se casar com você?
Peguei meu celular e dei play em uma gravação. Era a conversa de ontem com Henrique, o irmão dela. A voz ansiosa de Henrique ecoou pela sala, nítida:
"...Cunhado, volta logo, por favor. Minha irmã disse que, assim que você voltar, ela termina na hora com aquele encostado do Thiago! Ela disse que foi um momento de fraqueza, uma diversão passageira, mas que o único homem que ela ama de verdade é você! Ela disse que um tipo como o Thiago não tem o nível necessário para entrar na família Cavalcante..."
A gravação era curta, mas cada palavra soou como um tapa violento no rosto de Thiago. A cor fugiu de seu rosto, que ficou acinzentado. Ele cambaleou, parecendo prestes a desabar.
— Não... não pode ser... — ele murmurou para si mesmo, os olhos cheios de desespero. — Isso é montagem... você inventou isso... não é verdade...
— Se é verdade ou não, você sabe no fundo do seu coração — guardei o celular e me levantei. — Se a Heloísa foi capaz de trair o marido que a ajudou a construir tudo do zero por puro interesse, ela sacrificaria um amante como você em um piscar de olhos. Para ela, homens são apenas acessórios descartáveis. Thiago, boa sorte com o que restar da sua vida.
Sem olhar para ele, dei o ultimato à Dra. Luciana.
— Doutora, diga à Heloísa: minhas condições já foram passadas pela Dra. Fabiana, e não aceito um centavo a menos. Além disso, minha paciência tem limite. Se em três dias eu não vir uma proposta real de acordo, esses documentos serão entregues diretamente às autoridades fiscais e à corregedoria. A partir daí, conversaremos apenas diante de um juiz.
A Dra. Luciana estava com a testa suada. Ela sabia que a negociação tinha fracassado por completo. Ela saiu arrastando o Thiago, que parecia uma alma penada, em total derrota.
Cadu aproximou-se e fez um sinal de positivo.
— Mandou bem, Bê! Com gente assim, não se pode ter piedade.
Eu sorri, mas não senti a euforia da vitória. Eu conhecia Heloísa; sabia que, encurralada, ela seria capaz de qualquer loucura.
E eu estava certo. Naquela mesma noite, recebi uma ligação da Dra. Fabiana. O tom dela era de extrema gravidade.
— Senhor Bernardo, temos um problema. A Heloísa acionou contatos influentes para tentar pressionar o tribunal. E recebi um alerta: ela contratou pessoas... o alvo parece ser o senhor. Ela quer que o senhor desapareça permanentemente.
Meu coração pesou. Eu tinha subestimado a crueldade dela. Para se salvar, ela estava disposta a tirar a minha vida.
— Entendi, Dra. Fabiana — respondi com uma calma gélida.
Desliguei e olhei para a escuridão da noite lá fora. Meus olhos se tornaram frios.
Heloísa Cavalcante, você escolheu o seu destino.
Peguei outro celular, um aparelho que eu não usava há anos, e disquei um número que estava na minha memória. Chamou várias vezes até que uma voz feminina, preguiçosa e rouca, atendeu.
— Alô?
— Isabela — eu disse suavemente.
— Sou eu, o Bernardo.
Houve um silêncio do outro lado, seguido por uma risada leve e sarcástica.
— Ora, ora... o grande herdeiro da família Fontes finalmente se lembrou que tem uma irmã? O que foi? Cansou de brincar de marido de troféu e resolveu voltar para assumir o império da família?
O tom dela era provocador, mas só eu sabia que Isabela Fontes — a verdadeira sucessora do clã Fontes, vista por muitos como uma rebelde — possuía um poder e uma frieza aterrorizantes.
— Isabela, eu estou me divorciando. E preciso da sua ajuda.