04
Eu me virei e fui embora. Sem um pingo de saudade ou hesitação.
Atrás de mim, o som agudo e cortante de uma xícara de café se estilhaçando contra o chão ecoou pelo recinto, acompanhado pelo rosnado contido de fúria de Heloísa. Ela certamente acreditava que eu ficaria intimidado, que eu olharia para trás em busca de misericórdia. Mas eu nem sequer diminui o passo.
Ao cruzar a porta, pude sentir o olhar dela, carregado de um rancor venenoso, como se quisesse atravessar minhas costas. Assim que pisei na calçada, a luz do sol me envolveu. Estava morna, acolhedora. Respirei fundo, expelindo a última partícula de ar pesado que ainda restava em meus pulmões.
A partir de hoje, Bernardo Fontes viveria apenas para si mesmo.
O toque do celular interrompeu o momento. Era um número desconhecido. Atendi.
— Senhor Bernardo? Aqui é a Dra. Fabiana Lemos. — A voz do outro lado era firme e profissional.
— Sim, doutora. Acabei de resolver o que precisava.
— Excelente. Estou aguardando o senhor no escritório para discutirmos os próximos passos.
— Estarei aí em breve.
Desliguei, chamei um carro por aplicativo e segui direto para o escritório de advocacia. Fabiana Lemos era uma indicação de Cadu. Ela era uma das melhores advogadas de família do país, especialista em casos complexos envolvendo partilha de bens e participações societárias. Para este dia, eu havia me preparado por um ano inteiro.
Quando entreguei o pendrive com os backups e uma pilha de documentos para a Dra. Fabiana, até mesmo o seu rosto, habitualmente impassível, demonstrou surpresa. Ela folheou os arquivos rapidamente, franzindo o cenho conforme avançava na leitura.
— Senhor Bernardo, essas evidências... — Ela ajeitou os óculos, assumindo um tom solene. — Isso vai muito além de uma simples traição ou transferência de bens.
— Eu sei — respondi com calma.
Heloísa achava que, nesses três anos, eu tinha me tornado uma "flor de estufa", um homem que não entendia nada de negócios. Ela se esqueceu de um detalhe vital. Quando a empresa estava começando, fui eu quem a acompanhou em cada jantar de negócios para atrair investidores. O primeiro balanço financeiro da companhia foi feito por mim, após três noites em claro. O planejamento tributário foi estruturado por mim, consultando amigos e analisando cada cláusula detalhadamente.
Depois que a empresa decolou, ela disse que não queria que eu "me desgastasse" e pediu que eu ficasse em casa. Disse que ela "manteria o céu sobre nossas cabeças". Agora, vejo como isso era ridículo. Ela não tinha medo do meu cansaço; ela tinha medo de que eu soubesse demais e me tornasse um obstáculo. Queria me transformar em um inútil alienado, preso na gaiola dourada que ela construiu.
Mas ela falhou. O fato de ela ter me deixado gerenciar os investimentos e despesas domésticas foi a minha grande oportunidade.
Cada movimentação financeira suspeita, cada empresa de fachada que ela abriu para evasão fiscal, cada "presente generoso" enviado para conseguir projetos... eu mantive o registro de tudo. Os recibos do apartamento onde ela se encontrava com Thiago, as notas dos carros, até os gastos das viagens internacionais. Coletei tudo, peça por peça.
No fundo, eu esperava nunca ter que usar nada disso. Tive a esperança ingênua de que ela mudaria. Mas a realidade me deu um tapa doloroso na cara.
— A empresa da Heloísa trabalha com dois sistemas de contabilidade — expliquei à Dra. Fabiana. — Um para o fisco e outro interno. O que está nesses arquivos são os dados reais da contabilidade interna e as provas diretas de sonegação fiscal.
A advogada tamborilou os dedos na mesa, os olhos brilhando com o entusiasmo de quem encontra uma linha de evidência perfeita.
— Senhor Bernardo, com isso aqui, temos o controle absoluto da situação. A Dra. Heloísa não apenas terá que dividir mais da metade do patrimônio com o senhor, como também, se levarmos isso às autoridades fiscais, ela poderá enfrentar sérios problemas criminais.
— Eu entendo perfeitamente.
E eu entendia mesmo. Aquela era a minha última carta na manga. Não sou nenhum santo para ser ferido e ainda me preocupar com o bem-estar do agressor. Se Heloísa teve coragem de fazer o que fez, agora deve ter a coragem de arcar com as consequências.
— Então, o primeiro passo será o pedido de bloqueio de bens — declarou a Dra. Fabiana, decidida. — Vamos congelar todas as contas bancárias, ações e imóveis no nome dela para evitar novas transferências. Ao mesmo tempo, entrarei com a ação de divórcio no tribunal. A notificação judicial chegará na mesa dela ainda hoje à tarde.
— Perfeito. Confio no seu trabalho.
Levantei-me e apertei a mão da Dra. Fabiana.
— Sucesso em nossa parceria.
— Sucesso para nós.
Saí do escritório quando o céu já começava a escurecer. Liguei para Cadu avisando que não voltaria para jantar; queria caminhar um pouco sozinho. As luzes da cidade se acendiam, colorindo a noite. Caminhando entre a multidão, senti pela primeira vez em três anos que eu pertencia novamente ao mundo real, e não àquela prisão luxuosa chamada "lar".
Meu celular vibrou. Era uma mensagem do banco. Um investimento que eu tinha antes de me casar havia vencido. Não era uma fortuna, mas era o suficiente para me manter bem por um bom tempo. Era minha reserva de emergência, meu capital para começar uma nova vida.
Heloísa me chamou de inútil e disse que eu não sobreviveria sem ela. Ela nunca saberá que eu já tinha pavimentado meu próprio caminho de volta muito antes de partir.
Entrei em um restaurante sofisticado, pedi um bom filé e abri uma garrafa de vinho tinto. Jantei sozinho, saboreando cada momento. Era uma celebração pelo meu renascimento.
No meio da refeição, recebi uma ligação inesperada. Era Henrique Cavalcante, o irmão dela. O tom de voz não era mais o arrogante do grupo de WhatsApp; agora, ele parecia cauteloso, quase hesitante.
— Cunhado... onde você está?
— Precisa de algo? — respondi com frieza.
— Minha irmã... ela chegou em casa. Se trancou no escritório e parece ter perdido a cabeça. Está quebrando tudo lá dentro. Meus pais estão desesperados. Você não pode vir aqui? Conversa com ela, cara... briga de marido e mulher passa.
Quase soltei uma gargalhada. Conversar?
— Se sua irmã está quebrando coisas, você deveria chamar a polícia, não a mim. Eu não sou médico para tratar o surto psicótico dela.
— Como você pode falar assim, cunhado...
— Não tenho tempo para as suas bobagens — interrompi-o. — Se você veio como mediador, poupe suas palavras. No momento em que saí daquela casa, decidi que nunca mais voltaria. E mais uma coisa: não me chame de cunhado. Isso me dá nojo.
Desliguei na cara dele e bloqueei todos os números da família Cavalcante de uma vez por todas. O mundo voltou a ficar em paz.
O sabor do filé parecia ainda melhor agora.