02
Dois dias depois, eu estava na casa de Cadu assistindo a uma comédia. Ridíamos tanto que mal conseguíamos respirar, até que o celular dele tocou.
Ele olhou para a tela e, instantaneamente, o sorriso desapareceu, dando lugar a uma expressão de irritação. Era minha mãe.
Cadu me entregou o aparelho e ativou o viva-voz. No momento em que a ligação foi completada, a voz ansiosa e embargada de Dona Glória invadiu a sala.
— Cadu! Graças a Deus você atendeu! Você sabe onde o Bernardo se meteu? Por que o celular dele está desligado esse tempo todo?
Eu não disse uma palavra, apenas escutei em silêncio. Cadu trocou um olhar comigo e, seguindo o que havíamos planejado, respondeu com a voz mais calma do mundo.
— Dona Glória, não se preocupe. O Bernardo está aqui comigo. Ele só precisa de um tempo sozinho para colocar a cabeça no lugar.
— Tempo sozinho? Que história é essa de tempo sozinho agora?! — A voz da minha mãe subiu de tom; ela parecia estar à beira de um colapso. — Os Cavalcante estão quase derrubando a nossa porta!
— Os sogros dele, o cunhado... eles vêm aqui oito vezes por dia! Dizem que só saem quando o virem. A vizinhança inteira está acompanhando esse circo, dizendo que não demos educação ao Bernardo, que ele está transformando a vida da família da Heloísa em um inferno!
Um sorriso amargo e frio surgiu em meus lábios. Um inferno? Agora eles sabem o que é um inferno?
Onde estava toda essa preocupação quando a Heloísa levava o amante para dentro da nossa casa? Por que ninguém falava em "escândalo" naquela época?
— Dona Glória, esse é um problema do Bernardo. Deixe que ele resolva do jeito dele — rebateu Cadu, agora com um tom mais ríspido.
— Resolver? Ele é um cabeça-dura! — minha mãe gritou em meio ao choro. — Os Cavalcante garantiram que, se o Bernardo voltar e agir como um marido de verdade, eles perdoam tudo! Aquele tal de Thiago, o secretário, já foi demitido. A Heloísa admitiu que errou! Cadu, convença ele, peça para ele me ligar agora mesmo. Ele não pode continuar se escondendo!
Cadu ia retrucar, mas eu balancei a cabeça negativamente para ele.
— Eu vou dar o recado a ele, Dona Glória. Não se exalte tanto, cuide da sua saúde.
Ele desligou. O silêncio voltou a reinar na sala, mas era um silêncio pesado.
— Viu só? — Cadu fez uma careta de desprezo. — Eles são sempre assim. Só sabem exigir que você seja "generoso" e "compreensivo".
Assenti, sentindo uma paz gélida no coração. Eu conhecia minha mãe melhor do que ninguém. Para ela, as aparências valiam mais do que a dignidade. Heloísa era a nora perfeita aos olhos dela; ter o filho casado com uma Cavalcante era o maior troféu de sua vida social.
Agora que eu pedia o divórcio, e de uma forma tão "indiscreta", ela não via isso como uma busca por justiça. Para ela, eu estava apenas a fazendo passar vergonha diante dos vizinhos.
— Como eles não te acham, vão continuar infernizando a vida da sua mãe — comentou Cadu, preocupado.
— Não tem problema — respondi secamente. — Deixe que façam barulho. Vai ser ótimo para que toda a vizinhança veja quem os Cavalcante são de verdade. A opinião pública também pode ser uma arma.
Fiquei em silêncio por um momento e liguei meu celular. Uma avalanche de chamadas perdidas e mensagens inundou a tela. A maioria era de Heloísa e de sua família. Ignorei todas e abri o WhatsApp.
O grupo "Família Cavalcante" estava em chamas. Abaixo da foto e do texto que eu havia postado, havia centenas de mensagens de discussão.
No início, era choque e incredulidade. Depois, Heloísa apareceu. Primeiro, furiosa, me marcando e exigindo que eu apagasse tudo imediatamente. Vendo que eu não reagia, ela mudou a tática e começou a dar explicações vazias, dizendo que tudo era um mal-entendido, uma armação maliciosa do Thiago para prejudicá-la.
Mas o fundo daquela foto... qualquer um reconheceria que era a nossa suíte master. As justificativas dela soavam patéticas.
Meus sogros, por sua vez, começaram a apelar para o sentimentalismo. Diziam que eu sempre fui um "bom rapaz" e que não deveria agir por impulso por causa de uma "bobagem". Falavam que a família deveria permanecer unida e que não podíamos virar piada para os outros.
Henrique, o irmão caçula, foi o mais agressivo. Me atacou diretamente, dizendo que eu estava fazendo uma tempestade em copo d'água. Segundo ele, "todo mundo erra", e eu era o único "intolerante" que não sabia perdoar.
Observei aquelas palavras como quem assiste a uma peça de teatro grotesca. Essa era a família que eu servi com dedicação por três anos. No momento da crise, ninguém se importou se eu estava ferido; a única preocupação deles era o prestígio e os interesses do clã Cavalcante.
O celular vibrou novamente. Uma nova mensagem de SMS. Era de Heloísa.
"Bernardo, chega desse show. Volte para casa agora."
"Te dou meia hora para me encontrar naquele café de sempre. Precisamos conversar."
"Se você não aparecer, arque com as consequências."
Olhei para aquela mensagem carregada de ameaça e autoridade. Eu ri. Ela ainda achava, de verdade, que tinha as rédeas da minha vida em suas mãos.