Aos olhos dos funcionários da empresa da minha esposa, eu não passava de um "dona de casa" dedicado, um homem doméstico e sem sal. Enquanto isso, Thiago Costa, o secretário dela, era visto como seu braço direito, o homem de confiança. Para todos que observavam de fora, eles pareciam o par ideal.
Até que Thiago decidiu cruzar a linha. Ele me enviou uma foto de Heloísa dormindo, com um tom de deboche que queimava: "E aí, cara? Você realmente acha que consegue segurar uma mulher como a Dra. Heloísa?"
Eu não conseguia. E, sinceramente, não queria mais.
Tirei um print da conversa e, junto com aquela foto, joguei tudo no grupo oficial da diretoria da empresa com uma legenda curta: "Parabéns ao secretário Thiago! Ele acaba de ser promovido a dono de casa oficial."
Em menos de um minuto, o caos se instalou na empresa.
01
Para os funcionários, eu era apenas um marido dedicado, porém sem nenhum atrativo. Thiago Costa, por outro lado, era jovem, charmoso, prestativo e a peça-chave nos negócios dela. Todos sentiam que a química entre eles era inegável.
Até que recebi aquela mensagem de Thiago com uma foto de Heloísa Cavalcante dormindo profundamente. O cenário me era dolorosamente familiar: a cama do nosso quarto principal, a mesma que escolhemos juntos quando nos casamos.
A provocação de Thiago veio logo em seguida. "E aí, cara? Você realmente acha que consegue segurar uma mulher como a Dra. Heloísa?"
A luz da tela do celular refletia meu rosto, que permanecia impassível. Eu não conseguia segurá-la. E já não fazia questão.
Passei os últimos três anos ajudando Heloísa a transformar uma pequena oficina em um império de centenas de milhões. Conforme ela crescia, suas horas em casa diminuíam. O perfume masculino que ela trazia nas roupas mudava de fragrância constantemente. Eu não era cego. Estava apenas esperando o momento certo para deixar a última esperança morrer.
Agora, Thiago havia me entregado esse momento de bandeja. Olhando para aquela foto, senti vontade de rir. Ele provavelmente esperava que eu tivesse uma crise de histeria, que fosse chorar e confrontar Heloísa, causando um escândalo.
Pena que eu não era o personagem que ele imaginou para o seu roteiro.
Com toda a calma do mundo, tirei um print da conversa. Enviei a imagem e a foto diretamente para o grupo "Família Cavalcante", o chat dos diretores e conselheiros da empresa. Ali estavam os fundadores, os vice-presidentes que ela mais confiava, além dos pais e do irmão dela. Heloísa me colocou lá para manter as aparências de um casamento perfeito. Agora, aquele grupo teria uma utilidade real.
Digitei a primeira frase: "@todos, peço um minuto da atenção de vocês para um anúncio importante."
Quase instantaneamente, as respostas começaram a surgir. Henrique Cavalcante, o irmão dela, foi o primeiro: "Cunhado, aconteceu alguma coisa a essa hora?" Um dos vice-presidentes apenas saudou: "Boa noite, senhor."
Eu não respondi. Meus dedos deslizaram suavemente pela tela para a mensagem final.
"Meus parabéns ao secretário Thiago! Para celebrar que ele assumirá em breve o cargo de dono de casa em tempo integral, decidi sair de cena e dar a minha bênção ao casal."
A mensagem foi enviada. Em seguida, disparei o print e a foto. No momento em que terminei, senti como se um peso enorme, que carreguei por três anos, tivesse sido removido do meu peito. Uma leveza sem precedentes.
Não parei para ler as notificações que explodiam nem atendi as chamadas frenéticas de "Heloísa" que brilhavam na tela. Simplesmente desliguei o aparelho. O mundo, enfim, ficou em silêncio.
Fui até o closet e peguei a mala que já deixara pronta. Dentro, apenas algumas roupas e meus documentos essenciais. Tudo naquela casa era patrimônio do casal, mas cada objeto que comprei com tanto carinho agora me parecia sujo.
Saí puxando minha mala sem olhar para trás. Da mesma forma que entrei nesse casamento de corpo e alma há três anos, agora eu saía com a mesma determinação. O vento da noite bateu no meu rosto, trazendo um frescor libertador.
Peguei um táxi e fui para a casa do meu grande amigo Cadu. Ele abriu a porta e não demonstrou surpresa ao me ver com as malas; apenas pegou a bagagem da minha mão em silêncio.
"Finalmente tomou uma decisão?"
"Sim. Cansei."
"Ainda bem. Vá tomar um banho e descansar. Amanhã a gente resolve o que tiver que resolver."
Assenti. Naquela noite, dormi como não dormia há anos. Sem Heloísa ao meu lado, até o ar parecia mais puro.