Serena mal acreditou no que os ouvidos tinham captado.
Olhou para o homem na frente dela, que estava comendo macarrão com aquela calma elegante de sempre.
Serena pegou a escritura.
E viu, com todas as letras, que era exatamente o apartamento onde ela estava.
Quando veio para a cidade, tinha dois objetivos: conseguir o medicamento para Zara e continuar procurando Henrique.
Não sabia por quanto tempo ficaria, então nem tinha pensado em comprar imóvel.
O apartamento era perto do instituto e das escolas dos filhos, discreto e seguro. Ela tinha alugado sem pensar muito.
E agora, sem ter previsto nada disso...
"Rafael Duarte, você fez de propósito." Serena estava tão irritada que usou o nome completo.
Rafael limpou o canto da boca com o guardanapo com toda a calma e fez uma cara de inocência: "A senhorita Viana está falando o quê?"
Vendo que ele ainda estava fingindo, Serena teve vontade de jogar a escritura na cara dele.
Foi então que o celular dela tocou.
Ela atendeu e era o proprietário anterior: "Senhorita Serena, me desculpe muito, acabei de vender o apartamento. O imóvel não é mais meu, então não posso mais alugar pra você. O novo dono pediu a entrega ainda hoje, então..."
Serena não respondeu. Ficou encarando Rafael com um olhar de gelo.
Ele pareceu se lembrar de alguma coisa na hora, e os cantos da boca se levantaram: "Ah, é, tem uma coisa que preciso te informar."
Ele pousou os pauzinhos: "Senhorita Viana, esse aqui é minha casa agora. Você pode continuar alugando de mim, pelo mesmo valor de antes, e eu desconto direto do seu salário no instituto."
Dito isso, ergueu os olhos e varou Heitor com um olhar distraído: "A minha casa não precisa de babá masculino. Então você pode ir saindo."
Ele tinha mordido bem as palavras "minha casa" de propósito.
Era claramente a retaliação pelo episódio de ser barrado na porta.
Serena olhou para a escritura. Com a data de hoje. Rafael tinha pedido para Gabriel providenciar tudo na hora em que foi bloqueado na porta.
Esse homem não perdia tempo.
Ela não devia ter salvado ele.
Heitor estava visivelmente atordoado com a jogada. Apertou o centro da testa, segurou a raiva, e disse para Serena: "Querida, a gente muda para o apartamento do lado."
Era evidente que o homem ia copiar Rafael e comprar o imóvel do lado na mesma hora.
Serena se sentiu com dor de cabeça. Virou para Rafael: "O que você quer afinal?"
Rafael fez sinal para os dois seguranças com o olhar: "Estou conversando com a minha inquilina. Visitas não autorizadas podem ser escoltadas para fora."
Os dois seguranças foram logo em direção a Heitor.
Era claro que os dois mal tinham aproveitado o round anterior.
Naquele momento, uma cadeira raspou no chão.
Serena se levantou, empurrou os dois seguranças de lado e ficou entre eles e Heitor: "Chega."
Rafael viu que ela estava protegendo Heitor, e uma tempestade cruzou o fundo dos olhos.
Ele também se levantou e foi caminhando em direção a ela.
Em segundos Serena estava com dois homens de cada lado, e o ar parecia estar rarefeito.
O toque do celular de Heitor cortou o silêncio pesado.
Ele atendeu.
"Chefe, nossa carga foi retida na alfândega do país K!" A voz do outro lado estava desesperada. "Disseram que a gente está supostamente violando regulamentos..."
Heitor franziu o cenho: "Desde quando?"
"Agora há pouco. Acionamos os contatos mas não adiantou. E essa carga, como o senhor sabe, precisa chegar ao país X urgente..."
"Vou agora." Heitor desligou.
Olhou para Rafael com uma suspeita que não conseguia confirmar. Por algum motivo, aquela coincidência estava estranha demais.