Serena acendeu o incenso e quando virou viu os dois ali, o grande e o pequeno.
E Rafael, mal entrou, foi logo dar a volta na chave.
Serena não teve energia nem para reclamar. Fez Henrique se deitar primeiro e começou o tratamento.
O menino foi inalando o aroma do incenso e relaxando aos poucos, e quando estava quase dormindo murmurou levinho: "Mamãe."
Rafael ouviu aquela palavra e as pupilas contraíram.
Ele se lembrou de que, assim que saiu do avião, Bruno tinha reportado que a área estava quase definida, e a caçada seria lançada no dia seguinte.
Uma hesitação estranha subiu de dentro dele sem razão aparente. Rafael guardou o pensamento com rapidez e pousou o olhar em Serena.
Enquanto ela tratava Henrique, a frieza habitual tinha saído dos olhos e do rosto dela, deixando no lugar uma calma mansa.
E nos olhos dela havia algo que parecia genuinamente cuidar do menino.
Só que pensar no homem lá fora voltava a irritá-lo.
O tempo foi passando, e Henrique foi afundando no sono, a respiração ficando longa e profunda.
Serena se endireitou: "Daqui a pouco, quando ele entrar no sono mais fundo, dá para levá-lo embora..."
Mas ela não terminou a frase. O pulso dela foi agarrado de repente.
Rafael a puxou e a prensou contra a parede com um único movimento.
"Você enlouqueceu!" Serena abaixou a voz: "O Quinho ainda está aqui..."
"Então coopera." Rafael disse e abaixou a cabeça em direção ao colarinho dela.
Serena se debateu e foi com a mão sem cerimônia no peito dele.
Mas o homem foi mais rápido. Girou o corpo e levou Serena com ele, fazendo ela dar 180 graus.
Ela acabou de frente para a parede, com as costas encostadas no abdômen de Rafael.
Ele conseguiu o que queria, abrindo o colarinho dela. O pescoço branco e fino e o ombro arredondado ficaram expostos ao ar.
Liso como jade de qualidade, sem nenhuma marca de quem quer que fosse.
A frieza nos olhos de Rafael desapareceu num sopro.
Ele curvou os lábios com satisfação e foi arrumando a roupa de Serena de volta: "Vai lá comer macarrão."
Serena tinha desmontado Rafael mentalmente em várias partes, mas como não tinha força para nada, só murmurou uma resposta.
Rafael percebeu que algo estava diferente nela. Olhou direito para o rosto dela e a expressão mudou: "O que foi com você?"
"Nada." Serena forçou um sorriso: "Ultimamente ando intensificando um experimento, é cansaço."
Rafael ficou meio desconfiado.
Ia abrir a porta quando lembrou de algo: "E os seus filhos?"
"Estão dormindo." Serena não ia dizer que assim que ouviu bater na porta, tinha mandado Lorenzo levar Zara para o outro quarto.
Afinal, ficar de máscara dentro de casa seria suspeito demais.
Rafael viu que Serena estava de fato exausta e não insistiu. Abriu a porta e saiu.
A sala estava um pouco bagunçada. Os dois seguranças de Rafael estavam no lugar deles, com curativos na testa.
Heitor estava limpando um fio de sangue no canto da boca. Era a cara de quem tinha acabado de se bater com alguém.
Naquele momento Gabriel chegou com as tigelas de macarrão: "Sr. Duarte, a massa ficou pronta."
Rafael se sentou na mesa de jantar e perguntou para Serena: "Vai comer mesmo não?"
Serena balançou a cabeça com um sorriso.
Rafael nunca tinha visto ela tão comportada assim. Sem querer, algo macio remexeu por dentro dele.
O apartamento tinha ficado quase aconchegante, até que a campainha tocou de novo.
Heitor foi abrir. Rafael dessa vez não se mexeu.
Na porta havia dois homens de uniforme, que perguntaram com respeito: "O Sr. Duarte está aqui?"
Rafael disse com indiferença: "Pode entrar."
Os dois vieram até ele com uma pasta de documentos:
"Sr. Duarte, a escritura do imóvel para o senhor. O apartamento onde você se encontra agora já é seu."