Ao ouvir o jeito como Heitor chamou Serena, uma vontade de matar inundou os olhos de Rafael num instante.
Ele deu um passo para frente: "Sai da frente."
Heitor não se moveu um milímetro, o sorriso sem a menor cerimônia: "Essa é a minha casa. Quem devia sair era você."
"Sua casa?" Rafael ficou com o olhar de gelo. Chamou Gabriel: "Tira ele daqui."
Atrás de Rafael, dois seguranças avançaram um passo, formando um cerco em volta de Heitor.
Heitor não ficou nem um pouco intimidado. Jogou a toalha para trás e ficou na postura de quem vai entrar na briga mesmo.
Foi então que uma voz feminina e preguiçosa cortou a tensão que estava a um segundo de explodir.
Serena apareceu na porta: "O que é todo esse barulho?"
E então se deparou com o olhar de Rafael, que parecia capaz de fatiá-la em mil pedaços.
Por dentro Serena ficou surpresa. Esse homem tinha saído do hospital e em vez de descansar estava saindo por aí?
E com essa aparência, parecia ter se recuperado bem.
"É o Sr. Duarte!" Ela curvou os lábios num sorriso e virou para Heitor, que estava fazendo de guarda-portão: "Para de bloquear o Sr. Duarte, Heitor. Visita é visita, entra pra sentar."
Heitor não se mexeu. O olhar que pousou em Serena ficou sério, com algo complexo no fundo.
Serena sentiu um cansaço leve por dentro.
Esses senhores. Um mais difícil de lidar que o outro.
Ela não estava bem e não tinha energia para assistir a uma briga.
"Tá bom, entram os dois e falam dentro, ou então os dois saem pra fora." Ela disse.
Heitor estaladou os nós dos dedos devagar, num crac satisfatório, e aí entrou de lado com uma calma que era toda afetação.
Pela Serena dele que não estava bem, ele cedeu para o tal Duarte por enquanto.
Rafael também entrou. O olhar varreu o apartamento e então ele foi sentar bem no meio do sofá, com uma naturalidade de dono do lugar que não tinha nada de visitante.
Henrique tinha ouvido a movimentação e saído. Viu que era Rafael e foi até ele: "Papai."
Rafael levantou uma sobrancelha. O filho estava comportado hoje. Fazer isso na frente de outro homem era dar pontos pro pai.
Abraçou o filho com o braço largo e colocou-o no joelho.
O peito ainda doía, mas Rafael não deixou transparecer nada.
"As empregadas foram de folga. O Sr. Duarte quer beber alguma coisa?" Heitor tinha mudado completamente o tom, e estava sendo a cordialidade em pessoa.
Rafael curvou os lábios num sorriso frio. Hm. Fazendo de dono da casa.
Sem se dignar a responder para Heitor, virou para Gabriel: "A janta hoje vai ser macarrão."
Gabriel ficou com dor de cabeça, mas manteve o rosto no neutro.
Acenou com um sorriso para Serena e foi para a cozinha sob os olhares de todos.
Serena ficou olhando para o teto.
Esse homem realmente não estava se sentindo visita em nenhum momento.
Rafael estava completamente à vontade, e perguntou para Serena: "Com fome? A massa do Gabriel é boa."
Serena bocejou: "Primeiro o tratamento do Quinho!"
Ela estava com sono de verdade. Ultimamente com a saúde abalada, e queria logo tratar Henrique e mandar esse homem embora.
Só que o bocejo dela, nos olhos de Rafael, teve uma interpretação diferente.
Os olhos dele se fecharam por um instante, e ele já estava levantando com Henrique pela mão, andando em direção ao quarto.
Serena não pensou demais, foi logo para o quarto das crianças.
Rafael ia entrar no quarto quando Heitor apareceu no caminho.
Heitor estendeu o braço: "O Quinho pode entrar. O Sr. Duarte fica aqui pra a gente bater um papo."
Rafael estreitou os olhos. Estava prestes a ignorar a ferida.
Mas o menino ao lado deu um passo à frente.
Ergueu o olhar para Heitor e abriu a boca: "Tio Heitor, seu cabelo ficou bagunçado."
Heitor levou um susto. Era a primeira vez que aquela criança falava com ele.
Mas no segundo seguinte, Rafael já tinha passado por cima dele, puxando Henrique pelo corredor até o quarto.