Uma semana depois, no banquete.
Eu apareci, como prometido.
Era o dia em que meu pai iria reconhecer oficialmente a filha ilegítima.
A garota usava um vestido luxuoso e elaborado.
Parada sob as luzes brilhantes, recebia os olhares de todos, tímida, quase frágil.
E Victor Montenegro… com a expressão arrogante, permanecia atrás dela, na postura de um protetor.
Nossos olhares se cruzaram à distância.
Nos olhos dele, só havia frieza.
Desviei o olhar.
E encontrei outro—inocente por fora, mas carregado de provocação.
O olhar de Sofia parecia dizer:
“Está vendo? O metamorfo, meu pai… todo mundo está do meu lado.”
Os comentários explodiram em comemoração—
【Tá vendo? Depois que ele saiu daquela mulher tóxica, ele ficou completamente diferente! Se não fosse nossa protagonista doce, nem quero imaginar o quanto ele sofreria!】
【A vilã deve estar surtando agora, né?? Casalzão eterno!! Ninguém separa eles!!】
【Olha a cara dela… tá quase virando vilã completa hahaha】
Soltei um riso baixo.
Obrigada.
Na verdade, eu já virei.
E a um ponto em que todos passaram a me temer.
Principalmente… meu pai.
Aos olhos dele, eu era cruel, fria, o tipo de pessoa que, no futuro, seria capaz até de espalhar as cinzas dele ao vento.
E havia algo ainda mais fatal— eu descobri a existência de Sofia e dos outros filhos ilegítimos antes dele perceber que eu sabia.
Isso era prova direta da traição dele.
Quando percebeu que a imagem de “marido fiel” estava prestes a desmoronar,
ele agiu rápido.
Trouxe Sofia de volta.
A mais obediente, a mais fácil de controlar.
Dizendo que era um erro da juventude.
Que sentia culpa.
Que queria compensar.
E, de quebra, transferir toda a pressão para mim.
Se eu demonstrasse qualquer hostilidade em público, seria imediatamente rotulada como:
“mesquinha”,
“insensível”,
“sem consideração pelo pai”.
Ele achava que eu, orgulhosa como sou, não viria.
Mas eu vim.
E mais— consegui ficar ali, diante dele, com um sorriso calmo, e chamar aquela garota de:
— Irmã.
Sussurros surgiram entre os convidados:
— Não diziam que o Roberto era louco pela esposa? Décadas assim, só uma filha… de repente aparece outra?
— Hah… homem rico é assim. Vai saber quantas tem por fora.
— Essa filha legítima não deve ter vida fácil… criar um metamorfo por mais de dez anos e acabar entregando pra bastarda… eu não aguentaria.
Uma cadela desleal.
O que há para lamentar?
Eu circulava com naturalidade entre os convidados.
Conversando.
Sorrindo.
Brindando.
Mas havia um olhar—
silencioso, intenso—
que atravessava a multidão, acompanhando cada movimento meu.
Eu ignorei.
Não demorou muito.
O vento lá fora começou a uivar.
O céu escureceu, rasgado por relâmpagos.
O trovão ecoou alto.
Quando me virei, vi o metamorfo envolvendo Sofia nos braços, cobrindo seus ouvidos com cuidado.
— Não tenha medo.
Outro trovão.
E, de repente, pensei no filhote em casa.
Hoje, depois do treino… ele parecia diferente.
Inquieto demais.
Ao notar minha expressão tensa,
Sofia finalmente fingiu perceber minha presença.
— V-você… ele ainda é seu metamorfo… deveria estar protegendo você…
Victor respondeu, frio:
— Ela não precisa de mim.
— Mas… — ela hesitou — parece que sua irmã está chateada… foi por minha causa que vocês se afastaram… talvez você pudesse falar com ela… eu posso pedir desculpa… eu realmente não quero que vocês dois…
Ele a interrompeu, seco:
— Não é culpa sua.
Ambos olharam para mim.
Eu esperei.
Victor falou, sem rodeios, com desprezo:
— A senhorita sempre faz o que quer. Deve ter seus motivos. Se foi escolha dela, não tenho mais nada a dizer.
— Fui eu quem errei, Victor… sua irmã parece mesmo irritada… você poderia…
Os dois continuavam, como se ensaiados.
Nesse momento, o mordomo entrou correndo, ofegante.
Um mau pressentimento surgiu instantaneamente.
— O que houve?
— O Dante entrou no cio! O médico disse que ele é alérgico aos inibidores… se não for acalmado, ele pode morrer! Senhorita, por favor, volte!
Meu rosto escureceu na mesma hora.
Virei para sair.
Mas, de repente— meu braço foi agarrado com força.
Fui obrigada a parar.
Virei a cabeça, fria.
Os olhos de Victor estavam vermelhos.
Ele me encarava, a voz trêmula:
— Você… criou outro metamorfo?
Sofia nos observava, tensa.
Eu ri friamente.
E dei um tapa forte no rosto dele.
— Volta pro lado da sua dona.
Ainda foi leve demais.
A mão dele apertou meu braço com mais força.
As unhas quase cravaram na minha pele.
— Valentina… você disse que só teria a mim… por quê?
Os olhos dele estavam úmidos.
Teimosos.
— Por quê? Como você pode simplesmente… arrumar outro metamorfo assim?
Eu achei aquilo ridículo.
— Victor… e você?
Quem foi que escolheu outro primeiro?
A voz dele falhou:
— Aquela noite… foi você quem me abandonou.
Eu ri.
Devagar.
Cada palavra, nítida:
— E eu não te dei escolha?
Naquela noite, depois de chutá-lo para fora do carro,
eu esperei.
Um minuto.
Sessenta segundos.
Eu dei a ele uma última chance de voltar.
Mas ele… seguiu em frente.
Orgulhoso.
Sem olhar para trás.
Mesmo mancando, continuou indo na direção da casa de Sofia.
Minhas mãos apertaram o volante até ficarem brancas.
Fiquei em silêncio por muito tempo.
Então ri.
Dez anos de treinamento… para acabar criando um cachorro obediente para outra pessoa.
Ridículo.
Nos últimos três segundos, desviei o olhar, fria.
O motor rugiu na noite.
No instante em que ele virou levemente a cabeça—
eu já havia girado o volante e partido em disparada.