O carro entrou na cidade.
O céu inteiro estava tingido pelo pôr do sol, envolvendo os carros presos no trânsito da via elevada.
Sem perceber, eu lançava olhares de canto para a pessoa no banco do passageiro.
As orelhas dele estavam levemente caídas.
Os lábios, comprimidos.
Ele mantinha os olhos baixos, encarando o sangue no próprio corpo, como se estivesse perdido em pensamentos.
Ensaiava mentalmente o que dizer, repetidas vezes.
Até que, finalmente, chamei por ele.
O jovem metamorfo ergueu a cabeça.
Os cílios densos tremeram levemente.
Metade do corpo mergulhada na luz do entardecer suavizava, de forma inesperada, a aura feroz que ele carregava.
Droga.
As palavras chegaram até minha boca… mas não saíram.
Eu hesitei.
Quase falei.
Parecia que ia falar— mas não falei.
— Amanhã… descanse.
Apertei o volante com mais força e finalmente disse, em tom neutro.
Não foi um elogio.
Mas pelo menos foi uma forma de preocupação.
Isso deveria ser suficiente.
Ele não ficaria desapontado… certo?
Mas, após um breve instante de surpresa, ele respondeu:
— Eu estou bem. Posso continuar treinando.
Virei levemente o rosto.
Meu olhar desceu até a perna dele, coberta de sangue.
Continuar?
Sem descansar?
Franzi a testa.
E então os comentários surgiram, como se respondessem por ele—
【Ele acha que não foi bom o suficiente hoje… que não atingiu o que a dona esperava. Coitado… alguém chama logo a protagonista! Essa vilã tá acabando com a autoestima dele!】
【É medo de ser descartado. Por isso ele quer provar o tempo todo que é bom o bastante. Só que caiu nas mãos de alguém fria assim… se fosse a protagonista, ele já estaria sendo elogiado sem parar.】
【Olha… sendo justo, a protagonista tem amor de sobra pra dar. Já essa “vilã”… parece alguém que nunca foi amada. Quem cresce assim dificilmente aprende a amar os outros. Dá até pra entender ela.】
【Defendendo essa mulher?? Nem começa. Ela ser problemática é problema dela. O que o lobinho tem a ver com isso?】
A discussão só aumentava.
Eu ignorei completamente.
Meu olhar se fixou no rosto de Dante.
A luz do pôr do sol caía sobre metade do rosto dele.
O sangue no pescoço adquiria um brilho quase sedutor.
As cores no horizonte se espalhavam como tinta derramada.
Hipnotizantes.
Quanto mais tempo eu o observava,
mais os dedos dele se contraíam.
O coração batia cada vez mais rápido no peito.
Ele não conseguia sustentar aquele olhar.
As orelhas ficaram quentes.
Os olhos, inevitavelmente, se abaixaram.
Quando ele estava prestes a se virar, tentando escapar completamente da minha atenção—
eu falei:
— Você foi muito bem hoje.
O movimento dele de se virar congelou por um instante.
Acrescentei, em tom leve:
— Então… amanhã você pode descansar um dia. É uma recompensa.
O trânsito na via elevada finalmente começou a fluir.
Nem todo mundo nasce sabendo amar.
Mas eu não me importo em aprender.
Principalmente… quando se trata desse pequeno lobo que eu mesma vou criar.