Meu treinamento sempre foi conhecido pela crueldade.
Antes dele, os números zero um, zero dois, zero três, zero quatro e zero cinco… nenhum conseguiu sobreviver a esse período.
E ele era o nono.
Nomes sempre foram apenas códigos.
Além de carregar meu sobrenome, “Dante Montenegro” não tinha nada de especial.
Ainda assim, ele assentiu com seriedade.
Eu não pretendia exigir tanto logo de início.
Mas o potencial dele superou completamente minhas expectativas.
Em apenas uma semana, ele já completava todos os treinamentos básicos e ainda pedia para aumentar a dificuldade.
Cheguei a duvidar se a etiqueta de “defeituoso” não tinha sido colocada por engano.
Ao entardecer, ele acabara de completar uma corrida em terreno montanhoso carregando cem quilos.
Os músculos da panturrilha tremiam descontroladamente.
Ele só conseguia se manter de pé apoiando as mãos nos joelhos.
Cem quilômetros.
Seis horas.
E ainda precisava manter precisão no tiro mesmo com os músculos se rasgando.
Na terceira tentativa, ele conseguiu.
Apoiei um braço na janela do jipe.
Falava ao telefone com desinteresse, mas meus olhos não deixavam as costas dele.
De repente, como se tivesse sentido algo, ele se virou.
Nossos olhares se encontraram à distância.
Contra a luz do pôr do sol,ele começou a correr na minha direção.
O vento do topo da montanha levantava seus cabelos negros úmidos.
Ele se aproximava cada vez mais… até que consegui ver claramente o pescoço vermelho, e o suor prestes a escorrer pela garganta.
Era meu pai ao telefone.
Ele queria que eu fosse a um evento.
Disse que, se eu abaixasse a cabeça, poderia ignorar o fato de eu ter atacado a filha ilegítima.
Que ridículo.
Um homem que foi tão implacável na juventude,
agora, velho, fingia se importar com laços familiares.
Respondi de forma vaga.
E desliguei.
— Senhorita…
Ele forçou a respiração a se acalmar e parou diante de mim.
Observei o peito dele subindo e descendo violentamente.
Foi então que percebi—
todas as tardes ele vinha correndo assim até mim.
Mesmo hoje,
quando seu corpo já tinha chegado ao limite.
Falei, em tom indiferente:
— Por que correr tão rápido?
— Porque… achei que você ficaria entediada esperando.
Minha mão parou por um instante ao girar a chave.
Olhei de relance para ele.
— Entra.
— Eu já vim te buscar. Não tem nada disso de ficar entediada.
Depois de colocar o cinto de segurança,
ele virou o rosto levemente.
O pomo de Adão se moveu.
Finalmente disse aquilo que vinha guardando há muito tempo:
— Hoje… levei só seis horas.
— Uhum.
— E não errei nenhum tiro.
— Uhum.
Ele não precisava me relatar.
Esses dados já eram registrados por outras pessoas.
Seja força física ou velocidade de reação, ele estava no mais alto nível.
Para se ter ideia, o melhor tempo de Victor tinha sido sete horas e três minutos.
E Dante superou isso em apenas uma semana.
Naquele momento, os comentários voltaram a explodir—
【Impossível ter um metamorfo mais forte que o protagonista, né??? Quem é esse cara?? Tá copiando o personagem principal??? Alguém faz alguma coisa!!!】
【Calma, gente. Vocês esqueceram que isso aqui é um harém? É normal aparecer alguém mais forte. No fim, todos vão cair aos pés da nossa protagonista fofa mesmo.】
【Exato! Quem não se apaixonaria pela nossa protagonista doce, gentil e que vive elogiando? Quando esse lobinho perceber quem essa mulher realmente é, vai correr direto pra nossa protagonista!】
【Ai… queria tanto que fosse a protagonista ali. Ele claramente tá querendo ser elogiado… se esforçando tanto, criando coragem pra pedir reconhecimento… e só recebe uns “uhum” frios… dá até dor no coração!】
Eu já tinha aprendido a ignorar completamente esses comentários idiotas.
Mas a última frase que passou me fez pensar, pela primeira vez.
Ele… queria ser elogiado?