Eu não tinha a intenção de ficar com aquele filhote de lobo.
Afinal, ele era apenas um defeituoso.
Não havia a menor chance de suportar o meu treinamento longo e brutal.
Quando os ferimentos dele estavam quase curados,
eu disse:
— Você pode ir embora.
Ele ficou parado, atordoado por um bom tempo.
Só depois conseguiu perguntar:
— Por quê?
Nos olhos negros ainda úmidos, algo parecia se agitar.
Ele me encarava sem piscar.
Virei calmamente a página do jornal.
— Por nada. Considere que fiz uma boa ação.
O mordomo Augusto se aproximou para levá-lo, falando em voz baixa:
— Ah… a senhorita só aceita os metamorfos mais fortes e mais leais. Nem pense nisso. O anterior foi mandado embora durante a noite só por falta de lealdade… ele ficou dez anos ao lado dela, e mesmo assim…
O mordomo ainda falava sem parar,
quando de repente percebeu que o garoto ao seu lado havia desaparecido.
O jovem metamorfo voltou.
A voz levemente rouca, ainda ofegante:
— Posso ter uma chance de fazer melhor do que ele?
Ergui os olhos pela primeira vez.
— Em que sentido?
Ele fechou os dedos com força.
Cada palavra saiu firme:
— Em todos.
Seja força.
Ou lealdade.
Ele seria melhor do que aquele “antecessor” de que o mordomo falava.
Baixei o jornal.
E o observei com interesse.
Na sala ampla e iluminada,
ele esperava, tenso e inquieto, pelo meu veredito.
Quando o trouxe para casa, não prestei muita atenção na aparência dele.
Mas agora, limpo,
percebi que havia algo agressivo em cada traço.
As sobrancelhas marcadas.
O olhar afiado.
E ainda assim, os cílios úmidos suavizavam essa ferocidade.
Aqueles olhos negros, teimosos e claros,
eram exatamente os mesmos de antes.
— E foi justamente por isso que eu o trouxe.
Após um longo silêncio entre nós,
finalmente falei:
— Pode.
Fiz uma breve pausa.
— Desde que você aguente.