Quando Leonardo acordou, o cheiro leve de desinfetante invadiu seu nariz.
Ele franziu a testa instintivamente.
Acostumado a se ferir com frequência, aquele cheiro já havia se tornado familiar demais… a ponto de, por um tempo, causar náusea sempre que o sentia.
Ele abriu os olhos e ficou olhando para o teto branco por um longo tempo.
A última lembrança que tinha era de estar no avião… e então perder a consciência.
Depois disso, não lembrava de mais nada.
Quando a enfermeira veio trocar o curativo e percebeu que ele estava acordado, ficou visivelmente aliviada.
— Finalmente acordou! Você ficou em coma por sete dias e sete noites.
— Sua namorada ficou aqui todos os dias cuidando de você. Ela acabou de sair por um momento.
— Está sentindo algum desconforto?
Leonardo ficou ainda mais confuso.
Namorada?
Ele nem tinha namorada.
Até que ele a viu.
Camila Duarte.
No instante em que seus olhares se encontraram, os olhos dela ficaram vermelhos.
Havia um brilho úmido ali… mas ela forçou um sorriso, contendo as lágrimas.
— Eu fui te buscar no aeroporto… mas você chegou inconsciente. Eu fiquei apavorada.
— Esse hospital foi arranjado pelo seu irmão. Eu estava livre, então vim te ver todos os dias.
— O médico disse que você estava sob muita pressão. Quando seu corpo relaxou de repente, acabou entrando em coma.
— Sua mão já foi operada. Agora é só focar na recuperação, logo você vai ficar bem.
Camila explicou brevemente o que havia acontecido durante aqueles dias.
Mas Leonardo continuava olhando para ela, tentando encontrar na memória qualquer vestígio de sua presença.
— Por que… você?
Sua voz saiu rouca, áspera.
Camila sorriu, um pouco envergonhada.
— Surpreso?
— Nossas famílias são próximas. Quando soube que você era o irmão perdido do Eduardo… também achei inacreditável.
— O mundo é pequeno mesmo. Nunca imaginei que a pessoa que salvou minha vida… teria esse tipo de ligação comigo.
— Quando o seu irmão me contou o horário do seu voo, eu me ofereci para te buscar.
Ela fez uma pausa, olhando para ele com gentileza.
— Mas agora você não deve pensar muito. Descanse primeiro.
— O que quiser saber… pode perguntar depois que estiver melhor.
Quando a mão suave dela tocou sua testa—
o coração de Leonardo acelerou sem que ele percebesse.
Ele olhou para aqueles olhos sorridentes…
E, de repente, foi como voltar um ano no tempo.
Naquele dia, no Sudeste Asiático—
ele estava trabalhando, como sempre, em um cassino clandestino.
Foi então que viu alguns homens carregando um saco suspeito.
Ao passarem por uma porta fechada, ele ouviu um choro baixo vindo de dentro.
Ele entrou.
E viu uma garota amarrada.
Era Camila.
Com os olhos inchados de tanto chorar, ela olhou para ele e pediu ajuda, em voz baixa.
Leonardo não era do tipo que se metia em problemas.
Ainda mais porque ele estava ali por causa de Isabella.
Menos complicação significava mais segurança.
Mas, naquele momento—
ao ver os olhos dela, vermelhos como os de um coelho assustado—
ele se lembrou de Isabella no passado.
Na época em que a encontrou.
Sozinha, indefesa…como um cordeiro à espera do abate.
Leonardo acabou salvando Camila.
Ele a escondeu em sua própria casa.
Cuidou dela, tratou seus ferimentos.
Soube que ela tinha saúde frágil desde pequena.
Depois de ser sequestrada e levada para o Sudeste Asiático, sua condição havia piorado.
Sob os cuidados dele, ela finalmente começou a melhorar.
No dia em que conseguiu entrar em contato com a família—
ela quis lhe dar dinheiro como agradecimento.
Mas ele recusou.
Leonardo nunca se considerou uma boa pessoa.
Mas, naquela vez…quis ser.
E descobriu como era essa sensação.
Ele a levou pessoalmente ao aeroporto.
Só foi embora depois de vê-la embarcar.
Mas ele não sabia—
que o pessoal do cassino já havia descoberto que ele a ajudou.
Depois disso, ele recebeu noventa e nove chicotadas como punição.
Ainda assim, como ele ainda tinha utilidade, não foi morto.
Depois disso, Camila tentou entrar em contato com ele várias vezes.
Mensagens.
Ligações.
Ele ignorou todas.
Para ele, ela era apenas alguém de passagem.
Alguém que talvez nunca mais encontraria.
Não havia motivo para manter contato.
Mas Leonardo nunca imaginou…que voltaria a encontrá-la dessa forma.