E assim se deu o seguinte diálogo dentro do quarto:
"Papai, quando você conta história, dá pra não usar essa voz de obituário? Faz mal à saúde emocional das crianças."
"Papai, qual é o nome completo da Branca de Neve?"
"Papai, a mãe de verdade da Branca de Neve foi morta pelo pai dela com uma ordem de caçada global?"
"Papai, por que o príncipe e a princesa ficarem juntos é o final feliz? Todo mundo fala que o casamento é o túmulo do amor. Então o conto de fadas acaba em tragédia?"
Rafael jogou o celular de lado, virou Lorenzo de bruços e foi dar um tapa no bundão.
Lorenzo se cobriu às pressas: "Ai, criança sem mãe é tão coitada! Igualzinho à Branca de Neve!"
A veia do templo de Rafael estava bem visível: "Henrique, você tomou alguma coisa errada hoje?"
O canto da boca de Lorenzo se levantou debaixo do cobertor, e ele usou uma voz bem abatida: "É que eu estava com saudade da mamãe."
Rafael ficou em silêncio.
"Papai, para de tentar matar a mamãe, por favor?" Lorenzo testou as águas.
"Isso é assunto de adulto. Você não entende." Rafael se levantou e foi em direção à porta. "Dorme direito."
Lorenzo ouviu a porta fechar e soltou um suspiro bem fundo por dentro.
Esse nó era difícil de desatar.
Do jeito que estava, a família nunca ia se reunir de verdade.
Uma hora depois, Rafael terminou a videoconferência e foi ao quarto de Henrique em silêncio.
Com a audição aguçada que tinha, mal abriu a porta já ouviu a respiração longa e cadenciada do menino dormindo.
Ficou surpreso. Rafael foi até a beira da cama com passos suaves.
O menino dormia profundamente, o rosto sereno e bonito.
Rafael não entendia por que o filho tinha mudado tanto de repente, mas uma coisa ele entendia: o filho estava sentindo falta de mãe.
Uma culpa surdiu por dentro. Todos esses anos sem conseguir dar ao filho uma família completa.
Mas aquela mulher feia de seis anos atrás era definitivamente impossível de trazer para dentro de casa.
Se o filho precisava de uma figura materna, talvez ele pudesse encontrar alguém para esse papel.
E assim, quando Lorenzo se sentou à mesa do café da manhã no dia seguinte, Rafael perguntou:
"Você quer muito ter uma mãe?"
Lorenzo abriu um sorriso de orelha a orelha: "Papai, você vai me ajudar a trazer a mamãe de volta?"
O rosto de Rafael esfriou: "Aquela mulher está morta. Se você quer, posso procurar alguém."
"Não precisa procurar." Lorenzo ficou empolgado: "A tia Serena é ótima! Eu gosto dela, quero ela como minha mamãe!"
Rafael, ao ouvir aquilo, percebeu que quando essa ideia tinha surgido na sua cabeça na noite anterior, a primeira pessoa que tinha vindo à mente era justamente Serena.
Por instinto franziu o cenho: "Não me caso com mulher que já foi casada."
"A tia Serena é jovem e linda, o que tem de mais ser divorciada? Ultrapassado!" Lorenzo fez biquinho.
Rafael fechou ainda mais o cenho: "Ela te enfeitiçou com alguma coisa?"
Dito isso, se levantou e disse com frieza: "Nem pense nisso."
Lorenzo ficou com raiva de verdade, e no caminho para a escola não abriu a boca uma única vez com Rafael.
Rafael deixou o filho com a professora e estava voltando para o carro quando o celular tocou:
"Zeus, nossa base no país K foi atacada..."
Rafael mandou uma localização: "Me buscam aqui."
Dez minutos depois, o som de um helicóptero veio de longe.
Rafael embarcou, e em pouco tempo o helicóptero virou um pontinho preto no céu e sumiu.
Ao mesmo tempo, Serena recebeu uma mensagem de Heitor Vaz:
"Querida, decidi partir agora mesmo para proteger você. Me espera."