Rafaela mal conseguia acreditar no que estava vendo.
Rafael saiu carregando Serena no colo sem olhar para ela nem uma vez.
E Serena, aquela mulher, não tinha torcido pé nenhum.
Há pouco quando Rafaela tinha levantado a mão, não tinha chegado a bater em Serena de verdade.
Rafaela chorava a fio, mas Rafael não virou nem uma vez para trás.
No quarto de descanso, Rafael depositou Serena no sofá e se abaixou para tirar o salto alto dela.
Serena colocou a mão sobre o dorso da mão dele, com um sorriso nos lábios: "Vai deixar a Rafaela pra trás assim?"
O sorriso dela naquele momento era luminoso, e a pintinha vermelha no canto do olho parecia tingida de suco de pêssego. Uma criatura que não pertencia ao mundo comum.
Rafael cruzou o olhar com aquele sorriso e ficou desatento por um instante.
Logo depois, curvou os lábios: "Satisfeita?"
Serena sorriu com uma inocência genuína: "Bastante."
Rafael raramente via aquela raposa com uma expressão tão despretensiosa. Sem saber por quê, um calor subiu de dentro dele.
Ele pressionou aquilo para baixo com esforço e num gesto tirou o salto alto de Serena.
O pé branco pousou na palma da sua mão, macio, pequeno.
Rafael não esperava que o pé de uma mulher pudesse ser assim, delicado daquele jeito. A garganta se moveu e a voz ficou levemente rouca:
"Não consigo identificar onde a senhorita torceu o pé."
Serena se aproximou dele, a voz carregada de satisfação: "Você já tinha percebido, mas entrou na brincadeira mesmo assim."
Levantou uma sobrancelha: "Ficou com ciúme quando aquele cara me segurou?"
Rafael não confirmou nem negou. Ficou sério: "Só vim para te fazer uma pergunta."
Ainda estava olhando para os dedinhos dos pés dela, cor-de-rosa, sem esmalte, incomodamente bonitinhos.
Com uma vontade estranha de morder.
Ele ergueu a cabeça e prendeu o olhar nos olhos de Serena: "Dez anos atrás, em Laix, você salvou um rapaz mais velho do que você?"
Serena franziu levemente o cenho.
Dez anos atrás ela tinha salvado um rapaz, que parecia ter uns três ou quatro anos a mais do que ela.
Ela nunca tinha contado aquilo para ninguém. Como Rafael sabia? Será que aquele rapaz era ele?
Ah, então ele ainda devia uma vida a ela?
Mas ela não podia reivindicar esse crédito.
Dez anos atrás, ela já estava com problemas de saúde, e se ele fosse investigar mais fundo, a identidade dela podia ser exposta.
Serena sorriu: "O Sr. Duarte está procurando quem salvou a sua vida? Infelizmente esse mérito realmente não é meu."
Rafael estudou a expressão dela, e algo que parecia decepção se mexeu dentro dele.
Ele soltou o pé dela e se levantou: "Vou buscar o Henrique e voltar pra casa."
Dito isso, foi em direção à porta.
Serena pegou o celular às pressas e mandou uma mensagem para Lorenzo.
No segundo andar, Lorenzo recebeu e imediatamente disse para Henrique: "Irmão, a gente precisa trocar de roupa."
Henrique acenou e foi desabotoar a própria camisa.
Mas naquele instante ouviram passos lá fora.
Os dois trocaram um olhar. A tensão era visível nos dois.
"É o papai?" Lorenzo perguntou baixinho.
Henrique reconhecia o passo de Rafael: "É."
Os dois tinham ficado conversando e esquecido de trocar de roupa. Agora não havia tempo.
Os passos foram ficando cada vez mais próximos.
Lorenzo olhou ao redor e encontrou um armário que cabia uma pessoa. Fez sinal para Henrique.
O rosto de Henrique ficou levemente pálido.
Não era medo de nada em especial. Era o que teria que enfrentar logo a seguir.
Não havia mais tempo. Para não serem desmascarados, ele e Lorenzo precisavam trocar de papéis.
O que significava que ele teria que ir para a casa de Serena.
Dentro dele havia nervosismo, mas também alguma coisa pequena e nova que estava crescendo em silêncio. Uma expectativa.