Henrique estava sentado no meio. Do lado dele, Lorenzo com a máscara e Zara com a dela.
Quando viu Lorenzo pela primeira vez, ele ficou surpreso.
Não esperava que o hacker de índice zero de falhas da Aliança, o "Torre", fosse um menino da mesma idade que ele.
O menino, ao vê-lo, disse só uma coisa: que tinha um brinde para entregar pessoalmente. E Henrique se sentou na frente do computador.
No salão lá embaixo, o vídeo continuava.
A performance constrangedora de Rafaela primeiro deixou o salão em silêncio total, depois desencadeou uma onda de sussurros e risinhos contidos.
Henrique olhou para a tela, o coração batendo mais forte a cada segundo.
Ele entendia o que estava acontecendo. O menino ao lado estava ajudando ele.
E esse menino com certeza tinha visto os momentos mais feios e assustadores dele.
Ao mesmo tempo que se sentia tocado, sentia também um aperto no peito que era quase sufocação.
Ele não queria que ninguém visse aquilo. Era o pesadelo que ele não conseguia afastar.
E parte dele pensava que ninguém ajudava sem querer algo em troca.
E se usassem aquele vídeo para chantageá-lo? E se o jogassem num buraco ainda mais fundo?
No meio de todo esse conflito interno, a mão que estava pousada na mesa foi coberta por uma mãozinha pequena.
A menina que vivia tropeçando, com os dedos brancos e macios, havia prendido a mão dele com força.
Ela sorriu para ele com toda a leveza do mundo, os olhos grandes cheios de um calor limpo: "Irmão não precisa ter medo."
Henrique foi tirar a mão por instinto, mas a menina usou toda a força que tinha.
Ele ficou parado por um segundo, sem saber para onde olhar.
No instante seguinte, a outra mão também foi pega.
O menino com máscara ao lado sorriu também, a voz com uma desenvoltura que parecia de alguém mais velho:
"Não precisa se preocupar. Se ela te fizer alguma coisa, o irmãozinho aqui resolve."
Os olhos dos dois eram límpidos e claros, sem sombra de armadilha ou interesse escondido.
Henrique sentiu de repente um aperto no nariz. A vontade de chorar veio do nada.
Mas desde os três anos ele não chorava na frente de ninguém.
Ficou só com os cantos dos olhos levemente vermelhos, a garganta se movendo enquanto engolia tudo.
As mãos entrelaçadas com as deles não se soltaram.
"Por que vocês estão me ajudando?" Henrique finalmente perguntou o que estava na cabeça.
"Antes de te responder, preciso confirmar uma coisa." Lorenzo travou os olhos nos de Henrique: "Podemos confiar em você?"
Henrique encarou o olhar do menino, respirou fundo e acenou com a cabeça com seriedade.
"Tá bom." Lorenzo decidiu acreditar. Acreditou no que corre no sangue, que o próprio irmão não ia trair ele.
Devagar, ele tirou a máscara do rosto.
Os olhos de Henrique se arregalaram num instante, mas logo ele recuperou a compostura: "Já te vi antes."
"É, naquele dia no carro, eu também te vi." Lorenzo disse com cuidado, palavra por palavra: "Irmão, eu sou seu irmão de sangue. Gêmeo."
A mão de Henrique tremeu levemente.
Mesmo tendo suspeitado antes, quando a confirmação chegou de verdade, o choque fez tudo parecer irreal por um momento.
"A mamãe teve três filhos. Meu nome é Lorenzo, e a minha irmã é Zara." Lorenzo continuou: "Se a gente não podia se aproximar, é porque nosso pai está tentando matar a nossa mãe."
Lorenzo explicou tudo do começo ao fim, e então disse: "Irmão, você consegue guardar segredo sobre quem a gente é?"
Henrique acenou com a cabeça e disse com firmeza: "Sim."
Só que um instante depois os cílios dele desceram devagar.
Zara percebeu a mudança no estado dele e perguntou: "Irmão, está triste?"
Henrique ficou em silêncio por um bom tempo, e quando finalmente se decidiu, deixou sair a pergunta que estava represada fazia muito tempo:
"Cinco anos atrás, por que a mamãe foi embora com vocês e me abandonou?"