"Irmão!" Zara não esperava que Henrique voltasse. Na hora passou do choro para o sorriso, e estendeu os braços para ele.
Henrique olhou para aquela mãozinha suja na frente dele e ficou ainda mais com nojo.
Mas a mãozinha suja dessa vez foi mais rápida e agarrou a dele.
"Obrigada, irmão!" A menina sorriu para ele, ainda com lágrimas penduradas nos cílios.
Que menina mais desajeitada. Henrique pensou por dentro, mas mesmo assim puxou Zara com força e a colocou de pé.
A menina prendeu a mão dele e não soltou mais, segurando com tudo, a voz mole como algodão:
"Irmão, eu sou a irmã do 'Torre'. Ele me pediu pra te levar a um lugar..."
As pupilas de Henrique contraíram num instante.
Zara explicou: "Ele tem um negócio pra resolver, mas já vem te encontrar!"
Ela precisava distrair Henrique por enquanto. O mais importante era não deixar Henrique aparecer na frente de Rafael.
Do contrário, tudo ia por água abaixo.
No vestiário, Rafael estava trocando de roupa com o que Gabriel tinha trazido.
Lorenzo ficou de lado observando, e quando Rafael tirou a calça social e ficou só de cueca, olhou com uma curiosidade que não disfarçou.
"O que você está olhando, menino metido?" Rafael franziu o cenho.
Lorenzo foi logo na bajulação: "Papai tem tudo muito... imponente."
Rafael torceu o canto da boca e estreitou os olhos: "Tomou alguma coisa errada?"
Lorenzo balançou a cabeça rápido e sorriu de orelha a orelha:
"É que fiquei impressionado com o tamanho do papai. Agora entendo por que no banheiro da escolinha eu consigo fazer xixi mais longe que todos os meninos da turma!"
Rafael já tinha acabado de se vestir. Olhou para Lorenzo com um brilho perigoso no fundo dos olhos: "Quem é você?"
Lorenzo sentiu o coração parar.
Será que tinha exagerado na atuação?
Mas ele nunca tinha tido pai, não sabia direito como agir com um. Aquele roteiro tinha sido copiado de uma novela mesmo.
O menino de olhos grandes e inocentes piscou para ele, e Rafael ficou mais convicto ainda de que tinham trocado o filho.
Foi então que o celular tocou de novo.
Lorenzo sentiu o coração afundar. Tentou criar uma distração.
Mas Rafael foi mais rápido, pegou o aparelho e colocou no ouvido: "Alô."
"Senhor, eu achei que o senhorinho estava no quarto porque a porta estava fechada." Dona Marta estava visivelmente desesperada: "Mas peguei a chave agora e abri a porta, e ele saiu pela janela, sumiu!"
"Entendido." Rafael jogou um olhar rápido para Lorenzo e respondeu com calma: "Eu já o encontrei."
Lorenzo sentiu como se tivesse descido e subido numa montanha-russa e finalmente o coração tivesse pousado de volta no lugar.
Concluiu que quanto mais falasse, mais erros cometia. Melhor ficar quieto.
Então foi e abraçou a cintura de Rafael.
Fazer charme era o caminho certo. Todo homem cedia a isso.
E além disso, a mamãe devia estar chegando, e quando ela aparecesse ele podia se soltar e ir tratar do assunto.
Ele apertou o bolso onde estava a máscara.
Como esperado, bateram na porta logo depois.
A voz de Serena chegou de fora: "Quinho, a Zarinha está aqui fora te procurando."
Quando ouviu aquilo, Lorenzo entendeu na hora.
Henrique tinha chegado. Ele precisava ir agora.
Arrumou a roupa, acenou para Rafael e saiu: "Papai, a gente se vê já."
Esse menino. Disse que estava com saudade, e mal uma menina chamou, foi correndo.
Rafael abriu a porta sem ligar para Lorenzo que tinha escapulido, e num movimento fluido estendeu o braço e prendeu o pulso de Serena.
Puxou com força, e ela entrou para dentro do vestiário.
"A senhorita Viana deu a volta pelo meio, mas o plano foi bem executado." A voz dele tinha um toque de ironia.
"Que plano?" Serena não entendeu de verdade.
"Usar sua filha para chegar até meu filho." Rafael tinha aquele ar de quem enxergou tudo: "E ainda disse que não tinha nenhuma intenção comigo?"