"Como?" Rafael não tinha entendido bem.
"Parece que é o senhorinho." Gabriel apontou para as costas das duas crianças que entravam pela porta de vidro.
Rafael olhou, mas as duas já tinham entrado no salão.
"Não é o Henrique." Ele disse.
Nunca tinha visto o filho brincar com uma criança da mesma idade, muito menos com uma menina.
E de qualquer forma, por que Henrique apareceria no instituto naquele horário?
"Devo ter me enganado." Gabriel disse, e foi abrir o carro para Rafael.
Os dois caminharam para dentro. Ao passar pela segurança na entrada, o segurança se curvou: "Sr. Duarte, o senhorinho acabou de chegar também."
"Ele veio mesmo?" Rafael franziu o cenho levemente. "Onde está?"
"Foi para o salão do jantar agora há pouco, com uma menina." O segurança respondeu com um sorriso.
Rafael, enquanto se dirigia ao salão, já tinha pegado o celular e ligado para a empregada em casa:
"Cadê o Henrique?"
Dona Marta respondeu apressada: "Ele já jantou, está no quarto lá em cima."
"Você tem certeza?" Rafael perguntou de novo.
Dona Marta levou um susto, e disse logo: "Senhor, vou subir verificar agora mesmo."
Naquele momento Rafael já estava na porta do salão.
Varreu o ambiente com o olhar e encontrou quase que de imediato a mulher que estava no centro das atenções.
Serena, com o vestido preto, uma taça na mão, os cantos da boca levemente levantados num sorriso que parecia ter vida própria.
O canto do olho levantado, e a pintinha vermelha, talvez por causa do vinho no ambiente, parecia ainda mais viva e carmesim.
Em volta dela, aqueles pesquisadores que tinham fama de ser os maiores nerds do instituto tinham todos acordado de repente e estavam competindo por atenção.
Ela sorria para todos, mas o sorriso não chegava aos olhos, como uma criatura sem coração que se divertia com tudo sem se importar com nada.
O olhar de Rafael escureceu alguns tons. Ele estava prestes a andar para frente quando avistou dois vultozinhos.
As pupilas se contraíram.
Era Henrique mesmo, aquele pivete.
E do lado dele, aquela menina era familiar demais. Era a filha de Serena, sem dúvida.
Rafael achou tudo aquilo no mínimo estranho.
O seu filho, que normalmente não abria a boca para ninguém, desde quando tinha se tornado amigo da filha de Serena? A ponto de andar de mãos dadas?
Com essa dúvida na cabeça, ele foi em passos largos até as crianças.
"Rafa, que surpresa, você veio?" Rafaela o interceptou, visivelmente sem entender. Naquela manhã ela tinha perguntado a ele, e ele tinha dito que não viria por causa de outros compromissos.
Por isso Rafaela tinha até provocado Serena, dizendo que nem no próprio jantar de boas-vindas Rafael apareceria.
E agora...
Rafael estava com pressa de chegar até Henrique e descobrir o que estava acontecendo. Rafaela na frente dele só servia de obstáculo, e a impaciência saiu antes do filtro:
"Preto não fica bem em você. Não usa mais."
Dito isso, Rafael simplesmente desviou ao redor dela e seguiu em frente.
Rafaela ficou parada. Dois segundos depois ainda estava processando o que tinha ouvido, e quando a ficha caiu, a expressão dela ameaçou desmoronar completamente.
Ela virou a cabeça rápido e viu Rafael caminhando a passos largos na direção de Serena.
De novo ela. Rafaela cravou as unhas na palma da mão de raiva.
Rafael com certeza já tinha feito o teste de DNA. Ela não acreditava que Serena ia sair ilesa dessa.
Quando chegasse a hora, ela mesma ia contar para os filhos de Serena que o próprio pai deles tinha mandado matar a mãe.
O veneno nos olhos de Rafaela estava vivo enquanto ela observava Rafael chegando perto das duas crianças.
Ela enxergou o rosto do menino.
Henrique? Não, espera. Era Lorenzo. Aquela criança fechada e sem amigos nunca teria companhia assim.
O coração de Rafaela começou a disparar.
Se Rafael reconhecesse Lorenzo, o que aconteceria?
Naquele instante, Rafael já estava em frente a Lorenzo: "Henrique?"
Ele parou e fixou o olhar no menino: "Como você veio parar aqui?"
Lorenzo viu Rafael e a respiração travou.
A mamãe não tinha dito que o pai não viria hoje?
Ele olhou rápido para Serena, que já vinha em passos rápidos na direção deles.
Da mesma forma, Serena também olhou para ele, e uma centelha fria cruzou o fundo dos olhos dela por um fração de segundo.
No instante em que mãe e filho estavam girando possibilidades na cabeça, o celular de Rafael emitiu a voz de Dona Marta:
"Senhor, o Henrique está no quarto dele..."