Serena curvou os lábios num sorriso: "Como se fossem poucos os que me investigam."
"Esse é diferente." O homem estava em cima de uma torre alta, binóculo na mão, o olhar fundo e sério: "Quem está te rastreando é o Bruno."
"Merda." Serena soltou um palavrão.
Uma risada baixa e levemente irritante chegou pelo fone:
"Sere, eu sempre falei. Se seis anos atrás você tivesse me pedido ajuda, não estaria nessa encrenca."
"Heitor, não consigo me envolver com quem é praticamente da família, tá bom?" Serena disse.
Heitor suspirou: "Se eu sou capim, sou o mais bonito de todos."
"Para com essa vaidade." Serena ficou séria: "Quanto descobriram dessa vez?"
"Dessa vez tá complicado." Heitor disse: "Da última vez que você se machucou, alguns rastros não foram apagados a tempo, e eles chegaram até mim."
"Ah, então esse problema fica com você." Serena disse sem cerimônia. "E além disso, me ajuda a resgatar uma criança."
"Como assim?" Heitor teve um pressentimento ruim.
"Encontrei meu filho mais velho. Está com Rafael Duarte." Serena disse: "Me ajuda a tirá-lo de lá."
"Hm." Heitor perguntou com aquela leveza de quem não está nem um pouco levando a sério: "E a comissão seria... você se entregar?"
"Vai se catar." Serena ouviu passos se aproximando da porta e desligou na hora.
Mal guardou o celular, viu Rafaela entrar pelo corredor.
Coincidência ou não, Rafaela também estava de vestido preto naquela noite, com pedaços de strass espalhados pelo decote e um colar de diamantes no pescoço. Era evidente que tinha se arrumado com cuidado.
Pena que por mais bem vestida que estivesse, a presença não acompanhava.
Serena curvou os lábios. Naquela manhã, uma colega tinha ido perguntar a cor do seu traje para a festa, e era óbvio que estava fazendo o serviço de Rafaela.
Então Serena tinha dito de propósito que estava sem dinheiro para comprar vestido novo e tinha se virado com uma coisa básica preta que achou por aí.
E Rafaela tinha aparecido de preto de verdade.
Sem problema. Quando duas pessoas usam a mesma cor, quem sai mal é quem não tem o que sustentar.
Como esperado, quando Rafaela viu Serena, a expressão dela congelou num instante.
Não tinha dito que era uma coisa barata? Por que parecia uma peça de alta costura de alguma grife?
Serena sorriu para ela e puxou o braço dela com naturalidade: "Que coincidência, senhorita Sousa. A gente combinou no gosto."
Serena tinha uma força considerável. Rafaela não conseguiu se soltar, e foi arrastada assim pelo corredor até o salão do evento lá embaixo.
No momento em que as duas entraram lado a lado, o ambiente em volta ficou em silêncio por alguns segundos.
Quase todos os olhares passaram rapidamente por Rafaela e foram direto se fixar em Serena.
Ela estava linda demais. O preto elegante e misterioso, a rosa de folhas secas com aquela sedução singular, a pintinha vermelha no canto do olho, e um rosto de traços limpos e puros que não precisava de maquiagem nenhuma.
Rafaela olhou para o espanto nos olhos de todos ao redor e sentiu como se tivesse sido colocada num pelourinho público.
Se Serena era a princesa da festa, ela não passava da criada carregando o sapato.
E todo mundo estava completamente alheio ao ódio que ardia dentro dela, porque estavam todos aglomerados em volta de Serena.
Rafaela foi ignorada por completo. E ser ignorada era, de longe, a humilhação mais pesada que existia.
Enquanto isso, no salão Serena conversava e ria com desenvoltura, e do lado de fora do instituto, dois pequenos espionavam pela porta.
"Zarinha, a gente vai se grudar num adulto e entrar junto." Lorenzo cochichou para Zara.
Zara acenou com a cabeça obediente e apertou a mão do irmão com força.
Os dois escolheram um adulto na entrada e foram seguindo por trás com toda a naturalidade.
Mas no segundo seguinte, o segurança estendeu o braço bloqueando as duas crianças: "Crianças, o instituto não permite a entrada de menores."
O plano de se passar por familiares tinha dado errado. Lorenzo viu o adulto que eles estavam seguindo já ter sumido lá dentro, e uma ideia piscou na cabeça.
Ele podia se passar por Henrique. Afinal, eram idênticos.
Quem ia barrar o filho do dono do lugar?
Então, com toda a calma, o menino tirou a máscara do rosto.
O segurança reconheceu Henrique na hora, e o sorriso veio imediato: "Ah, é o senhorinho! Pode entrar, senhorinho!"
Lorenzo tomou a mão de Zara e entrou com aquele passo de quem manda no pedaço.
Naquele mesmo momento, Rafael chegou do lado da sede principal da empresa, bem na entrada do instituto.
"Hm, o senhorinho apareceu?" Gabriel, sentado na fileira da frente, franziu o cenho curioso.