Os olhos de Henrique ficaram vermelhos na hora. O pequeno punho se fechou com força.
"Se não acredita, vai lá pesquisar!" O sorriso de Rafaela ficou mais fundo ainda: "A sua mamãe feia, o seu pai torce para que ela morra logo."
"Ela não é feia!" Henrique interrompeu Rafaela de repente. "Minha mamãe é a mais bonita de todas!"
Ele tinha lembrado do sonho que teve na noite anterior. Mesmo não tendo conseguido ver o rosto da mãe com clareza, tinha certeza de que ela era linda, mais do que qualquer outra pessoa.
"Que gracinha, você ainda tem ilusões sobre ela?" Rafaela franziu os olhos: "Mas e se ela ver você quando está fora de controle, com aquela cara horrível que você faz? Será que ela não vai sentir nojo?"
"Que coincidência, eu tenho um vídeo seu num desses momentos. Quer que eu mande para ela?"
Henrique sentiu o corpo tremer e deu meio passo para trás sem querer.
Pensou no menino que tinha visto de relance naquele dia, e uma suspeita foi tomando forma devagar dentro dele.
Aquele menino era idêntico a ele. Será que também era filho da mamãe?
Se a mamãe tinha outro filho, esse filho era normal, diferente dele, que perdia o controle sem conseguir evitar.
Se a mamãe o visse naquele estado, com certeza ia ter nojo dele.
Rafaela viu o rosto de Henrique ficar pálido e ficou mais satisfeita ainda: "Tá com medo? Com medo de eu mandar o vídeo para ela? Então vai lá pedir desculpas direitinho!"
Henrique caminhou até as duas crianças com o corpo inteiro tremendo.
As unhas quase cravadas na palma da mão, os olhos vermelhos, como um bicho pequeno e selvagem prestes a explodir.
Mas esse bicho quebrou os próprios dentes por conta própria. Com o rosto pálido como papel, ele deixou escapar três palavras: "Me desculpa."
"O quê? Fala mais alto, não ouvi!"
"Me desculpa!" Henrique repetiu, a voz um pouco mais alta desta vez.
"Henrique, que jeito é esse?" Rafaela disparou em tom frio.
Os pais das crianças foram na mesma direção: "É mesmo, que jeito é esse!"
"Me desculpa." Quando Henrique terminou de falar, um fio de sangue escorreu pelo canto da boca. Sem perceber, ele tinha mordido o interior da bochecha.
"Tá bom, assim tá melhor." Os pais disseram, e viraram para Rafaela: "E o ressarcimento médico?"
"Claro, claro." Rafaela respondeu logo, toda sorrisos.
Depois do que tinha acontecido, Henrique não tinha vontade nenhuma de continuar na escola, mas muito menos de sair com Rafaela. Então ficou.
Quando todos os coleguinhas se deitaram para a soneca, Henrique não conseguiu dormir. Tirou o celular às escondidas.
No canto mais escondido do celular tinha um aplicativo com um ícone de chama preta.
Henrique abriu, digitou uma senha longa e entrou.
No centro da tela apareceu uma linha em letras de néon:
Hackers Alliance.
Aliança dos Hackers.
Henrique foi direto para a área de publicação de tarefas e clicou para contratar um hacker específico.
Escolheu um hacker com o codinome "Torre" e digitou o conteúdo da missão:
Destruir todos os vídeos que Rafaela Sousa guarda no instituto dos Duarte.
Henrique clicou em enviar e uma tela de pagamento apareceu na hora.
Torre era um hacker de nível A na Aliança, e só o sinal exigia quinhentos mil.
Henrique acessou a conta de investimentos e concluiu o pagamento em segundos.
Naquele mesmo momento, numa outra escola não muito longe dali, Lorenzo sentiu a vibração especial do celular.
Tirou o aparelho do bolso e viu um pedido de serviço.
Estava prestes a recusar aquela missão sem graça, mas quando o nome de Rafaela Sousa apareceu na tela, os cantos da boca de Lorenzo se curvaram para cima.
Esse ele ia aceitar.
O preço que cobrava era sempre do humor dele. Depois de aceitar a tarefa, a tela pediu para ele definir o valor do saldo restante.
Lorenzo digitou um número: 1.
Inimigo do inimigo é amigo. Aquele amigo de codinome "Silêncio" que mandou um pedido tão do seu gosto merecia de volta um presente surpresa.