À noite.
Henrique abriu os olhos e jogou o cobertor para o lado.
Fazia muito tempo que ele não dormia mais do que duas horas seguidas. Aquelas seis horas de sono deixaram cada poro do corpo dele com uma leveza que ele tinha esquecido que existia.
Ele acendeu a luz e olhou para a atadura que envolvia a própria mão.
Não era o jeito do Dr. Tân de fazer curativo.
Pensou na mulher que o tinha segurado no colo à tarde, mas ele estava tão tenso naquele momento que não chegou a olhar direito para ela.
Henrique nunca teve interesse em estranhos. Sacudiu o pensamento da cabeça e foi até o computador.
Ligou a máquina rápido, abriu um software de bolsa de valores de um país estrangeiro e fez o login.
A tela estava cheia de barras vermelhas e verdes. A cada ação que ele clicava, aparecia o relatório financeiro em inglês.
Henrique percorreu tudo com rapidez e pegou o celular.
"KH112, aumenta dois terços; HJ990, reduz posição em escada, zera em dois dias."
O inglês fluiu sem tropeço nenhum pela boca daquele rosto ainda de criança, com uma seriedade e um controle que não tinham nada de infantil.
Depois de receber as confirmações do outro lado, ele fechou o software e abriu um bloco de notas.
O bloco era organizado como um calendário. Ele clicou na data de hoje e ficou olhando para a tela por um instante.
Então digitou uma linha:
"Hoje sonhei com a mamãe. Sinto falta dela."
O tempo foi passando devagar. O céu lá fora foi clareando. Henrique se arrumou e foi tomar café da manhã.
Quando viu a marca vermelha no rosto de Rafael, os olhos de Henrique escureceram ligeiramente.
Tinha sido ele quem arranhara. Nesses dois anos, o rosto de Rafael tinha acumulado muitas dessas marcas por causa dele.
Pai e filho se sentaram um de frente para o outro. O silêncio no café da manhã era quebrado só pelo ocasional barulho de talher.
"Hoje te levo para a escola." Rafael disse.
Henrique respondeu com um "hm" sem expressão.
Na mesma hora, na casa de Serena, o clima era completamente diferente.
Serena tinha ficado um pouco insone depois de ver o filho mais velho na noite anterior. De manhã correu para preparar o café dos dois filhos, e os três se sentaram juntos à mesa, animados e aconchegados.
"Lorenzinho, Zarinha, hoje quem vai buscar vocês na escola é a tia Nina, tá? Mamãe está com bastante trabalho e vai chegar mais tarde."
Serena tinha quatro assistentes: Nina, que ela chamava de um a quatro. Cada uma tinha uma função diferente. A primeira cuidava dos assuntos da empresa, a segunda estava no exterior tocando outros projetos, a terceira era segurança pessoal, e a quarta, Nina, era assistente de vida e cuidados do dia a dia.
Desde a véspera Serena já sabia que o problema de sono de Henrique era grave, e tinha planejado passar lá depois do trabalho.
Saiu com as duas crianças e foi de carro até a escola.
O trânsito estava um pouco lento, e quando pararam num semáforo, Lorenzo abaixou o vidro do carro e ficou olhando para a rua.
Por acaso, um Bentley preto parado ao lado também abaixou o vidro do banco traseiro.
Dentro do carro, Henrique pareceu sentir o olhar de Lorenzo e virou o rosto.
Os dois meninos trocaram um olhar e os dois abriram os olhos ao mesmo tempo.
Lorenzo sentiu que estava diante de um espelho.
A três metros de distância, havia um menino com exatamente o mesmo rosto que o dele.
O jeito era diferente, a roupa era diferente, mas aquele rosto era uma cópia perfeita.
Naquele momento o sinal abriu e o carro do lado avançou primeiro.
Lorenzo reagiu e gritou animado: "Mamãe, vi o irmão!"
Apontou para o carro que estava saindo: "Com certeza é o irmão que a gente perdeu! Ele é igual a mim!"
Serena tinha chegado em casa na noite anterior depois que as crianças já tinham dormido, então ainda não tinha contado nada sobre Henrique para eles.
Ela olhou para a placa do carro à frente e disse: "É. Esse é o irmão de vocês, Henrique."
"Que problema!" Lorenzo de repente a interrompeu:
"Mamãe, eu esqueci a máscara! O irmão viu meu rosto!"