"Espera."
Rafael falou de repente.
Serena virou o rosto, sobrancelha levemente levantada no canto: "Por quê, Sr. Duarte tem alguma coisa a dizer?"
"Depois do trabalho, você vem comigo à casa da família." A voz dele era plana, sem entonação.
"Claro." Serena não perguntou o motivo. Os lábios vermelhos se curvaram num sorriso com um fio de provocação na voz: "Então a gente se vê hoje à noite, Sr. Duarte."
Rafaela assistiu a tudo com o coração disparado, as palmas das mãos suando enquanto Serena seguia a recepcionista em direção ao elevador.
Ela não conseguiu se conter: "Rafa, por que você convidou ela? Você se interessou por ela?"
"Não." A resposta foi seca e sem demora.
Rafaela pensou no filho mais velho de Serena, que estava na mansão da família, e cerrou os dentes.
Ela não podia de jeito nenhum deixar Serena chegar lá.
"Rafa, essa mulher é tão novinha, se veste de um jeito tão chamativo, que aparência de médica de verdade ela tem? A reputação que ela tem lá fora deve ser toda inventada."
"E não vai ficar levando qualquer pessoa pra casa da sua família. Quem sabe ela não está com alguma doença contagiosa!"
Rafael franziu o cenho ao ouvir isso. A impaciência que já estava no fundo dos olhos dele ficou evidente:
"Quem eu levo pra casa da minha família precisa da sua aprovação?"
Rafaela endureceu o rosto, os olhos na beira das lágrimas.
"Fica no seu lugar." Rafael deixou a frase cair e foi embora.
Ele estava cada vez mais incomodado com Rafaela.
Se não fosse ela ter salvado a vida dele quando eram jovens, lá naquele vilarejo, e depois de ele ter cruzado com ela por acaso cinco anos atrás, ele não teria tolerado tudo isso por tanto tempo.
Ele até tinha pensado em se casar com ela em algum momento, afinal a primeira impressão tinha sido boa.
Mas agora, a única coisa que queria era pagar para se livrar dela.
Rafaela ficou olhando para as costas de Rafael indo embora, segurando com esforço a maldade que brilhava no fundo dos olhos.
Cinco anos desde o dia em que "casualmente" reencontrou Rafael, e ele só estava ficando mais distante dela.
Ela não tinha conseguido nem pegar na mão dele uma única vez.
Enquanto Serena tinha dado a Rafael três filhos.
Ela precisava pensar num plano.
No fim da tarde, Serena estava organizando os equipamentos do laboratório quando percebeu um olhar pousado sobre ela o tempo todo.
Graças aos anos sendo caçada por Rafael, ela tinha desenvolvido uma sensibilidade aguçada para esse tipo de coisa.
A culpada estava bem na frente. Serena não estava com vontade de ficar parada.
Afinal, o escritório de Rafaela ficava exatamente do outro lado do corredor.
Ela não acreditava que Rafael apareceria por ali sem que Rafaela fosse atrás.
O jaleco branco que Serena usava tinha um jeito de cair nela como se fosse roupa de passarela. A pintinha vermelha no canto do olho levava a sedução do uniforme a um nível completamente diferente.
Ela caminhou até Rafael com passos lentos e calculados, inclinou levemente o corpo para frente, e a voz saiu morna e próxima:
"Sr. Duarte, não tem medo que a sua governanta fique com ciúme?"
Rafael levantou uma sobrancelha: "Você acha que tem algo que gere ciúme?"
Ele tinha o colarinho da camisa aberto em alguns botões, e do pescoço até a clavícula levemente exposta, tudo respirava uma sensualidade descuidada.
"Isso quem decide é o Sr. Duarte." Serena deu uma risadinha e passou o dedo indicador pelo peito dele.
Traçou um círculo devagar, depois foi descendo pela linha do músculo, seguindo o contorno:
"Posso auscultar o Sr. Duarte?"
Rafael detestava ser tocado por estranhos. As pupilas se contraíram, e ele estava prestes a empurrar aquela mulher para longe.
Mas quando ia fazer isso, uma corrente elétrica disparou entre a pele dos dois no ponto de contato, percorreu o trajeto do dedo de Serena e acertou em cheio o baixo-ventre dele.
A garganta de Rafael se moveu. As pupilas escureceram de repente.
Essa mulher tinha conseguido despertar nele um desejo que ele achava que não existia mais.
Porque o seu corpo tinha parado de funcionar naquele sentido seis anos atrás.
Seis anos antes, ele estava num país estrangeiro quando se machucou numa queda de avião e foi resgatado por uma mulher feia.
O que não esperava era que essa mulher, depois de salvá-lo, aproveitasse que ele estava desacordado para ficar com ele.
A câmera do avião tinha registrado tudo com clareza.
Pele amarelada, rosto coberto de manchas, feia de um jeito que não tinha jeito.
Não sabia dizer se foi o nojo, mas desde aquela vez o seu corpo tinha simplesmente parado de reagir.
Ver qualquer mulher fazia nascer nele uma rejeição instintiva.
Rafael de repente envolveu a cintura de Serena e a puxou contra si.
A distância entre os dois chegou a zero num segundo.
O jaleco branco de Serena foi puxado para o lado, e o vestido de ombro a mostra que ela usava por baixo revelou uma pequena pinta no ombro dela.
O tecido rasgou com um som seco quando Rafael o abriu de vez.
A pintinha ficou nítida sob a luz. No mesmo lugar exato daquela mulher feia, anos atrás.