Mas antes que Rafaela chegasse a tocar em Zara, a visão dela tremeu por um instante.
No mesmo segundo, sua mão foi agarrada por uma mão branca e delicada, com uma força tão brutal que parecia prestes a quebrá-la.
A voz fria de Serena soou bem acima da cabeça dela: "Querida senhora, roubar já não bastava, agora ainda vai fingir que se machucou?"
"Solta!" Rafaela sentiu o pulso latejando de dor e ergueu o rosto num baque: "O que foi que você disse?!"
Senhora? Roubar? Que absurdo era esse?
Do lado, a voz infantil e aguda de Lorenzo cortou o ar. Ele apontou para a pulseira que havia aparecido no pulso de Rafaela e disse:
"Você roubou a pulseira de edição limitada da minha mamãe e ainda quer negar? Tá gravado o nome dela lá, um 'S' entalhado à mão mesmo!"
Rafaela abaixou os olhos, atônita, e percebeu que havia de fato uma pulseira no próprio pulso.
No momento em que Serena a segurou, ela tinha sentido um leve frescor no pulso. Seria possível que Serena tivesse colocado a pulseira ali naquele instante?
Como a mão dela era rápida assim? Rápida demais para sequer ser percebida.
As pessoas ao redor foram chegando, dedos apontando, bocas comentando: "Olha só, a ladra ainda finge que foi machucada! Nunca tinha visto coisa assim!"
"Pois é, e ainda ia bater numa criança pequenininha. Que cara de pau!"
Rafaela ficou com o rosto ora pálido ora vermelho, com uma raiva que mal conseguia conter. Ela teria partido Serena e as crianças ao meio se pudesse.
Trêmula de fúria, mas sem saída, ela arrancou a pulseira do pulso e jogou em direção a Serena: "Quem quer isso!"
Dito isso, virou-se para Rafael com olhos marejados, numa voz que queria parecer fragilizada: "Rafa, essas pessoas me difamaram, você pode pedir para ver as câmeras..."
Rafael franziu levemente o cenho, com uma impaciência que não escondia bem: "É coisa pequena. Chega."
Dito isso, ele abaixou o olhar para a bolinha de cristal que estava aos seus pés e se abaixou para pegá-la.
A estendeu na direção de Zara, e a voz dele, que tinha sido dura um segundo antes, ficou nitidamente mais suave, grave e agradável: "É sua?"
Zara levantou os olhos grandes e redondos para Rafael. Esse moço se parecia tanto com o irmão dela!
A vozinha dela saiu mole e fofa, e o sorriso que ela abriu para ele era daqueles que derretem: "Obrigada, tio!"
Aquela voz ao mesmo tempo doce e macia fez algo se mexer dentro de Rafael sem que ele percebesse.
Ele acenou com a cabeça para Zara, depois se voltou para Rafaela com frieza: "Vamos."
O tom era totalmente diferente. Isso era perceptível demais.
Rafaela ficou com os olhos vermelhos de ciúme. Seria isso o magnetismo que corre pelo sangue entre pessoas da mesma família?
Anos atrás, Rafael não tinha conseguido mandar matar o filho de Serena. Pelo contrário, tinha ficado com o menino para criar.
Cinco anos protegendo os registros daquela criança como se fosse um segredo de Estado.
E agora, na primeira vez que via a filha pequena de Serena, esse homem ainda foi lá pegar uma bolinha de vidro para ela.
O peito de Rafaela subia e descia, o ciúme quase sobrepondo qualquer raciocínio.
Mas ela não teve coragem de insistir em ver as câmeras para provar que não tinha roubado nada, e foi embora engolindo a raiva, sem conseguir dizer mais uma palavra.
Ao se virar para ir, seus olhos encontraram os de Serena. Nas pupilas das duas havia um ódio claro e reconhecível.
Rafaela foi embora rangendo os dentes. No fim, não disse nada.
Serena saiu de mãos dadas com as duas crianças, e não percebeu que o homem que já estava a alguns metros de distância tinha de repente virado para olhar para trás.
Rafael ficou parado, com o cenho franzido, os olhos pousados nas costas de Serena e das crianças se afastando.
O olhar dele era fundo, escuro, impossível de ler.