"O paciente está mesmo aqui?" Serena murmurou baixinho, os olhos percorrendo o ambiente ao redor.
Era quase meia-noite e meia, e a academia já estava fechada, mergulhada no escuro. No salão enorme, só entrava uma fresta de luz fraca vinda da rua lá fora.
Ela empurrou a porta da sala VIP.
Foi então que um som chegou aos seus ouvidos, uma respiração pesada, quase sufocante.
Serena se aproximou devagar, pisando com cuidado.
Deitado de costas no aparelho de abdominal, havia um homem de olhos fechados. Ombros largos, cintura fina, pernas compridas. Na penumbra densa, era impossível ver bem o rosto, mas a silhueta projetava uma força que pesava no ar.
Ele parecia não estar bem. O peito subia e descia com esforço, a respiração soando funda e irregular.
Serena se aproximou, curiosa, e ia estender a mão para acender a luz quando o homem de repente se mexeu e agarrou seu pulso com violência.
A força dele era absurda. Serena não teve como reagir. Em menos de um segundo, ela já estava prensada contra o couro do aparelho, sem conseguir se mover.
No instante seguinte, o som de tecido rasgando se misturou a uma dor aguda e cortante.
O que veio depois foi como uma tempestade que não pede licença para entrar.
O corpo do homem ardia, as linhas do físico definidas e precisas. O suor brilhava sobre a musculatura em pequenas gotas que pareciam capturar o pouco de luz que restava.
Os ombros largos se moviam sem parar, subindo e descendo como ondas numa superfície que não se acalma.
O suor escorria pelo rosto dele e caía na testa de Serena, nas bochechas, no pescoço, depois pingava no carpete da academia e sumia.
O ar estava cheio de fragmentos de som.
Toda tentativa de resistência de Serena era sufocada pela força daquele homem, até que um raio rasgou o céu lá fora e iluminou tudo por um segundo, tempo suficiente para ela ver o rosto dele com clareza.
Era... ele?
O coração de Serena deu um salto forte dentro do peito, e naquele segundo ela parou de lutar.
Não sabia dizer quanto tempo tinha se passado até que tudo finalmente se acalmou.
Mas o cheiro que ficou no ar, quente e almiscarado, não desaparecia.
O homem tinha fechado os olhos e dormido pesado sobre ela. Serena usou as últimas forças que lhe restavam para empurrá-lo de lado.
Ela olhou para baixo e viu a própria roupa destruída. Os olhos arderam.
Pegou a roupa do homem que tinha caído no chão, enrolou-se nela, lançou um último olhar para ele e saiu correndo.
Quando chegou à rua lá fora, uma pessoa que passou por ela não conteve um grito abafado: "Meu Deus!"
Serena levou a mão instintivamente ao rosto, e só então se lembrou: ela estava disfarçada.
Na vitrine de vidro de uma loja ali perto, seu reflexo a encarou de volta, cabelo despenteado, rosto coberto de marcas falsas, irreconhecível.
Ela cruzou os braços sobre o peito e soltou o ar, aliviada. Ele não teria como saber quem ela era.
A chuva começou a cair de repente, forte e sem aviso, e o disfarce foi se dissolvendo pouco a pouco no rosto de Serena, revelando uma beleza que prendia o olhar, pura e perigosa ao mesmo tempo.
Especialmente a pequena pinta vermelha no canto do olho, viva como uma gota de sangue, que lembrava uma papoula desabrochando na escuridão.
Naquele mesmo momento, dentro da academia, o homem abriu os olhos.
Rafael Duarte percebeu a situação em que se encontrava, e o que havia nos olhos dele era fúria pura.
A academia estava sem luz, sem câmeras funcionando. Mas havia uma microcâmera escondida na fivela do cinto dele.
A imagem era quase toda preta, impossível de distinguir detalhes, mas os sons de respiração de duas pessoas estavam ali, nítidos demais, carregados de uma intimidade que ele não tinha pedido.
Foi só quando um raio cruzou o céu lá fora que ele conseguiu ver, por um instante, aquele rosto. Um rosto que ele nunca mais esqueceria pelo resto da vida, pelos piores motivos.
Cabelo desgrenhado, rosto coberto de manchas, feia de um jeito que parecia impossível. Só o ombro era liso, e nele havia uma pequeníssima pinta.
Rafael era tomado pela raiva. Ele estava infiltrado na academia cumprindo uma missão, e não tinha percebido que aquela mulher o havia drogado e se aproveitado dele. Era uma humilhação que não tinha tamanho.
Ele pegou o celular, discou um número. A ligação foi atendida rapidinho.
A voz de Rafael saiu fria e cortante como lâmina: "Preciso que você localize uma pessoa para mim."