[Ding! Detecção de portadora adequada. O Sistema de Domínio das Bestas está se vinculando...]
Ela não estava morta?
Como ainda estava viva?
Letícia não tinha certeza. Beliscou o próprio braço. Só ao sentir a dor é que se convenceu de que não era um sonho.
Ela realmente havia renascido. E renasceu justamente depois de ter sido morta por aquele canalha.
Por mais que tentasse, ela não conseguia entender. Como o namorado com quem ficou por quatro anos na universidade podia ser um monstro com rosto humano? Três meses atrás, Felipe comprou um seguro de acidentes pessoais para ela, colocando a si mesmo como beneficiário. Na época, ela desconfiou.
Mas Felipe mostrou outra apólice de seguro que havia feito, dessa vez com ela como beneficiária.
Somado às provocações das amigas do dormitório, ela acabou abandonando suas suspeitas sobre Felipe.
Quem diria que o namorado que ela amou por quatro anos queria matá-la pelo dinheiro do seguro.
Felipe e sua colega de quarto já tinham tudo planejado. Primeiro, a enganaram para comprar o seguro. Depois, numa tempestade com trovoadas, orquestraram um acidente de carro que parecia fatal.
Se não fosse pelo fato de Felipe ter insistido em ir ao local do acidente para ver se ela estava morta, e mencionado à colega de quarto sobre a sabotagem nos freios...
Letícia teria partido acreditando que a vida foi injusta, que foi só um infortúnio.
Agora, a chuva já tinha parado. Mas o local do acidente era muito isolado, sem um único carro passando. Letícia agachou-se à beira da estrada e esperou até o céu escurecer, até que finalmente conseguiu parar um veículo.
Depois de negociar e pagar uma quantia ao motorista, ele concordou em levá-la de volta à Universidade de Jiang.
Desde que se formou, Felipe ficou trabalhando na Universidade de Jiang. Agora era justamente a hora em que ele saía do trabalho.
Letícia ficou parada na entrada do alojamento dos funcionários. Avistando de longe, sob a luz do poste, a figura que se aproximava, ela disparou como uma flecha. "Felipe! Por que você quis me matar?"
Ao ver Letícia, com as roupas rasgadas e sujas, aparecendo diante dele, os olhos do homem se encheram de pânico. Seus pés recuaram involuntariamente. "Letícia, eu não quis te matar! Foram os freios do carro que falharam, foi um acidente!"
"Não está certo. Como você já sabe que eu morri? Como você sabia, se as notícias ainda não relataram e a polícia não te contatou?" Letícia pressionou, passo a passo, mas também se mantendo cautelosa.
Para ela, Felipe agora era um elemento perigoso.
Só então Felipe percebeu que falou demais. "Foi um palpite."
"Foi um palpite? Ou foi algo planejado há muito tempo? Se foi um palpite, você realmente não torcia pelo meu bem." Letícia não pôde evitar um sorriso frio e de desdém.
"Leti, você precisa acreditar em mim! Como eu poderia planejar te matar? Afinal, ficamos juntos por quatro anos, fomos o casal modelo da faculdade. Eu juro pelos céus, se eu tivesse tentado te machucar, que um raio me atinja!" Felipe levantou os dedos em direção ao céu, enquanto seus pés continuavam se aproximando de Letícia.
Assustada, Letícia deu dois passos para trás. "Se juramentos funcionassem, não sei quantos canalhas já teriam sido fulminados."
Enquanto falava, Letícia tirou do bolso a câmera de bordo que havia arrancado do carro. "Felipe, quando fez sua maldade, você se esqueceu de desligar a câmera, não foi? Todas aquelas conversas com a Viviane, planejando me matar, ficaram registradas com clareza."
Felipe ficou instantaneamente desesperado. Sua expressão antes gentil se desfez, revelando um lampejo de intenção assassina. "Letícia, me dê aquela câmera."
Sem a câmera, mesmo se Letícia fosse à polícia, sem provas, eles não abririam um caso.
"Nem pense." Letícia guardou a câmera de volta no bolso.
"Letícia, é melhor você me obedecer e me dar a câmera. Do contrário, se consegui te matar uma vez, consigo te matar uma segunda." Com um rosto feroz, Felipe jogou a pasta no chão e se atirou em direção a Letícia.
No momento crucial, Letícia pegou os dois ratinhos que já estava escondendo no bolso e os jogou em Felipe. Assustados, os dois pequenos roedores se agarraram com força ao rosto de Felipe, abrindo a boca e mordendo com força suas pálpebras.
"Que diabos é isso!" A dor impediu Felipe de abrir os olhos, forçando-o a parar seu avanço.
Suas pálpebras, mordidas pelos ratos, ficaram inchadas e vermelhas. Ele lutou, usando as mãos para tentar arrancar os ratos que se penduravam em seu rosto. Com um esforço brutal, finalmente conseguiu puxá-los para longe.
Ao ver claramente os ratos em suas mãos, a fúria e a humilhação tomaram conta de Felipe. Ele os atirou violentamente no chão. "Até essas criaturas ousam me morder!"
Os ratos jogados no chão guincharam duas vezes e se enfiaram na grama alta por perto.
Aproveitando o intervalo do ataque dos ratos, Letícia se escondeu atrás de uma sebe densa de azevinho em um canteiro de flores.
Ela agachou-se até as pernas formigarem. Através das frestas da folhagem, via a figura de Felipe se aproximando constantemente. Em suas mãos, ele agora segurava um pedaço de madeira grosso como uma tigela. Letícia quase prendeu a respiração, não ousando fazer o menor ruído.
"Letícia, eu sei que você está por perto. Se sair agora e me der a câmera, posso considerar esquecer o assunto. Mas se continuar se opondo a mim, com certeza não vou te perdoar."
"Letícia, pare de se esconder. Já te vi." A voz gélida de Felipe atravessou a grama e chegou aos ouvidos de Letícia.
Ela sabia que ele estava tentando assustá-la. Se realmente a tivesse visto, já teria balançado aquele pedaço de madeira.
Mas aquele não era um bom lugar para se esconder. Arqueando o corpo, ela começou a recuar lentamente. Justamente quando estava prestes a sair da distância segura de descoberta, seu pé pareceu pisar em algo. Ela baixou lentamente a cabeça. Uma cobra-nariz-de-porco estava sob seu pé.
Uma cobra-nariz-de-porco não deveria aparecer ali. Provavelmente escapou do laboratório da universidade.
Recentemente, o laboratório de biologia da universidade introduziu cobras de veneno fraco para pesquisa.
'Humana, você pisou na minha cauda.'
A cobra-nariz-de-porco assumiu uma postura de ataque.
Letícia, assustada, rapidamente tirou o pé. "Desculpe, não foi de propósito."
A cobra ergueu metade do corpo, seus olhos verticais fitando Letícia intensamente.
'Humana, você consegue me entender.'
No caminho de volta à universidade, Letícia ouviu novamente aquela voz mecânica. Só então ela teve certeza completa: ela estava vinculada a um Sistema de Domínio das Bestas. E foi graças a esse vínculo que conseguiu renascer, tomando posse de outro corpo.
O "Sisteminha" também lhe disse que, ao se vincular a ele, seria capaz de entender os pensamentos de mais de uma dúzia de criaturas terrestres, além de ajudá-la a aumentar a afinidade com os animais.
No início, ela desconfiou. Depois de descer do carro, testou especificamente com gatos e cachorros de rua perto da universidade. Realmente conseguia entendê-los. Até ratos! Por isso, ao vir encontrar Felipe, pegou dois ratos perto da lixeira da universidade.
Quanto a cobras, ela ainda mantinha suas dúvidas. Não imaginava que também funcionasse.
Letícia ainda tinha medo de cobras. E mais medo ainda de se mover agora, fazendo a cobra se defender e atacá-la. "Parece que sim."
Assim que a voz de Letícia se calou, um som de folhas sendo mexidas veio de perto do canteiro. Provavelmente Felipe estava perdendo a paciência, revirando os arbustos próximos. "Leti, se você sair e me der a câmera, podemos voltar a ser como antes."
Lembrando que a cobra-nariz-de-porco tinha certo veneno, uma ideia surgiu na mente de Letícia. Seu olhar se tornou suave ao se voltar para a pequena cobra. "Você poderia me fazer um favor? Depois, eu te levo de volta à sala de incubação."
'Conte, humana.'