Leonardo ficou parado no mesmo lugar.
O coração sendo dilacerado como por lâminas.
Respirou fundo algumas vezes, tentando manter a voz estável:
“O mingau vai esfriar… come um pouco.”
“Eu… vou sair. Se precisar, me chama.”
Ele saiu do quarto.
Parando a cada passo, olhando para trás.
Até fechar a porta com cuidado.
Nos dias seguintes, Leonardo cancelou todo o trabalho.
Ficou praticamente preso à mansão.
Passava o tempo do lado de fora do quarto dela.
Ou arrumava qualquer desculpa para entrar.
Tentando falar com ela.
Cuidar dela.
Mas Ana Beatriz, na maior parte do tempo, permanecia em silêncio.
Nem mesmo o olhar ela lhe dava.
Leonardo via aquilo.
E o medo dentro dele crescia a cada dia.
Até a tarde do quarto dia.
Ele estava sentado ao lado da cama.
Falando em voz baixa sobre lembranças da juventude deles.
De repente, a respiração de Ana Beatriz ficou acelerada.
O suor frio surgiu na testa.
O rosto empalideceu visivelmente.
Os lábios perderam qualquer vestígio de cor.
Ela levou a mão ao peito.
A dor familiar voltou.
Mas desta vez, muito mais violenta.
Como se uma mão invisível esmagasse seu coração com força.
Dessa vez, ela pensou que iria morrer.
Por um instante, acreditou que já não se importava.
Mas, involuntariamente, o rosto de Paulo surgiu em sua mente…
Que pena.
Ela tinha prometido a ele que tentaria viver.
A consciência começou a se desfazer.
E a única coisa que restava em seus ouvidos era o grito rouco de Leonardo:
“Aninha! Não me assusta assim!”
“Chama o médico! Agora!!”
Leonardo entrou em completo desespero.
Pegou-a nos braços e correu escada abaixo.
Os braços tremiam tanto que mal conseguiam sustentá-la.
Durante todo o caminho, ele gritava ao ouvido dela:
“Aninha, eu errei…”
“Por favor, não me deixa…”
“Me bate, me xinga, faz o que quiser…”
“Mas não fica assim…”
“Por favor, aguenta mais um pouco…”
“Já estamos chegando no hospital…”
“Vai dar certo…”
“Vai dar certo…”
“Eu não posso viver sem você…”
O carro avançou como um louco pelas ruas.
Rumo ao melhor hospital particular de Porto Azul.
O pronto atendimento já estava preparado.
Ao mesmo tempo, Paulo também chegou.
Assim que entrou no saguão, viu Leonardo carregando Ana Beatriz inconsciente.
Cercado por médicos e enfermeiros.
Correndo em direção à sala de emergência.
O olhar de Paulo se fixou no rosto pálido e sem vida dela.
O coração foi apertado com violência.
“Leonardo!”
“Isso é o que você chama de amar ela?!”
Ele não esperou resposta.
Avançou rapidamente.
Conversou com o médico responsável em poucas palavras.
E entrou na sala de emergência junto com a equipe.
A porta se fechou.
A luz vermelha acendeu.
Leonardo escorregou lentamente até o chão.
Encostando-se na parede fria.
Os olhos vazios.
Fixos naquela luz vermelha.
O tempo se transformou em tortura.
Cada segundo esmagava seus nervos.
Como um fiel desesperado.
Ele caiu de joelhos no chão gelado.
Batendo a cabeça repetidas vezes.
A testa logo ficou marcada.
“Por favor…”
“Meu Deus…”
“Leva minha vida…”
“Leva minha saúde…”
“Leva tudo…”
“Desde que ela viva…”
“Desde que ela fique bem…”
“Eu não quero mais nada…”
“Deixa eu sofrer por ela…”
“Deixa eu morrer no lugar dela…”
“Por favor…”
O assistente e os seguranças ficaram à distância.
Observando.
O homem que antes dominava tudo.
Agora completamente destruído.
Ninguém ousava se aproximar.
Ninguém sabia o que dizer.
O tempo passou.
Gota a gota.
A luz da emergência ficou acesa por um dia inteiro.
E uma noite inteira.
Quando finalmente se apagou—
Leonardo se arrastou até a porta.
Quase caindo.
As pernas dormentes de tanto ajoelhar.
A porta se abriu.
Quem saiu primeiro foi Paulo.
Exausto.
Leonardo tentou falar.
Mas as palavras ficaram presas na garganta.
Sem dizer nada.
Paulo levantou o punho.
E desferiu um soco violento no rosto dele.