Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios de Ana Beatriz.
“Leonardo… tudo isso que você está dizendo agora…”
“É só porque você percebeu que a Valentina não valia a pena, e então lembrou que eu, essa ‘ex’, ainda posso ter alguma utilidade… não é?”
“Não!”
Leonardo negou de imediato, quase em desespero.
“Eu nunca amei ela! Eu só estava confuso… só queria respirar um pouco!”
“Do começo ao fim… a única pessoa no meu coração sempre foi você!”
Ana Beatriz sorriu levemente.
Mas o sorriso estava cheio de ironia.
“Essa sua ‘confusão’…”
“Foi fingir a própria morte por três anos.”
“Foi me trancar no porão.”
“Foi me chamar de cruel em público por causa de outra mulher.”
“Foi assistir, sem fazer nada, a nossa casa virar o lar do seu casamento com outra pessoa…”
Ela olhou diretamente nos olhos dele.
Cada palavra, como uma lâmina.
“Você disse que morreu noventa e nove vezes por mim.”
“Sim. Eu lembro.”
“Cada foto. Cada vez que você quase morreu.”
“Tudo está gravado em mim.”
“Naqueles três anos, eu fiquei ao lado do seu ‘corpo’.”
“Sustentei a família.”
“Sobrevivi com remédios.”
“Eu não me permitia morrer…”
“Porque tinha medo de desperdiçar o tempo que você tinha trocado pela sua vida.”
Ela fez uma pausa.
Respirou fundo.
“Eu achava que te devia isso.”
“Que estava apenas pagando uma dívida.”
Os olhos dela ficaram ainda mais frios.
“Mas agora… eu não te devo mais nada, Leonardo.”
“Você morreu por mim.”
“Mas também me abandonou por outra pessoa.”
“A minha vida…”
“Já foi devolvida a você.”
“A Ana Beatriz que está viva agora…”
“Não tem mais nada a ver com você.”
A cada palavra, o rosto de Leonardo ficava mais pálido.
O pânico o tomou por completo.
As palavras saíam desordenadas:
“Como isso pode ser resolvido assim?!”
“Aninha, eu errei… eu realmente sei que errei…”
“Me dá mais uma chance…”
“Vamos recomeçar…”
Ana Beatriz quase riu.
Como se tivesse ouvido a maior piada do mundo.
“Eu não te dei chances?”
“Quando eu chorava e te pedia para não ir…”
“Quando eu te implorava para não se casar com ela…”
“Quando eu explicava que não fui eu que a empurrei…”
Ela olhou para ele.
Fria.
“Você me deu alguma chance?”
Os lábios de Leonardo tremeram.
Mas ele não conseguiu dizer uma única palavra.
Nesse momento, Paulo deu meio passo à frente.
Ficou diante de Ana Beatriz.
O olhar frio.
“Sr. Leonardo, a Ana já deixou tudo claro.”
“Por favor, solte ela e pare de insistir.”
O olhar de Leonardo se fixou imediatamente na mão de Paulo segurando o braço dela.
Depois percorreu o espaço entre os dois.
Aquela proximidade silenciosa.
Aquela cumplicidade.
Uma chama misturada de ciúme e fúria explodiu dentro dele.
Queimando o resto de razão que ainda existia.
Ele apontou para Paulo.
Mas os olhos permaneciam cravados em Ana Beatriz.
A voz saiu distorcida, fora de controle:
“Ana Beatriz! Tudo isso que você disse…”
“No fundo… é por causa dele, não é?!”
“Eu te amei tanto…”
“Como você pode mudar assim?!”
O rosto de Paulo escureceu.
Ele estava prestes a avançar.
Mas Ana Beatriz pousou levemente a mão no braço dele.
Impedindo.
Ela olhou para Leonardo.
Nos olhos, restava apenas cansaço.
Um cansaço absoluto.
“Sr. Leonardo, não use a sua mente suja para julgar os outros.”
“Além disso, com quem eu escolho ficar é problema meu.”
“Não tem nada a ver com você.”
A voz dela era assustadoramente calma.
“E não se esqueça…”
“Nós já estamos divorciados.”
Cada palavra foi como uma lâmina cega, rasgando lentamente o coração dele.
Leonardo deu um passo para trás, cambaleando.
O peito subia e descia com dificuldade.
Uma dor oca e aguda parecia rasgá-lo por dentro.
Ana Beatriz não olhou mais para ele.
Virou-se.
E segurou a mão de Paulo.
“Vamos.”
Paulo assentiu.
Rapidamente tirou o casaco leve e colocou sobre os ombros dela.
Os dois caminharam lado a lado.
Na direção oposta.
A luz do sol continuava bonita.
Mas aquela cena—
Aquele par de costas caminhando juntos—
Era insuportável para Leonardo.
Ele quis correr atrás.
Mas as pernas pareciam pesadas como chumbo.
Incapazes de se mover.
Só no peito—
A dor continuava.
Vazia.
Aguda.
Isso não era um sonho.
Ele a encontrou.
E, mais uma vez—
Perdeu ela completamente.