Ninguém sabia como ele se sentiu naquele momento.
Depois de atravessar meio mundo até aquele pequeno país do hemisfério sul, descobriu que Ana Beatriz já havia partido… e estava na Suíça.
Foi como cair em um abismo de gelo.
Cada parte do corpo congelada até doer.
Por um instante, ele chegou a duvidar se tudo aquilo não era apenas uma ilusão criada pelo excesso de saudade.
Só agora, ao abraçá-la de verdade, aquele coração suspenso à beira do precipício parecia voltar a bater.
Mas Ana Beatriz apenas ficou atônita por um segundo.
Logo em seguida, se soltou dos braços dele.
Deu dois passos para trás.
O movimento foi leve.
Mas a distância era evidente.
O vazio nos braços dele surgiu de repente.
Ele estendeu a mão por reflexo—
Mas apenas roçou a ponta do tecido da roupa dela.
Leonardo olhou para os olhos dela.
Segurou a dor no peito.
A voz urgente:
“Aninha… eu finalmente te encontrei…”
“Me desculpa… te trancar no porão não era minha intenção… eu sei que te julguei errado.”
“Mas eu nunca quis me divorciar… eu sempre te amei…”
“Você pode me perdoar?”
Ana Beatriz soltou um riso baixo.
Frio.
Ela ainda havia subestimado o quanto ele podia ser descarado.
Uma frase como “não era minha intenção”…
E ele achava que podia apagar tudo?
O rosto dela esfriou completamente.
“Sr. Leonardo, se não me engano, você já recebeu o certificado de divórcio.”
“Nós não temos mais nenhuma relação.”
As palavras “Sr. Leonardo” foram como três estacas de gelo cravadas diretamente no coração dele.
“Não é assim, Aninha!”
Ele quase gritou.
“Nós não nos divorciamos… eu não assinei por vontade própria… aqueles documentos—”
“Isso importa?”
Ana Beatriz interrompeu com calma.
“Foi a sua assinatura.”
“Legalmente, acabou.”
Ela ergueu os olhos.
Profundos.
Silenciosos como um lago congelado.
“Além disso… não foi isso que você quis?”
Naquele momento, Leonardo finalmente entendeu.
Não havia ódio.
Nem dor.
Apenas uma frieza completa.
Uma distância absoluta.
Como se ele já fosse apenas um estranho irrelevante.
E aquilo era mais assustador do que qualquer ressentimento.
“Não… não é assim…”
Ele balançava a cabeça, perdido, tentando escapar daquele silêncio sufocante.
“Aninha, me escuta… eu só estava confuso naquele momento…”
“Eu nunca quis te deixar… nunca amei a Valentina… eu só…”
As palavras ficaram presas na garganta.
Ana Beatriz sorriu levemente.
“Não consegue dizer?”
Ela olhou para ele.
“Então eu digo por você.”
“Você só estava cansado.”
“Por isso fingiu a própria morte por três anos.”
“Depois, porque a Valentina queria uma família…”
“Você foi ‘obrigado’ a se casar com ela.”
“Porque ela te ‘entendia’ melhor.”
“Não é?”
As últimas palavras foram suaves.
Mas caíram como um martelo.
O coração dele se contraiu com força.
Ele abriu a boca.
Mas todas as explicações, todos os arrependimentos, ficaram presos ali.
As razões que antes pareciam justificáveis…
Agora, diante daquele olhar morto, pareciam frágeis.
Mesquinhas.
Ele mentiu para ela.
Mais de uma vez.
Desde a falsa morte.
Até as mentiras de Valentina.
E o chamado casamento por missão.
Ele ergueu uma parede entre os dois.
Com mentira após mentira.
Agora, a verdade estava exposta.
E entre eles—
Havia um abismo impossível de atravessar.
O rosto de Leonardo perdeu toda a cor.
Os lábios se moveram.
Mas nenhum som saiu.
Ele olhou para ela.
E, pela primeira vez, percebeu claramente:
A Ana Beatriz que antes vivia por ele…
Que sorria por ele…
Que chorava por ele…
Talvez…
Já tivesse sido perdida para sempre.
A paciência de Ana Beatriz se esgotou.
Ela estava prestes a se virar—
Quando o pulso foi agarrado com força.
A pressão era tão grande que quase esmagava os ossos.
A voz dele, rouca, desesperada:
“Aninha… não vai…”
“Por favor… me escuta até o fim…”
“Eu sei que você me odeia… que você me culpa por ter te enganado… por ter te abandonado e ficado com outra pessoa…”
“Mas naquela época… eu estava realmente cansado, Aninha…”
A voz foi ficando mais baixa.
Afundando em lembranças sombrias.
“Cada vez que eu voltava do inferno…”
“Eu tinha medo de não conseguir voltar da próxima.”
“Eu tinha medo de nunca mais te ver…”
Os olhos dele ficaram vermelhos.
Cada palavra, rasgando a garganta:
“Mas eu tinha ainda mais medo…”
“De você me ver morrer com os próprios olhos.”