No fim—
Devido à oposição feroz de Leonardo—
E às disputas em torno do procedimento do lançamento das cinzas ao mar—
O corpo de Ana Beatriz não pôde ser cremado de imediato.
Foi colocado temporariamente—
No freezer do necrotério.
Leonardo—
Como uma marionete sem alma—
Foi conduzido pelo assistente—
Metade apoiado, metade arrastado—
De volta àquela mansão—
Já reduzida a um monte de cinzas.
Ele não entrou.
Apenas ficou ali—
De longe—
Observando aquele cenário escuro e devastado.
Em meio ao torpor—
A voz de Ana Beatriz parecia atravessar o tempo—
Enroscando-se em seus ouvidos.
Aquelas súplicas—
Que ele antes ignorava—
Ou até considerava um fardo—
Agora se transformavam em lâminas—
Cortando-lhe o coração, uma a uma:
“Leo… não vá…”
“Eu te imploro… não vá mais…”
“Prefiro viver menos… do que ver você morrer assim, repetidas vezes…”
“Não podemos simplesmente viver em paz? Mesmo que seja só por um dia… já seria suficiente para mim…”
“Você sabe… cada vez que você volta coberto de sangue…”
“Eu preferia que fosse eu quem tivesse morrido…”
“Eu não quero um ‘para sempre’…”
“Eu só quero você vivo… vivendo bem…”
Só naquele instante—
Ele finalmente compreendeu—
Ela nunca quis—
Uma vida longa construída com a morte dele.
Ela só queria—
Que ele estivesse seguro.
Que estivesse ao seu lado.
Mas ele—
Cego pelo próprio conceito de sacrifício—
Afogado em um heroísmo que só ele entendia—
Empurrou-a, repetidas vezes—
Para o abismo do medo e da culpa.
E quando ela mais precisou dele—
Ele escolheu mentir.
Escolheu traí-la.
Arrependimento.
Essas duas palavras—
Pesavam como uma montanha em seu peito.
Cada respiração—
Arrastava um gosto metálico de sangue—
E uma dor lancinante.
Como se guiado por algo invisível—
Ele afastou a mão do assistente.
E, cambaleando—
Caminhou até os fundos da mansão—
Onde ainda restava uma abertura—
Não completamente desabada.
Ali—
Era a entrada para o porão.
Lá dentro—
Escuro como um abismo.
O ar—
Carregado de fumaça e umidade turva.
Ele acendeu a luz fraca do celular—
E começou a descer—
Passo a passo—
Pisando sobre os escombros úmidos.
Sobre pedaços de pedra quebrada—
E detritos.
O porão—
Que antes havia sido cuidadosamente preparado—
Agora restava apenas—
Paredes enegrecidas—
Estruturas metálicas deformadas—
E uma espessa camada de cinzas silenciosas.
O caixão de gelo—
Desapareceu.
A parede coberta de fotos—
Irreconhecível.
Todos os vestígios—
Da existência deles dois—
Foram completamente devorados pelo fogo.
Ele parou—
No centro daquele vazio.
A luz do celular—
Deslizando lentamente pelas paredes ao redor.
Nada.
Apenas escuridão.
Apenas ruínas.
Ali—
Já foi o altar—
Onde ele exibiu seu “amor”.
E também—
A prisão—
Onde ele a condenou ao desespero.
Por um instante—
Ele pareceu vê-la—
Naquele mesmo lugar—
Sozinha.
Rasgando, uma a uma—
As fotos que ela um dia tratou como tesouros—
E também como pesadelos—
E lançando-as ao fogo.
Quando as chamas lamberam o papel—
O que ela estava pensando?
Rindo da hipocrisia dele—
Ou lamentando o amor que entregou à pessoa errada?
Ou talvez—
Apenas sentindo—
Uma libertação fria e absoluta?
“Ha…”
“Ha… ha ha…”
Leonardo começou a rir—
Baixo.
Rouco.
O som ecoava—
Vazio—
Dentro das ruínas.
Carregado de amargura—
E de um sarcasmo voltado contra si mesmo.
Mas, enquanto ria—
As lágrimas começaram a cair—
Descontroladas.
Misturando-se à fuligem em seu rosto—
Traçando marcas sujas—
E miseráveis.
No fim—
Ele mesmo destruiu tudo.
Agora—
Aquele porão vazio—
Era exatamente igual—
Ao seu coração.
Sem destino.
Sem calor.
Restando apenas—
Silêncio.
E dor.
Tudo o que era deles—
Desapareceu.
De verdade.
Nem mesmo um punhado de cinzas—
Restou para ser lembrado—
Levado pelo vento—
Sem deixar rastro.