O olhar de Leonardo ficou preso naquele documento.
Seguindo cada movimento de Ricardo—
Enquanto ele se voltava para falar com os funcionários.
Aquela frase fria—
Caiu como sentença final em seus ouvidos:
“Foi você quem tirou dela… esses últimos seis meses.”
Leonardo ficou imóvel.
O sangue em seu corpo pareceu congelar—
E, no instante seguinte, ferver violentamente.
Queimando cada órgão, cada nervo.
Ele abaixou lentamente a cabeça.
Olhou para as próprias mãos—
Que tremiam incontrolavelmente.
Essas mãos—
Já haviam enxugado suas lágrimas com delicadeza.
Já haviam sido o abrigo dela contra todas as tempestades.
Mas, no fim—
Foram essas mesmas mãos que a empurraram para o abismo.
“—Ah!!!”
Ele caiu de joelhos no chão frio.
A testa bateu contra o piso.
Os ombros estremeciam, fora de controle.
Ela sabia de tudo.
Sabia que aquele “sacrifício” era uma mentira.
Sabia da covardia escondida por trás das justificativas grandiosas.
Sabia da traição.
Leonardo não ousava imaginar—
Naqueles anos em que ele “morreu”—
Que tipo de sentimentos Ana Beatriz carregava.
Engolindo, sozinha, doses dobradas de remédios.
Carregando o peso das “últimas vontades” dele.
Forçando-se, dia após dia—
A viver da forma que ele desejava.
E, no final—
Escolheu esse desfecho.
Para “libertá-lo”.
Um arrependimento extremo—
E uma dor insuportável—
Se entrelaçaram em seu peito.
Uma sensação de gosto metálico subiu à garganta.
Ele virou o rosto—
E um fio de sangue escorreu de sua boca.
Levantou a mão.
Limpou de forma desordenada.
Mas parecia não sentir nada.
Ricardo apenas lançou um olhar frio.
Depois desviou.
Falando com os funcionários:
“De acordo com a vontade dela…”
“As cinzas serão lançadas ao mar.”
“A cerimônia deve ser simples. Ela não gostava de alarde.”
“Não… não pode!”
Leonardo ergueu a cabeça abruptamente.
“Não pode ser no mar!”
“A Aninha… ela sempre teve medo de frio…”
“A água do mar é gelada…”
“Ela não suportaria…”
“Não pode!”
Ele tentou se levantar—
Mas as pernas não obedeceram.
Caiu novamente, de forma miserável.
Dessa vez—
Ele praticamente se arrastou até Ricardo.
As mãos, sujas de sangue e fuligem, agarraram a barra de sua roupa.
O rosto erguido—
Cheio de súplica.
De desespero.
“Doutor… eu imploro…”
“Não jogue ela no mar…”
“Me dê um pouco mais de tempo…”
“Eu vou encontrar um jeito…”
“O sistema… sim, o sistema pode salvá-la!”
“Eu vou encontrá-lo, não importa o preço!”
Ricardo parou.
Olhou para ele de cima.
Para aquele homem que antes era intocável—
Agora ajoelhado, sem dignidade.
Mas—
Não havia compaixão em seus olhos.
Ele se agachou lentamente.
Olhou diretamente nos olhos de Leonardo.
Falou, palavra por palavra—
Como gelo cravando na carne:
“Leonardo, você ainda acha…”
“Que o problema é o sistema?”
A respiração de Leonardo travou.
“Quem a levou à morte…”
“Nunca foi o sistema.”
“Nem a doença.”
“Nem a Valentina.”
“Foi você.”
“Foi o seu ‘sacrifício’ sufocante.”
“Foi o seu ‘amor’ que a esmagava.”
“Foi cada vez que você morreu por ela…”
“Lembrando-a de que ela era um peso.”
“E, no final…”
“Foi você quem a fez entender…”
“Que ela nem sequer merecia continuar sendo esse peso.”
Ele soltou um leve riso.
Frio.
“Tudo isso…”
“Não passa da desculpa mais bonita…”
“Para a sua covardia e a sua mudança de coração.”
Os dedos de Leonardo—
Que seguravam a roupa dele—
Foram se soltando lentamente.
Um a um.
A última chama ilusória que sustentava sua sanidade—
Se apagou completamente.
Ele quis explicar.
Quis justificar.
Quis dizer que também sofreu.
Mas—
Tudo parecia vazio.
Ridículo.
“Eu vou encontrar…”
“Eu vou encontrar…”
Ele murmurava.
Repetidamente.
Como um homem enlouquecido.
“Tarde demais.”
Ricardo o interrompeu, seco.
“Ela já não queria mais viver.”
“Ela nem queria olhar para você…”
“Nem queria permanecer neste mundo por mais um segundo.”
“Leonardo…”
“Você ainda não entendeu?”
“Ela não quer mais te ver.”
“Nem depois de morta.”
“Nem transformada em cinzas.”
“Ela não quer ter mais nada a ver com você.”
“E essa sua aparência agora…”
“Para que serve?”
A última frase—
Leve.
Mas pesada como montanha:
“Um amor que chega tarde…”
“Não vale mais que lixo.”
O corpo de Leonardo desmoronou completamente.
Sem forças.
Sem reação.
Ele não implorava mais.
Não explicava mais.
Apenas olhava—
Vazio.
Para o documento que representava a última vontade de Ana Beatriz.
Para as costas de Ricardo, que se afastava sem hesitar.
Os olhos—
Sem vida.
Como se a alma—
Também tivesse sido levada embora.