Ana Beatriz foi levada de volta ao porão da casa dos Arantes.
A porta se fechou com força.
A escuridão caiu de todos os lados.
Ela tropeçou até a porta.
Ergueu as mãos e começou a bater com força:
“Leonardo! Me solta!”
A voz ecoou no espaço fechado.
Oca.
Sem resposta.
Não se sabia quanto tempo passou—
Até que, finalmente, passos soaram do lado de fora.
A voz de Leonardo veio através da porta.
Fria.
Sem a menor emoção:
“Aninha, quando o casamento acabar, eu te deixo sair.”
Os passos se afastaram pouco a pouco.
Deixando-a sozinha—
Na escuridão.
E no desespero.
Ela se encolheu no canto.
O gesso no braço estava frio e pesado.
A dor no peito vinha em ondas.
Cada respiração—
Era como uma lâmina cortando por dentro.
Durante três anos—
Ela guardou aquele “corpo” gelado.
E agora—
Era ele quem a aprisionava, com as próprias mãos, naquela prisão que um dia testemunhou seu “amor”.
Ela tremia.
Tateou o bolso da manga.
E retirou o celular que havia escondido.
Ligou para o Dr. Ricardo.
A voz saiu quebrada:
“Doutor… venha… me buscar…”
Do outro lado da linha, as perguntas apressadas começaram a se embaralhar.
Mas—
A consciência dela já começava a se dissolver.
…
Quando voltou a si—
O cheiro de desinfetante invadiu suas narinas.
Dr. Ricardo estava ao lado da cama, ajustando o soro.
Ao vê-la acordar, franziu a testa:
“Você ficou em coma por três dias.”
“Febre alta, pneumonia, recaída da doença… se continuar assim, você não aguenta nem um mês.”
Ana Beatriz não respondeu.
O olhar se voltou, silenciosamente, para a televisão no quarto.
Na tela—
Mesmo sem som—
Era transmitido ao vivo o casamento de Leonardo e Valentina.
Leonardo vestia um terno preto.
Ajeitava com delicadeza o véu de Valentina.
O olhar dele era concentrado.
Como se o mundo inteiro tivesse desaparecido—
Restando apenas a noiva à sua frente.
A cena era bonita como um conto de fadas.
Mas doía—
A ponto de ferir os olhos.
“Deixa assim…”
A voz dela saiu rouca.
Impedindo Ricardo de desligar a TV.
Naquela mesma tarde—
Ana Beatriz insistiu em receber alta.
O plano de “morte falsa” era hoje.
Não havia mais tempo para esperar.
Quando voltou à mansão—
O céu já estava tingido pelo entardecer.
A casa que antes carregava todos os seus sonhos—
Agora estava decorada como um salão de casamento.
Tudo ali parecia estranho.
Vazio.
Ela entrou diretamente no porão.
O caixão de gelo havia desaparecido.
As marcas das fotos nas paredes também haviam sido apagadas.
As paredes tinham sido pintadas novamente.
Brancas.
Como se nada tivesse existido.
Ela observou, em silêncio—
Enquanto os funcionários traziam um corpo com estatura semelhante à dela.
Depois—
Acendeu o fogo com as próprias mãos.
As chamas se espalharam rapidamente.
Devourando os móveis.
Engolindo as memórias.
Ana Beatriz ficou parada.
Por um instante—
Pareceu ver Leonardo, três anos atrás, simulando a própria morte.
Dessa vez—
Era o verdadeiro fim.
Só quando o fogo quase alcançou seus pés—
Ela se virou.
Deu um passo.
E mais um.
Cambaleante.
Caminhando em direção à saída.
Sem olhar para trás.
Desaparecendo na escuridão crescente da noite.
Atrás dela—
A mansão foi completamente engolida pelas chamas.
O fogo subiu alto.
Pintando metade do céu de vermelho.