O ar ficou estagnado por alguns segundos.
Ana Beatriz virou-se lentamente, um sorriso de escárnio surgindo no canto dos lábios:
“Então… você quer usar o meu gosto para completar o amor de vocês?”
Leonardo ficou atônito por um instante.
Seu rosto escureceu.
“Aninha, não fale besteira.”
“Eu só acho que você conhece melhor as minhas preferências. É a pessoa mais adequada para fazer isso.”
Ele deu dois passos à frente.
Abaixou a voz, com um leve tom de advertência:
“A Valentina é simples, não tem maldade. Não olhe para ela com esse tipo de julgamento.”
“Ela só aceitou esse casamento para me ajudar a concluir a tarefa do sistema.”
“Além disso… tudo o que estou fazendo… no fim das contas, é por você.”
Ele a encarou.
Nos olhos, havia um cansaço profundo… e uma ponta de decepção:
“Aninha, você não pode… ser um pouco mais madura?”
“Eu corri por você todos esses anos… eu também me canso.”
A última frase—
Foi como uma agulha gelada, cravando com precisão no coração já dilacerado de Ana Beatriz.
“Mas eu nunca pedi que você fizesse isso por mim!”
As emoções reprimidas por três anos finalmente romperam.
A voz dela tremia, os olhos vermelhos:
“Eu só queria viver o presente com você… nem que fosse por um dia, uma hora…”
“Eu não queria que você morresse uma vez atrás da outra!”
“Esses três anos, eu fiquei guardando um ‘corpo’ frio, esperando você voltar todos os dias, sustentando toda a família Arantes com remédios!”
Ela o encarou fixamente.
Cada palavra parecia arrancada à força:
“Com que direito… você coloca toda a culpa em mim?”
Leonardo apenas a observava em silêncio.
Nos olhos dele, havia impotência… havia cansaço…
Mas não havia a culpa que ela queria.
Nem sequer um traço de hesitação.
Como se o colapso dela—
Fosse apenas um escândalo imaturo.
Nesse momento—
O celular dele tocou de repente.
Na tela, piscavam duas palavras:
Valentina.
O cansaço nos olhos de Leonardo foi instantaneamente substituído por tensão.
Ele atendeu rapidamente.
Enquanto caminhava para fora, sua voz suavizou:
“Calma, eu já estou indo.”
A porta do porão se fechou atrás dele.
O silêncio voltou a dominar o espaço.
Ana Beatriz permaneceu ali.
Olhando para a porta vazia—
E então, soltou uma risada baixa.
O frio que emanava do caixão de gelo envolveu seu corpo pouco a pouco—
Como incontáveis tapas silenciosos, destruindo o último resquício de esperança ridícula que ainda restava.
Então era isso.
Quando o coração morre—
Não há estrondo.
Nem desmoronamento.
Até a dor…
Se torna desnecessária.
Ela levou um dia inteiro para organizar seus pertences pessoais.
Na manhã seguinte, pediu a um advogado que preparasse o acordo de divórcio e a divisão de bens.
O advogado hesitou:
“Srta. Ana, a senhora tem certeza de que quer apenas a parte que está no seu nome?”
“Pelo que a senhora fez nesses anos… poderia reivindicar muito mais…”
Os dedos dela, folheando os documentos, pausaram por um instante.
Independentemente de tudo—
Aquele homem…
Ainda havia morrido dezenas de vezes por ela.
No fim das contas—
Ela não conseguia ser tão cruel.
O celular acendeu de repente.
Uma notícia local apareceu na tela:
【Herdeiro do Grupo Arantes ‘retorna dos mortos’ e gasta uma fortuna para preparar joias de casamento para a noiva】
Ela passou os olhos pelo título.
Um sorriso frio surgiu em seus lábios.
Tudo aquilo que antes carregava memórias—
Agora era apenas ironia.
“Não precisa.”
Ela fechou o arquivo.
“Faça como eu disse.”
Depois disso, pegou a caneta—
E assinou seu nome no acordo de divórcio.
O advogado recebeu os documentos e lembrou:
“O acordo precisa da assinatura do Sr. Leonardo para ter validade.”
“Eu sei.”
Ana Beatriz colocou o contrato de divórcio—
Debaixo de uma pilha espessa de documentos de transferência de ações.
Durante vários dias seguidos—
Ela ficou na empresa cuidando da transição.
Quando terminou, já era a tarde do terceiro dia.
Assim que chegou à porta da mansão—
Viu Leonardo protegendo Valentina, prestes a entrar no carro.
“Aninha?”
Leonardo pareceu surpreso ao vê-la.
“Por que você voltou?”
Ana Beatriz não respondeu.
Caminhou diretamente até ele.
Tirou um conjunto de documentos da bolsa—
E estendeu na direção dele:
“Assina aqui antes de ir. Não vai levar nem cinco minutos.”
“Isso é…?”
“Transferência de ações da empresa. Já que você voltou, é justo devolver.”
A expressão de Leonardo relaxou.
O tom se suavizou:
“Você pode ficar com isso, eu confio em você. Não precisa…”
“Assina.”
Ela o interrompeu.
A voz, fria e firme.
Leonardo a olhou por um instante.
Mas não insistiu.
Pegou a caneta—
E assinou cada documento com rapidez.
Ele não percebeu—
Que, no final da pilha—
O acordo de divórcio já estava assinado por Ana Beatriz.
De repente—
Valentina segurou o braço dela com intimidade.
Sorrindo docemente:
“Aninha, o Leo sempre diz que deve tudo a você nesses anos.”
“Já que somos uma família… que tal vir com a gente ao leilão?”
“O Leo vai escolher as joias do nosso casamento.”
“Você tem bom gosto… ajuda a gente a escolher, vai?”