《Um Amor de Outra Vida: O Preço do Sacrifício》Capítulo 1

“Aninha… venha até a casa antiga.”

Do outro lado da linha, a voz de Dona Helena carregava um leve tremor, como se estivesse segurando o choro.

“O Leo… voltou.”

Os dedos de Ana Beatriz apertaram o celular de repente.

Três anos.

Ela passou três anos guardando um “corpo” carbonizado, arrastando aquele corpo meio morto para sustentar toda a família Arantes, sobrevivendo à base de remédios… esperando apenas por esse dia.

Ela saiu às pressas, dirigindo durante a noite inteira até a antiga residência.

Mas, assim que chegou ao portão, as vozes exaltadas vindas da sala atravessaram o silêncio e atingiram seus ouvidos.

“Leonardo Arantes, você enlouqueceu?!”

A voz de Dona Helena tremia de raiva.

“Naquela época, você se ligou àquele sistema maldito só para manter a Aninha viva! Morreu noventa e nove vezes para conseguir dar a ela uma chance de sobreviver!”

“E agora que finalmente voltou… você me diz que vai se casar com outra em quinze dias?!”

Os passos de Ana Beatriz congelaram.

O sangue em suas veias pareceu parar de correr.

Casar… com quem?

Ela forçou as pernas a se moverem, aproximou-se da porta entreaberta… e viu aquela silhueta firme, marcada em sua memória até os ossos.

Era ele.

Mais magro. Mais afiado.

Estranhamente… distante.

A voz que ela desejara dia e noite ecoou, carregada de um cansaço impossível de esconder:

“A Valentina está grávida. Ela quer um lar. E eu… já estou cansado.”

“E a Aninha?!”

Dona Helena questionou com dureza.

“Você prometeu que, quando voltasse, contaria toda a verdade para ela!”

“Que aquilo era o último teste do sistema!”

“Chega de falar desse sistema!”

Leonardo interrompeu de repente.

“Cada vez… cada vez que eu saía daquele inferno… e voltava… e via ela deitada na UTI, cheia de tubos… respirando tão fraco que parecia desaparecer a qualquer instante…”

Ele respirou fundo, como se estivesse à beira de perder o controle.

A voz caiu, pesada de desespero:

“Eu sentia… como se tivesse sido jogado de volta ao inferno.”

“Tudo o que eu troquei com a minha vida… só servia para vê-la sofrer mais na próxima vez… para ver a culpa nos olhos dela… cada vez mais profunda.”

“Mãe… eu realmente… não aguento mais.”

A sala mergulhou no silêncio.

Depois de um tempo, a voz dele voltou, baixa… mas com um leve resquício de luz:

“Mas a Valentina é diferente.”

“Ela é viva. Saudável. Eu não preciso morrer para que ela continue bem… ela pode simplesmente estar ao meu lado.”

“Sério que é só por isso?!”

Dona Helena não acreditava.

Leonardo ficou em silêncio por muito tempo.

Tanto que Ana Beatriz achou que o tempo havia parado.

Até que ele finalmente falou, quase em um sussurro:

“A Valentina… também já foi ligada a um sistema, há dez anos.”

As pupilas de Ana Beatriz se contraíram.

“Para salvar o irmão gravemente doente, ela suportou sete anos inteiros de tortura… até ele se recuperar.”

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“Por isso, ela me entende… melhor do que qualquer pessoa.”

Na voz dele, surgiu algo raro… quase uma dependência:

“Esses três anos ao lado dela foram a primeira vez que me senti… um ser humano.”

“E não… um corpo que só existe contando o tempo até a próxima morte.”

Dona Helena ficou em silêncio.

Muito tempo depois, perguntou com dificuldade:

“E a Aninha…? Depois de tudo o que você fez por ela…”

Silêncio.

Outro silêncio longo.

E, quando Ana Beatriz achava que iria se afogar nele—

A voz rouca dele ecoou, clara:

“Eu já desisti.”

“Na minha septuagésima segunda morte… quando quase fui despedaçado por tubarões… e consegui chegar à costa… e encontrei a Valentina…”

“Eu soube… que não dava mais para voltar.”

“Mãe, me ajude a mentir pela última vez.”

“Diga a ela… que casar com a Valentina é uma condição obrigatória para o sistema se desfazer.”

“Que eu não tive escolha.”

“Faça com que a Aninha… não me odeie.”

Cada palavra foi como uma agulha em brasa cravada no coração de Ana Beatriz.

Ela se lembrou.

Depois da septuagésima segunda vez que ele voltou à vida… em meio à febre alta e inconsciência… ele murmurou um nome desconhecido.

Então era ali…

Que alguém já havia tomado o lugar dela.

Ela se virou, anestesiada, e voltou para o carro.

As janelas estavam fechadas.

O mundo lá fora foi isolado.

E então—

As lágrimas finalmente romperam.

Ela se inclinou sobre o volante, tremendo enquanto chorava.

Ela nunca quis esse tipo de amor… que troca vidas por vidas.

Tudo o que ela queria… era estar ao lado dele, de forma simples.

Mesmo que fosse só por um dia.

Mas foi ele…

Quem escolheu esse caminho sem volta.

E, no fim—

Ela virou o maior peso na vida dele.

A última gota que o esmagou.

As memórias vieram como uma maré descontrolada.

Ela se lembrou de quando o médico disse que ela não viveria até os vinte anos.

Naquele tempo, o garoto segurou sua mão com força e disse:

“Aninha, não tenha medo.”

Depois, ele disse que havia encontrado uma solução.

Mas ela nunca imaginou… que seria tão cruel.

Ela viu sua “morte” incontáveis vezes.

Teve medo… de que, na próxima, ele não voltasse.

Ela já fez greve de fome.

Já o trancou.

Já ameaçou tirar a própria vida…

Mas ele sempre ia.

E sempre voltava, mais ferido… mais quebrado… sorrindo para ela:

“Não chora, Aninha… eu estou bem.”

Até a nonagésima nona vez.

O que ele deixou para ela…

Foi um “corpo” queimado, irreconhecível.

Naquele dia, ela chorou até desmaiar.

Perdeu completamente a vontade de viver.

Foi Dona Helena, com os olhos vermelhos, quem disse:

O maior desejo do Leo… era que ela continuasse viva.

Que ela sustentasse a família Arantes no lugar dele.

E assim, durante todos esses anos…

Ela arrastou aquele corpo em ruínas, guardou a casa por ele… esperando por um milagre que talvez nunca viesse.

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E agora—

O milagre voltou.

Mas o amor dele… expirou.

As lágrimas escorriam silenciosas.

Ela ficou sentada no carro a noite inteira.

Até que o céu começou a clarear.

O celular acendeu.

Mensagem de Dona Helena:

“Aninha… quando você chega?”

Ela desligou a tela.

Depois de muito tempo, ajeitou-se minimamente… e saiu do carro.

Assim que entrou na sala—

Uma força a puxou de repente para um abraço.

“Aninha…”

A voz familiar soou ao lado de seu ouvido, carregada de saudade:

“Esses três anos… eu senti tanto a sua falta… que quase enlouqueci.”

Ana Beatriz ficou rígida.

Deixou que ele a abraçasse.

O abraço ainda era quente—

Mas só fazia seu corpo sentir frio.

“Se você não morreu…”

A própria voz saiu, calma… assustadoramente calma.

“Por que não voltou?”

O corpo de Leonardo enrijeceu levemente.

Ele afrouxou o abraço.

“Me desculpa, Aninha…”

A voz dele carregava impotência.

“Eu queria voltar mais do que qualquer coisa… mas o sistema não permitia que eu entrasse em contato com você… eu não tinha escolha.”

A última esperança—

Se apagou completamente.

Antes que Ana Beatriz pudesse dizer algo, os parentes da família Arantes começaram a entrar.

Ela foi obrigada a vestir um sorriso educado.

Ficou ao lado dele.

Interpretando… um reencontro amoroso que não existia mais.

Até tarde da noite.

Quando todos foram embora—

Ela olhou para aquele rosto tão familiar… e ao mesmo tempo tão distante.

E não conseguiu mais suportar.

Virou-se e saiu correndo.

Uma dor aguda explodiu em seu peito.

Ela, tremendo, pegou o frasco de remédios—

Vazio.

Durante três anos, ela não ousou morrer.

Porque tinha medo de desperdiçar o tempo que ele havia conquistado com a própria vida.

Mas agora—

Ela só sentia…

Que era uma piada.

A visão ficou turva pelas lágrimas.

Encostada na parede fria, ela pegou o celular… e fez uma ligação.

“Doutor Ricardo… eu quero desistir do tratamento.”

Ela fez uma pausa.

E então disse, palavra por palavra:

“Me ajude a preparar uma morte falsa.”

“O momento… vai ser daqui a quinze dias.”

“No casamento de Leonardo Arantes.”

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