No dia em que Bruno Almeida me traiu, foi ele mesmo quem me levou até a delegacia.
Duas horas antes, eu tinha descoberto que ele estava com a minha melhor amiga.
Dominada pela emoção, acabei agredindo-a e causei ferimentos leves.
Depois de cumprir as oito horas de detenção, deixei que Bruno segurasse minha mão. Não disse nada.
— Eu não quis esconder isso de você.
Eu estava meio atordoada. Só queria saber… desde quando?
Foi quando minha mãe estava gravemente doente, e eu, desesperada, liguei para ele e ele não atendeu?
Ou quando fui assediada no trabalho, meu corpo coberto de marcas da resistência… e ele, sob o pretexto de estar em viagem, se recusou a voltar para casa para me ver?
Bruno balançou a cabeça.
Nenhuma das opções.
Foi apenas uma noite de bebedeira… que saiu do controle.
Ele até pensou em me contar. Mas, ao ver o quanto eu estava cheia de esperança pelo nosso futuro, não teve coragem.
Até hoje.
Até o momento em que eu, fora de mim, bati na minha melhor amiga — completamente nua — até o canto da boca dela sangrar.
Foi então que ele não aguentou mais.
E me empurrou.
Aquele empurrão… foi o ponto final do nosso relacionamento.
1.
— Não a culpe… a culpa é toda minha.
Bruno ainda falava com aquela suavidade de sempre, os olhos pousados em mim, indiferentes.
No dorso da mão dele ainda havia arranhões, vermelhos, chamativos.
Fui eu quem fez aquilo.
Quando invadi o quarto do hotel, fora de controle, descontando tudo nele.
Naquele momento, ele deixou que eu batesse, arranhasse, descarregasse tudo.
Calmo… como se já esperasse por aquilo.
Até que meu olhar caiu sobre Larissa.
E eu enlouqueci, estapeando o rosto dela repetidamente.
Só então Bruno explodiu.
Me lançou para o lado.
E, em seguida, pegou o celular… e chamou a polícia.
Durante as oito horas em que fiquei detida, ele não foi embora.
Ficou sentado do lado de fora, esperando por mim em silêncio.
Até comprou uma bolsa de gelo e pediu ao policial que me entregasse.
Ele viu.
Viu o momento em que me empurrou contra o armário.
Meu ombro ficou inchado, vermelho.
Mesmo depois de voltarmos para casa, eu continuei em silêncio.
Talvez tenha sido esse silêncio prolongado que o deixou inquieto.
Ele se agachou ao meu lado, falando num tom quase carinhoso:
— Cami… eu juro.
— A partir de agora, não vou mais ter nenhum contato com ela.
— Vamos fingir que isso nunca aconteceu… tudo bem?
Assim que terminou de falar, a campainha tocou.
Larissa digitou a senha e entrou direto.
Na época, por confiança, eu mesma tinha dado a senha da porta a ela.
Para que pudesse vir quando quisesse, jantar conosco, passar tempo aqui.
Mas nunca imaginei…
Que isso facilitaria ainda mais o que eles faziam às escondidas.
Agora tudo fazia sentido.
O dia em que voltei de viagem e a encontrei no sofá, usando roupas provocantes.
Enquanto Bruno dormia no quarto, exausto… como se tivesse sido completamente drenado.
E eu… ainda acreditei quando disseram que estavam apenas esperando eu voltar.
— Cami…
Ela estendeu a mão para me segurar, mas eu desviei.
— Eu não fiz de propósito… eu sei que vocês iam se casar logo…
— Mas eu… eu não consegui me controlar naquele dia…
Ela falava como se nada daquilo tivesse sido intencional.
Como se fosse vítima de algo fora do seu controle.
Mas duas semanas antes…
Ela tinha ido comigo escolher o vestido de noiva.
Escolher os convites.
Quando viu o quanto eu estava feliz, cheia de expectativas, os olhos dela ficaram marejados.
Ela me abraçou com força.
— Cami… você precisa ser muito feliz.
Mas a verdade…
É que, já há um ano, eles estavam juntos.
Por isso, em todos os feriados depois disso, Bruno sempre “arranjava tempo”.
Mesmo quando já estávamos sentados no cinema, ele dizia que precisava ir embora.
Mesmo quando eu estava cortando meu bolo de aniversário, ele atendia uma ligação e, com aquela expressão de culpa tão familiar, dizia:
— Cami… me desculpa.
Cada vez que ele saía…
Era para ir ao encontro de Larissa.
Com o rosto ainda inchado, ela se aproximou de mim…
E, de repente, se ajoelhou.
— Eu sinto muito.
— Pode me bater, pode me xingar… o que você quiser.
Bruno tentou puxá-la para levantar, mas ela não se mexeu.
Como se não fosse desistir até ser perdoada.
Sem saída, ele virou para mim, irritado:
— Camila Soares, já chega.
— Vocês cresceram juntas. Precisa mesmo chegar a esse ponto?
Eu não entendia…
Por que, no olhar dele, eu parecia a irracional?
Eu fui traída.
Eu fui ferida.
E ainda assim… ele fazia parecer que eu era a responsável por separar os dois.
— O quê? Você se apaixonou por ela?
Minha pergunta saiu de repente.
Bruno congelou.
Eu me levantei, caminhei até o armário e rasguei em pedaços os convites de casamento que tinham chegado no dia anterior.
— Ótimo.
— Então casem vocês dois.
— Eu não vou mais me casar.
Eu já estava cansada.
Durante todos esses anos, quando eu mais precisei dele… ele nunca esteve presente.
Quando minha mãe estava gravemente doente e eu implorava por ajuda.
Quando fui assediada pelo meu chefe e fiquei coberta de marcas por resistir.
Ele sempre dizia, com indiferença:
— Estou trabalhando. Quando terminar, falo com você.
Até o dia em que Larissa sofreu um acidente de carro.
Só então eu descobri…
Que ele também sabia se desesperar.
Ele interrompeu uma negociação milionária e correu para o hospital.
Não importava o quanto eu dissesse para ele ir embora…
Ele ficou o tempo todo na porta da sala de cirurgia.
Foi ali que senti que algo estava errado.
Mas, quando tentei questionar, ele gritou comigo:
— Você acha que todo mundo é frio como você?!
— Camila Soares, se está tão à toa para ficar inventando coisas, então vai embora!
Então… o que foram esses cinco anos para mim?
Minha compreensão, minha paciência…
Tudo isso, em troca de quê?
De um coração pisoteado.
Bruno ficou em silêncio por alguns segundos.
Quando voltou a si, decidiu que eu estava apenas fazendo birra.
Na minha frente, jogou a aliança de casamento pela janela.
— É isso que você quer?
— E agora? Está satisfeita?