5 A Sétima Ruína
"Eu preciso ir até a Sétima Ruína." Anunciei para Marcos e Sílvia.
"Isso é suicídio," declarou Marcos sem rodeios. "É uma zona de alta contaminação, nem o exército ousa entrar lá facilmente."
"Mas posso encontrar respostas lá." Insisti. "Sobre o porquê de eu ter uma sensibilidade especial à energia esquecida, sobre a verdade por trás deste 'portal', e talvez até encontrar uma maneira de acabar com tudo isso."
Para minha surpresa, Sílvia me apoiou: "Talvez valha o risco. Se realmente houver pistas sobre as origens de Ana Luz, podem ser a chave para entendermos a energia esquecida."
Após uma discussão acalorada, decidiu-se finalmente organizar uma equipe de elite para a Sétima Ruína. A equipe seria composta por mim, Marcos e quatro soldados de forças especiais com vasta experiência.
Na véspera da partida, fui ver Lorenzo. Sua condição havia estabilizado um pouco, mas ele ainda estava frágil.
"Vou para a Sétima Ruína." Contei a ele.
Seus olhos piscaram de medo. "Não vá... há algo lá... algo que está vivo..."
"O que você sabe?" Perguntei, insistindo.
"Os pais nunca lhe contaram... mas eles iam até lá todo ano... para fazer oferendas..." Lorenzo tremia. "Uma vez, eu os segui escondido... vi eles... ajoelhados diante de um portal que brilhava..."
Mais fragmentos começavam a se encaixar. Parecia que meus pais adotivos tinham uma conexão desconhecida com a energia esquecida.
A Sétima Ruína localizava-se em uma terra desolada. Outrora uma cidade próspera, agora restavam apenas escombros e resíduos de energia distorcidos.
Quanto mais nos aproximávamos do destino, mais forte se tornava meu mal-estar. Um chamado ecoava em minha mente, ao mesmo tempo familiar e aterrorizante.
"As leituras de energia estão anormais," alertou Marcos, observando o scanner com cautela. "Mas não parece como a contaminação comum."
Finalmente encontramos o local descrito no diário – a entrada semi-enterrada de uma construção. A porta estava marcada com o mesmo símbolo do diário de minha mãe.
Ao adentrarmos a construção, descobrimos que o interior estava anormalmente preservado, quase sem traços da energia esquecida do lado de fora. As paredes eram cobertas por padrões complexos e escritos que descreviam um conhecimento além da compreensão humana.
"Essa escrita... já vi em registros," disse Marcos, surpreso. "É a língua dos Precursor! Mas eles foram extintos há milhões de anos!"
Continuamos a descer mais fundo, até chegarmos a um grande salão circular. No centro do salão, flutuava um "portal" feito de pura energia. Diante dele, havia um pedestal com uma depressão estranha.
Caminhei em direção a ele quase sem pensar, sentindo uma atração poderosa.
"Ana Luz, espere!" Alertou Marcos. "Pode haver mecanismos de defesa."
Mas já era tarde demais. Ao me aproximar do pedestal, todo o salão de repente brilhou, e projeções holográficas começaram a tocar:
"Se esta mensagem foi ativada, significa que a 'Chave' retornou," uma voz suave ecoou. "Nós somos os Precursor, os guardiões da realidade. Ao descobrirmos que a energia esquecida – que chamamos de 'Força do Vazio' – começava a corroer a realidade, criamos o Portal e a Chave."
As imagens mostraram como os Precursor lutaram contra a Força do Vazio, descobrindo finalmente que não podiam eliminá-la completamente, então criaram o "Portal" para isolar a realidade do vazio.
"A Chave é nossa maior criação, fundindo a Força do Vazio e a Força da Realidade em um único ser. Este ser pode compreender ambos e, por fim, tornar-se o novo Guardião."
A imagem mudou para a cena de um bebê sendo deixado nas ruínas.
"Esta é a Chave. Nós a colocamos em um lugar seguro, aguardando o momento do despertar."
A projeção holográfica desapareceu, deixando para trás apenas eu e meus companheiros de equipe, atordoados.
"Você é... uma coisa criada pelos Precursor?" Marcos olhou para mim, incrédulo.
De repente, toda a ruína tremeu. Sons de combate e gritos agonizantes ecoaram de fora.
Corremos para fora do salão e encontramos os membros da equipe lutando contra um grupo de Adoradores do Esquecido. A pessoa à frente tirou sua máscara – era Sílvia.
"Sinto muito, Ana Luz, mas não posso deixar que você desperte completamente." Seus olhos brilhavam com uma luz não natural. "O poder do Portal deve pertencer àqueles que verdadeiramente o compreendem."
"Você sempre foi uma Adoradora?" Marcos apontou a arma para ela.
"Não, sou uma realista." Sílvia sorriu. "A energia esquecida – ou a Força do Vazio – não é uma inimiga, mas o próximo passo da evolução. A humanidade é apenas uma forma transitória."
Na confusão intensa do combate, Marcos comprou tempo para mim. "Vá até o Portal! Cumpra seu destino!"
Corri em direção ao salão, com Sílvia perseguindo-me de perto. Assim que alcancei o pedestal, ela atirou, acertando meu ombro.
"Você não entende, Ana Luz! O Portal, uma vez aberto completamente, não selará o Vazio, mas fundirá os dois mundos! Será o fim da humanidade!" Gritou Sílvia.
"Então por que tentar me impedir?" Perguntei, suportando a dor.
"Porque precisamos controlar este processo! Dar poder aos escolhidos!" Ela se aproximava cada vez mais. "Junte-se a nós, Ana Luz. Você pode se tornar uma deusa no novo mundo."
Olhei para seus olhos enlouquecidos e, de repente, compreendi: "Não, você tem medo de mim. Porque só eu posso realmente controlar o Portal."
Sem hesitar, coloquei minha mão no pedestal. Uma energia imensa inundou meu ser, trazendo dor e iluminação ao mesmo tempo.
Eu vi – a verdade entrelaçada do Vazio e da Realidade, a grandeza e a tristeza dos Precursor, e o verdadeiro propósito da minha existência.
Quando abri os olhos, a ruína inteira estava em silêncio. Sílvia e seus seguidores haviam desaparecido, como se nunca tivessem existido.
Marcos entrou, arrastando o corpo ferido. "O que aconteceu? Seus olhos..."
"Eu compreendi, Marcos." Disse com serenidade. "O Portal não foi feito para ser fechado, nem para ser aberto. Ele foi feito para equilibrar. E eu sou a Equilibrista."
A energia fluía ao meu redor, não era nem pura Força do Vazio, nem pura Força da Realidade, mas uma fusão harmoniosa de ambas.
"A invasão esquecida não vai cessar, mas a humanidade não precisa temê-la. Podemos aprender a coexistir, podemos evoluir."
Olhei para a energia que dançava em minhas mãos, sabendo que minha jornada apenas começara.
Lorenzo, Viviane, Sílvia... Todos tentaram me definir, me controlar ou me destruir. Mas agora, eu encontrara meu próprio caminho.
"Vamos voltar," disse a Marcos. "Há muito trabalho a ser feito."
Ao deixar a ruína, olhei para trás, para o Portal de luz. Lá, vi inúmeras possibilidades se desdobrando – não um fim, mas um novo começo.
Nesta vida, não seria lançada por ninguém no inferno. Eu seria o próprio inferno, e também o paraíso.
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FIM