Quando minha consciência já estava se apagando… Gabriel Torres, meu amigo de infância, entrou no meio das chamas e me salvou.
Mas ele estava sozinho.
Não teve escolha… teve que abandonar Dona Celina, que já havia dado seu último suspiro.
Ele, assim como eu, cresceu no orfanato.
O sentimento que tinha por ela era mais forte que qualquer laço de sangue.
Nós nos abraçamos e choramos.
Mesmo assim, ele ainda tentou me consolar:
— Lívia… a culpa não é sua.
— Quem está errado são eles.
Depois que recebi alta, Gabriel já havia entrado em contato com as autoridades e conseguido as cinzas da Dona Celina.
Fomos juntos ao cemitério… enterrá-la.
Coloquei girassóis — suas flores favoritas — ao lado da lápide.
Meus olhos estavam vermelhos.
— Me ajuda…
— Eu vou fazer a Vanessa pagar por isso.
Gabriel usou seus contatos para entregar todas as provas à polícia.
No momento em que vi as imagens das câmeras de segurança… meu coração se partiu completamente.
Vanessa havia levado pessoas até o hospital, sequestrado Dona Celina e a amarrado no sótão do orfanato.
Já debilitada pela idade, Dona Celina mal conseguia se mover…
Nem mesmo pegar o remédio para o coração que estava no chão.
Só quando me viu… foi que fechou os olhos pela última vez.
Gabriel me puxou para seus braços.
— Mesmo que o Fernando tente protegê-la… eu não vou deixar isso acontecer.
Ele fez uma pausa, depois acrescentou:
— Ouvi dizer que ele acha que você também morreu no incêndio…
— Está completamente destruído.
— Melhor assim.
— Já está na hora de ele provar o gosto do desespero.
No dia do funeral de Dona Celina…
Vanessa apareceu.
No instante em que me viu, parecia ter visto um fantasma.
— Você… você ainda está viva?!
O ódio nos meus olhos era impossível de esconder.
— O que você está fazendo aqui? Sai daqui agora!
Peguei uma xícara de chá e a arremessei na direção dela.
Ela desviou com facilidade, olhando ao redor com desprezo.
— Vim ver a minha própria obra, claro.
— Aquela velha me chamou de amante… mereceu esse fim.
Ela sorriu, cruel:
— Lívia Andrade… por que você não morreu junto com ela?
— Você só ficou viva pra disputar o Fernando comigo.
Meu sangue ferveu.
Forcei-me a conter a raiva que quase explodia dentro de mim.
— Se você não é amante, então o que é?
— Some daqui. Eu não quero mais te ver!
Vanessa, furiosa, estava prestes a avançar sobre mim—
— Vanessa Ribeiro, pare agora!
A voz de Fernando surgiu.
Ele apareceu no momento exato.
Ao me ver, ficou atordoado por um instante… e então me puxou imediatamente para trás dele, me protegendo.
— O julgamento está prestes a começar.
— Como você ainda consegue agir assim sem limites?
Os olhos de Vanessa se encheram de lágrimas, o rosto tomado por uma falsa fragilidade.
— Fernando… você vai acabar cedendo, eu sei…
— Você não vai ter coragem de me deixar ir pra prisão…
Ela lançou um olhar venenoso para mim:
— E essa mulher? De que adianta estar viva?
— Ela não passa de uma bastarda… por que você insiste em tratá-la como um tesouro?
Fernando soltou um riso frio.
— E você?
— Sua mãe também não era amante?
— Se não tivesse engravidado de você, teria passado a vida inteira como amante.
— Com que direito você julga a Lívia?
As pessoas ao redor começaram a cochichar.
O rosto de Vanessa ficou roxo de vergonha, completamente perdida.
— Não… eu não sou filha de amante! Eu não sou!
— A Lívia é uma bastarda!
— Ela nunca vai ser melhor do que eu!
Fernando virou-se para mim e segurou minha mão.
O olhar dele estava cheio de uma emoção intensa, impossível de esconder.
— A Lívia é a pessoa mais importante da minha vida.
— Não importa de onde ela venha… ela é minha esposa.
Enquanto todos ao redor demonstravam inveja—
Eu, sem expressão, soltei a mão dele.
— Senhor Duarte… você esqueceu?
— Você já assinou o acordo de divórcio.
— Nós… não somos mais marido e mulher.