Imediatamente, o gosto metálico de sangue se espalhou pela minha boca.
Fernando manteve a mão erguida, ainda tremendo, um lampejo de culpa passou pelos seus olhos.
— Com que direito você bate na Vanessa? Foi essa sua “família” que começou ofendendo! É isso que você chama de educação?!
Pisqueei, engolindo as lágrimas, incapaz de acreditar que aquelas palavras tinham saído dele.
Para todos… órfãos são crianças sem educação, sem criação, sem valor.
Mas, um dia… foi ele quem quebrou garrafas para calar a boca dessas pessoas, para que ninguém ousasse zombar de mim.
Ao ver meus olhos marejados, um traço de dor passou pelo olhar de Fernando.
Mas Vanessa se encolheu nos braços dele, tremendo:
— Fernando… se você não tivesse chegado a tempo, elas iam me espancar até a morte…
O olhar de Fernando mudou.
Como se imaginasse aquela cena, um nojo frio surgiu em seus olhos.
— Amanhã, no jantar beneficente, você vai pedir desculpas à Vanessa em público!
— Não pense que eu não sei… se você não esclarecer isso logo, a Dona Celina vai sair espalhando mentiras sobre ela!
Balancei a cabeça, impotente:
— E se eu não…
— Se não pedir desculpas, eu cancelo todas as doações ao orfanato.
— E o cartão com o qual você paga o tratamento da Dona Celina… também vai ser bloqueado.
Ele se aproximou, a voz baixa e cruel:
— Pensa bem… com o seu dinheiro, quanto tempo você levaria pra conseguir um coração compatível pra ela? Hein?
Olhei para Dona Celina, cada vez mais fraca naquela cama.
No fim… eu cedi.
No dia seguinte, no jantar beneficente,
Fernando colocou o discurso de desculpas nas minhas mãos.
Vanessa se aproximou… e cravou discretamente as unhas no meu braço.
O sorriso em seu rosto permanecia impecável:
— Senhora Duarte… um pedido de desculpas precisa ter sinceridade, não acha?
No instante seguinte, o salto alto dela acertou a parte de trás do meu joelho.
Caí de forma humilhante no chão.
Como uma marionete, comecei a ler o texto:
— Foi Dona Celina quem iniciou a agressão…
— Em nome dela, peço desculpas à senhorita Vanessa Ribeiro… e assumo os custos médicos…
Sussurros começaram a surgir na plateia:
— Como esperado de alguém sem pai nem mãe… bate nos outros sem pensar.
— Nem é filha biológica, mas puxou bem a “mãe”… grossa do mesmo jeito.
— A senhorita Vanessa parece muito mais uma dama de verdade… acho que a senhora Duarte não vai durar muito.
……
Os olhares de desprezo queimavam como brasas.
Vanessa me observava como uma vencedora.
Eu me levantei com dificuldade.
A febre ainda não tinha passado.
Cambaleei.
Fernando deu um passo à frente, instintivamente.
— Você não está bem? Sua cara está péssima.
Afastei a mão dele.
Ele pigarreou, disfarçando:
— Não entenda errado. Só não quero que você estrague esse evento.
Vanessa fingiu me ajudar, mas sussurrou ao meu ouvido:
— Cuide-se, senhora Duarte…
— Ah, e acabei de ouvir que o doador desistiu. Não quer mais doar o coração pra sua velhinha.
— Parece que você vai ter que esperar mais uns dez anos.
Ela fez uma pausa, rindo baixo:
— Ou melhor… nem sei se ela vive mais dez anos.
O sorriso provocador dela se ampliava diante dos meus olhos.
Eu perdi o controle.
Avancei e apertei o pescoço dela com força.
— Com que direito você brinca com a vida dela?!
No segundo seguinte, Fernando me empurrou com toda a força, sem qualquer hesitação.
— Lívia Andrade, você enlouqueceu?!
— Eu mandei você pedir desculpas pra aprender a se comportar, não pra piorar tudo e continuar machucando ela!
Meu corpo despencou escada abaixo.
Cada osso parecia se partir em mil pedaços.
Vanessa não tentou esconder o sorriso provocador — nas costas de Fernando, ela ria de mim sem pudor.
Quando, fora de mim, empurrei Fernando e estava prestes a avançar novamente—
O telefone tocou.
Era o hospital.
— Senhorita Lívia Andrade…
— A senhora Dona Celina… acabou de… desaparecer.