A última vez que os vi… foi em um jantar de caridade.
Desde aquela noite na boate, era a primeira vez que eu aparecia publicamente.
No instante em que entrei no salão, todos os olhares se voltaram para mim.
Compaixão... Curiosidade... Especulação... Respeito… até temor.
Eu aceitei todos aqueles olhares com tranquilidade, a postura ereta, impecável.
Leonardo praticamente atravessou a multidão para chegar até mim.
Ele estava ainda mais magro.
Os olhos carregados de exaustão, vermelhos.
— Bella… vamos conversar, por favor?
— Eu sei que errei… eu sei mesmo…
— Eu e a Camila já assinamos o divórcio… aquilo foi só um absurdo, uma brincadeira idiota…
Eu o observei em silêncio, como se estivesse olhando para um completo desconhecido.
— Acho que já deixamos tudo muito claro antes.
Fiz uma breve pausa.
— E, além disso, se você se divorciou ou não da senhorita Duarte… não é algo que precise me reportar.
O rosto dele ficou branco como papel.
Os lábios tremiam… mas nenhum som saía.
Nesse momento, Camila surgiu do canto do salão.
Vestia um vestido fora de moda, a maquiagem borrada.
Seu rosto… cheio de ódio.
Ela apontou para mim, gritando:
— Isabella! Não pense que saiu por cima!
— Tudo o que você ganhou com truques sujos… a minha família não vai deixar barato!
Voltei meu olhar para ela.
Havia… um leve traço de pena.
— Senhorita Duarte, todos os documentos são legais, registrados e autenticados.
Minha voz era calma.
— Se não concorda, pode recorrer judicialmente quando quiser.
Inclinei levemente a cabeça.
— Mas antes disso… sugiro que resolva os problemas fiscais da sua boutique…
— e também o desvio de fundos da empresa da sua família para cobrir prejuízos pessoais.
— Os documentos… meu advogado já preparou tudo.
Não olhei mais para ela.
Peguei uma pequena bolsa e entreguei a um funcionário do leilão beneficente.
Dentro, visível através do material transparente… havia joias.
Leonardo levantou a cabeça, incrédulo.
— Bella… isso tudo… fui eu que te dei…
Sim.
Todos aqueles presentes…eu tinha guardado com cuidado.
Achando que eram provas do amor dele.
Usando aquelas joias frias para me convencer… de que aquilo era suficiente.
Até que… um certificado de casamento me despertou completamente.
Olhei para ele de forma indiferente.
— Sim.
— Mas eu não preciso mais disso.
Fiz uma pausa.
— Quanto ao iate… achei o nome de mau gosto.
— Já coloquei à venda.
— Se sentir saudade, pode participar do leilão, senhor Farias.
Sem esperar resposta, virei-me e entrei no salão.
—
Durante o leilão, Leonardo parecia ter enlouquecido.
Tudo o que era meu… ele disputava sem hesitar.
Itens de poucos milhares eram arrematados por valores absurdos.
Seu olhar permanecia fixo nas minhas costas, quase queimando.
Mas eu… não olhei para trás.
Arrependimento tardio… amor tardio… eu realmente não precisava mais.
Uma amiga ao meu lado comentou, hesitante:
— A família Farias já está abalada… e depois de perder tudo pra você… ele não vai aguentar esse ritmo de leilão.
Ergui o queixo, olhando à frente.
— Se ele gosta… deixa ele gastar.
— Considere como uma contribuição para a caridade.
—
Depois do evento, segui para o estacionamento.
Chovia forte.
Leonardo correu atrás de mim, passando pelos seguranças.
A chuva o encharcou completamente.
O cabelo colado à testa, sem qualquer vestígio da elegância de antes.
— Bella! Isabella!
— O que eu tenho que fazer pra você me perdoar?!
— Eu devolvo tudo! Tudo é seu!
— Só… volta pra mim!
Minha mão parou na maçaneta do carro.
Virei-me lentamente.
A água escorria pelo rosto dele —
não dava para saber se era chuva… ou lágrimas.
Ele parecia tão miserável… tão lamentável.
Antes… isso teria destruído meu coração.
Agora… não significava nada.
— Leonardo.
Minha voz atravessou a chuva.
Clara.
Fria.
— Você esqueceu?
Fiz uma pausa.
— Apostou…
— aguenta.
Fechei a porta do carro.
Ele ficou do lado de fora.
Fora da minha vida.
O carro partiu suavemente.
Pelo retrovisor, vi sua figura cair de joelhos na água acumulada…
ficando cada vez menor… até desaparecer na noite chuvosa.
O limpador de para-brisa se movia ritmicamente, como se estivesse apagando o passado.
Meu mundo… finalmente ficou em silêncio.
E à frente… havia apenas um caminho.
Um caminho que… pertencia somente a mim.
【Fim】