Leonardo me procurou por vários dias seguidos.
Quando percebeu que ligações e mensagens não funcionavam, passou a ficar dia e noite na frente do meu prédio.
Pelo monitor nítido do sistema de segurança na entrada, eu conseguia vê-lo parado no vento frio.
O cabelo, antes sempre impecável, agora estava bagunçado.
O terno caro, amarrotado.
Ele tentou entrar várias vezes, mas sempre era expulso pelos seguranças.
Até que o gerente do prédio me ligou, visivelmente constrangido:
— Senhorita Isabella… ele não quer ir embora… realmente não sabemos mais o que fazer.
Suspirei.
No fim… decidi encontrá-lo.
Era preciso que eu mesma colocasse um ponto final nessa farsa.
Ajustei o casaco sobre os ombros e fui até o saguão.
Vi Leonardo ali.
Em poucos dias… ele tinha emagrecido visivelmente.
As olheiras profundas já não podiam ser escondidas.
A barba começava a aparecer, desleixada.
Assim que me viu, seus olhos se iluminaram.
Instintivamente, deu um passo à frente.
— Bella… você finalmente quis me ver…
Recuei um passo, impedindo sua aproximação.
Caminhei com calma até a cadeira em frente a ele e me sentei.
— Senhor Farias, sente-se. Eu não tenho muito tempo.
A forma como o chamei pareceu atingi-lo.
Ele ficou parado por um instante… antes de se sentar, abatido.
— Bella… me desculpa…
— Eu sei que pedir desculpa é pouco…
Seus olhos estavam avermelhados.
— Eu errei… eu realmente errei…
— Aquela noite… eu estava bêbado… eu perdi a cabeça… eu fui um idiota…
Ele falava de forma confusa, repetindo várias vezes a loucura daquela noite, culpando o álcool, insistindo que foi só um erro momentâneo.
Por um instante… fiquei um pouco distante.
O homem que vi naquela noite e o homem diante de mim agora… pareciam pessoas completamente diferentes.
E eu já não sabia quanto daquela culpa era verdadeira.
— Terminou?
Minha expressão permaneceu calma, sem qualquer emoção.
— Se é só para pedir desculpa por aquele registro de casamento… não precisa.
— É só um papel. Eu não me importo.
Ele levantou a cabeça abruptamente.
— Então… então você…
— Leonardo.
Olhei para ele com tranquilidade, como se estivesse contando uma história que já não me pertencia.
— Você lembra do nosso aniversário de namoro?
— Eu preparei tudo com cuidado… e você disse que tinha uma reunião urgente.
Fiz uma pausa.
— Eu esperei até o restaurante fechar.
— E depois vi no Instagram da Camila… você jogando videogame com ela a noite inteira num hotel gamer.
O rosto dele ficou pálido.
— Lembra quando eu tive febre de trinta e nove graus?
— Eu te liguei… e você disse que estava ajudando a Camila a escolher um carro novo.
— Mandou eu tomar um remédio.
Minha voz continuava calma.
— Eu fui sozinha pro hospital.
— Peguei soro.
— Meu celular acabou a bateria… e eu fiquei sentada no corredor frio até de madrugada.
Os lábios dele começaram a tremer.
— Lembra da primeira vez que me apresentou aos seus amigos?
— Na frente de todo mundo, a Camila te puxou de lado pra cochichar.
— E eu fiquei lá, sozinha, no canto… como uma idiota.
— Quando você voltou… só disse que ela “não estava bem”.
— E naquela noite inteira… vocês ficaram me zoando por eu não saber me enturmar.
Meu tom continuava plano.
Mas a cada palavra… o sangue sumia um pouco mais do rosto dele.
Seu corpo tremia levemente.
— E mais.
Olhei diretamente para ele.
— No meu aniversário… você prometeu me levar a uma exposição.
— No meio do caminho, ela te ligou dizendo que o encanamento da casa dela tinha estourado.
— Você me deixou no meio da estrada…
— e disse pra eu me virar.
Respirei fundo.
— Estava chovendo muito naquele dia.
— Eu não consegui pegar carro.
— Caminhei três quilômetros… até encontrar uma estação de metrô.
— Leonardo.
Encarei seu rosto completamente pálido e falei, palavra por palavra:
— Em todos esses momentos…
— você também estava bêbado?