Após o funeral, Leonardo ficou sozinho em frente ao túmulo.
Sentou-se ao lado da lápide, encostado na pedra fria, assim como naquela noite na morgue, quando se encostou em Sofia.
A noite caiu, depois amanheceu.
Ele ficou sentado ali, imóvel.
O guarda veio aconselhá-lo, mas ele o mandou embora.
O comando ligou, ele desligou o telefone.
Ele simplesmente ficou sentado, olhando para a foto de Sofia na lápide.
Na foto, ela vestia um uniforme militar, com o cabelo preso em uma cauda de cavalo, sorrindo radiante e despreocupada.
Foi tirada no ano em que ela se alistou, aos dezoito anos.
Naquela época, seus olhos estavam cheios de luz.
Naquela época, seu coração estava cheio dele.
"Sofia."
Ele falou, a voz rouca como lixa.
"Naquela noite, voltei para casa para explicar."
"Queria te dizer que levei Clara ao hospital porque ela torceu o pé, não por outro motivo."
"Queria te dizer que mandei uma mensagem para ela, dizendo para não me procurar mais, que eu queria viver bem com você."
"Queria te dizer que me arrependi."
"Me arrependo destes sete anos, de não ter olhado bem para você."
"Me arrependo destes sete anos, de não ter te abraçado direito."
"Me arrependo da noite de núpcias, de ter te empurrado para outro homem."
Sua voz engasgou.
Passou muito tempo até ele continuar:
"Mas cheguei tarde."
"Quando cheguei em casa, você já…"
Ele não conseguiu terminar.
Baixou a cabeça, a testa pressionada contra a lápide gelada, os ombros tremendo violentamente.
O vento soprou pelo cemitério, agitando os crisântemos brancos diante da lápide.
Pétalas caíram sobre seu ombro, ele levantou a mão para pegá-las e as colocou suavemente diante da lápide.
"Sofia, me diga, o que eu faço?"
"Você se foi, e eu sozinho, o que eu faço?"
Lucas foi levado à corte marcial.
A acusação: tentativa de estupro, resultando em morte.
No tribunal, ele gritou e berrou, dizendo que Sofia havia se suicidado, que não tinha nada a ver com isso.
Mas os vídeos, aqueles vídeos que ele havia extraído do celular e não havia tido tempo de apagar, tornaram-se a evidência mais poderosa.
No vídeo, ele imobilizava Sofia, rindo de forma hedionda.
Sofia não se mexia, seus olhos vazios como os de um morto.
Então, de repente, ela se moveu.
Ela pegou o frasco de pesticida debaixo do travesseiro e, enquanto ele não prestava atenção, desatarrachou a tampa e o despejou goela abaixo.
No vídeo, Lucas pulou da cama assustado, vendo espuma branca escorrer pelo canto de sua boca.
Ele ficou paralisado por alguns segundos, depois virou-se e fugiu.
Ele não ligou para o serviço de emergência.
Ele não chamou ninguém.
Ele fugiu.
Deixando-a sozinha na cama, morrendo lentamente.
No tribunal, quando o vídeo foi reproduzido, todos ficaram em silêncio.
Leonardo estava sentado na plateia, os olhos fixos na tela.
Ele viu o olhar de Sofia antes de beber o veneno.
Aquele olhar atravessou a tela, encarando-o diretamente.
Como se dissesse:
'Leonardo Vargas, veja, finalmente estou livre.'
'Finalmente não preciso mais sofrer suas torturas.'
'Finalmente posso deixar este mundo que me causa tanta dor.'
Leonardo fechou os olhos, duas fileiras de lágrimas escorreram de seus cantos.
Lucas foi condenado à morte.
No momento da sentença, ele desatou a chorar no tribunal, gritando que iria apelar.
Leonardo aproximou-se dele, olhando para baixo.
Lucas ergueu a cabeça, viu a intenção de matar em seus olhos e estremeceu de medo.
"Leo, somos irmãos, somos irmãos de vida ou morte, você não pode fazer isso comigo…"
Leonardo agachou-se, aproximando o rosto do dele.
"Irmãos?"
"Quando você dormiu com minha esposa, lembrou que era meu irmão?"
"Quando estava gravando, lembrou que era meu irmão?"
"Quando a viu beber o veneno, virou as costas e fugiu, lembrou que era meu irmão?"
Lucas não conseguia falar, apenas tremia.
Leonardo levantou-se e virou-se para sair.
Ao chegar à porta, parou e disse, sem se virar:
"Fique tranquilo, não vou deixar você morrer tão fácil."
"Durante todos esses anos aí dentro, vou pedir para cuidarem muito bem de você."
"Garanto que cada dia será um inferno."