Matheus foi o primeiro a perceber que havia algo errado com Dante.
Ele bateu de leve no ombro dele e perguntou em voz baixa:
— Seu cio chegou?
Dante assentiu.
A voz saiu rouca:
— Eu tô bem… ela ainda tá lá dentro.
Adrian e Sebastian também olharam para ele.
Sebastian balançou as nove caudas e murmurou:
— Aguenta mais um pouco. Quando a Luninha sair, a gente vê isso.
……
De repente, um som estranho veio da névoa.
— Glu… glu… glu…
Parecia alguma coisa rolando.
Todos os membros-besta ficaram em silêncio e viraram o rosto na direção da floresta.
Logo apareceu uma bola enorme de vinhas verdes, rolando cada vez mais rápido de dentro da névoa.
No fim, veio com tudo e bateu numa pedra da entrada.
— BUM!
— O que é isso? Um monstro?
— Não parece… tem alguma coisa se mexendo lá dentro!
— Será que é a Luna? Ela não tem poder de planta?
Os comentários vieram de todos os lados.
A família Valente correu para perto.
Rafael puxou a espada e cortou as vinhas com cuidado.
Elas estavam macias, e bastou um golpe para se abrirem.
Quando a pessoa lá dentro apareceu, todo mundo ficou parado.
Era Luna.
O corpo inteiro estava coberto de ferimentos.
O vestido tinha virado tiras.
No rosto, havia arranhões tão profundos que pareciam quase atingir o osso.
A lama estava grudada na boca.
Mas, mesmo naquele estado, a mão dela continuava agarrando um embrulho de pano, de onde saíam folhas das dez ervas.
— LUNINHA!
Helena correu e a abraçou, chorando.
Luna fez uma careta de dor quando as lágrimas caíram em cima dos cortes, mas mesmo assim sorriu:
— Mãe… eu tô bem… deixa eu deitar mais um pouco… eu trouxe todas as ervas…
Augusto se aproximou, pegou Luna nos braços e a ergueu com firmeza.
Nos olhos dourados havia dor demais.
— Vamos pra casa. Seu pai vai cuidar desses ferimentos.
O grande sacerdote olhou para o horário.
Ninguém mais saía da floresta.
Então veio até eles, conferiu as ervas no embrulho e assentiu.
— As dez ervas estão completas. Vitória de Luna Valente na terceira fase.
A multidão mergulhou num silêncio curto—
e depois explodiu num alvoroço ainda maior.
— Ela venceu mesmo! Dos cento e quarenta e três, só ela voltou!
— As ervas são verdadeiras! Isso é absurdo!
— Quem apostou que ela perderia agora tá arruinado!
Na plataforma alta, os rostos de Zhu Liang e Dong Qin estavam sombrios até o extremo.
Os cabelos grisalhos de Zhu Liang caíam sobre os olhos de lobo, e ele já fazia cálculos frios no coração:
Aquela garota estava ficando cada vez mais difícil de eliminar.
Precisava ser resolvida o quanto antes.
Dong Qin passou a mão pelos cabelos vermelhos, os olhos de raposa semicerrados.
Aquela menina tinha habilidade, sorte e um destino estranho a seu favor.
Se conseguisse atraí-la para o seu lado…
Sang Qi bateu no ombro de Xuan Hai e riu:
— Xuan Hai, sua neta é ainda mais impressionante do que você era.
Xuan Hai sorriu, os chifres de dragão brilhando discretamente:
— Claro. Ela é da família Valente.
Luna estava nos braços de Augusto, encostada nele, mas ainda conseguiu lançar um olhar para os cinco noivos ao lado.
O cabelo dourado de Leonardo estava molhado de suor, e os olhos dele carregavam uma preocupação que já não fazia questão de esconder.
O rosto de Dante seguia pálido, mas o olhar não saía dela.
Matheus estava de cenho franzido, com a mão ainda pousada na faca da cintura.
Os cabelos brancos de Adrian balançavam ao vento, e os olhos azuis traziam uma ternura rara.
Sebastian mexia as nove caudas devagar, com um sorriso quase aliviado na boca.
Mesmo morrendo de dor, Luna ainda teve forças para ser atrevida:
— O que foi? Nunca viram alguém com sorte boa assim?
Mas a frase nem terminou.
A dor puxou tudo de uma vez, e ela apagou.
【Ding! As três fases da competição foram concluídas! Você ganhou 20000 pontos de “vitória”! Pontos de fofura +20000! Pontos atuais: 243300!】
【Detectado: a hospedeira desmaiou por excesso de ferimentos. “Modo de cura” ativado automaticamente. Troca forçada por 1 Pequena Pílula Restauradora ao custo de 5000 pontos. Pontos atuais: 238300!】
A voz do sistema ecoou no fundo da consciência dela.
Antes de afundar completamente no escuro, Luna ainda conseguiu pensar:
Quando eu acordar… preciso trocar mais umas latas…
Vai que aquele dragão negro ainda tá esperando comida na caverna…
E, se eu topar com ele de novo numa eventual fase S-rank, talvez valha mais a pena puxar amizade do que arrumar outro inimigo…
Mas será que ele é macho ou fêmea?
……
Luna acordou com dor.
A luz do sol atravessava o telhado de palha, e no ar havia o cheiro das ervas aromáticas que Helena cultivava.
Ela estava deitada numa cama de madeira coberta por peles macias.
Só de puxar um pouco as costas, a dor já a fez mostrar os dentes.
— Ah… desgraçado. A cauda daquele velho quase me desmontou inteira.
Ela xingou em voz baixa e ainda tentava se virar—
quando Helena entrou carregando uma tigela de barro, os olhos cheios de carinho e preocupação.
— Luninha, você acordou? Não se mexe. A mamãe fez sopa de Erva Qingling. Ajuda a desinflamar.
Helena levou a tigela até a boca dela.
O caldo soltava vapor.
— Bebe devagar. Tá quente.
Luna abriu a boca e tomou um gole.
O amargor da Erva Qingling, misturado com o aroma adocicado de cenoura, era cem vezes melhor do que os biscoitos comprimidos do apocalipse.
Enquanto bebia, perguntou:
— Mãe… quanto tempo eu dormi?
— Um dia e uma noite.
Helena limpou o canto da boca dela.
— Seu pai e seus irmãos ficaram aqui cuidando de você a noite toda. O Leonardo e os outros cinco também não foram embora. Estão esperando do lado de fora.
Mal ela terminou de falar, a porta rangeu.
Os cinco entraram um atrás do outro.
Leonardo veio primeiro.
Os cabelos dourados estavam presos com um cordão de couro, e nas mãos ele carregava uma bandeja de madeira com carne de cervo assada.
— Luninha, come um pouco. Você precisa recuperar forças.
Ele colocou a bandeja ao lado da cama.
Os olhos dourados caíram sobre os ferimentos dela, e a expressão se fechou num nó de preocupação.
Dante veio logo atrás, aproximando-se rápido demais.
Os cabelos negros caíam perto do rosto dela, e os olhos dourados ainda estavam avermelhados.
— Luninha… ainda dói? Eu posso soprar, se você quiser.
Ele estendeu a mão como se fosse tocar o machucado, mas teve medo de fazê-la sentir mais dor e ficou parado no ar.
Luna revirou os olhos, teimosa como sempre:
— Doer, uma ova. É só machucadinho.
Mas, por dentro, amoleceu um pouco.
No apocalipse, ninguém nunca se importou daquele jeito com as feridas dela.
No máximo, alguém jogava uma garrafa de antisséptico e pronto.
Ninguém ficava rodeando a cama daquele jeito.
【Hospedeira! Você já não é mais aquela galinha fraca F-rank!】
A voz de Borboleta apareceu de repente.
【A Pequena Pílula Restauradora foi excelente. Você já é B-rank agora! Tá a um passo de virar A-rank!】
【Seu poder de madeira subiu pro nível 5, com 190 de 400 pontos! E a Arte do Rei Coelho já foi pra 68%!】
O coração de Luna pulou.
Mas ela não deixou isso aparecer no rosto.
Movimentou a energia discretamente, e a luz verde na ponta dos dedos estava claramente mais forte do que antes.
Até a dor no corpo ficou um pouco mais leve.
Foi então que Matheus tirou um embrulho de dentro da roupa.
Ali dentro havia
Erva de Osso de Tigre
seca e moída.
— Se passar isso nos ferimentos, cicatriza mais rápido.
Ele falou pouco.
Depois ficou de pé ao lado da cama, os olhos presos nela como se tivesse medo de que ela voltasse a fazer alguma loucura.
Adrian então lhe ofereceu um cantil. Os cabelos brancos caíam sobre os ombros, e a voz tinha uma suavidade rara:
— Aqui tem orvalho de coral do Mar do Leste. O Han Xiao mandou. Ele disse que ajuda a curar ferimentos externos.
— Han Xiao?
Luna ficou surpresa.
Imediatamente se lembrou do jovem sereio de cabelos prateados e olhos azuis.
— Ele veio aqui?
Sebastian respondeu, balançando as nove caudas:
— Veio ontem. Como você ainda tava apagada, ele deixou o orvalho e foi embora.
Então inclinou a cabeça e sorriu:
— Sua maluquinha, você realmente sabe causar problema. Ganha a competição e ainda volta quase desmontada. Se continuar assim, da próxima vez a gente não espera mais por você.
A boca dele continuava brincando.
Mas os olhos carregavam preocupação de verdade.
Luna ia rebater como sempre—
quando passos soaram do lado de fora, e a voz de Rafael veio da porta:
— Luninha, o Han Xiao voltou. Disse que precisa falar com você.
— Deixa ele entrar.
Luna se sentou devagar, e Helena correu para colocar um travesseiro macio atrás das costas dela.