Amélia ficou em casa três dias.
Além dos exames pré-natais—
não saiu de casa.
Daniel observava—
com o coração apertado.
— Mel, quer sair um pouco? — disse enquanto descascava uma maçã.
— Para onde?
— Meu primo Miguel… arrumou uma nova namorada e nos chamou para jantar.
Amélia passou a mão na barriga.
Ela realmente já estava sufocada de ficar em casa.
— Tudo bem.
…
O apartamento de Miguel era luxuoso.
Assim que entraram—
o ambiente estava aquecido e animado.
— Primo! Cunhada!
Miguel os recebeu com entusiasmo.
Ao lado dele estava uma mulher em cadeira de rodas.
Ela vestia um vestido largo.
Usava uma máscara grossa, deixando apenas os olhos à mostra.
Amélia parou por um instante.
Aqueles olhos…
pareciam familiares.
— E ela?
— Essa é Jingjing. — Miguel passou o braço pelos ombros da mulher, apresentando-a com carinho.
Jingjing?
Bianca?
O coração de Amélia começou a bater acelerado.
Quanto mais olhava—
mais aqueles olhos pareciam com os de Bianca.
A mulher tossiu levemente.
A voz rouca, como se estivesse cheia de areia:
— Prazer, cunhada… estou com alergia no rosto e inflamação na garganta… não repare.
Amélia soltou um leve suspiro.
A voz não era igual.
Devia estar pensando demais.
Ou talvez fosse apenas alguém com o mesmo nome.
…
Durante o jantar—
todos brindavam e conversavam.
A mulher chamada “Jingjing” quase não tocava na comida.
Apenas encarava Sofia.
Um olhar fixo.
Incômodo.
Amélia sentiu um arrepio.
Sofia ainda era pequena.
Depois de um tempo, começou a se mexer inquieta.
— Mamãe, estou entediada… quero brincar.
Amélia ia responder—
mas “Jingjing” se aproximou com a cadeira de rodas.
— Eu também não estou comendo. — disse, acenando para Sofia — A tia te leva para o jardim, lá tem uma piscina grande… e peixes.
Amélia, instintivamente, quis recusar.
Daniel tocou sua mão:
— É dentro de casa, não tem problema.
Miguel também sorriu:
— Pode ir, é da família.
Amélia reprimiu o desconforto.
Soltou a mão de Sofia:
— Vai, escuta a tia.
Observando as duas se afastando—
o pressentimento em seu peito só aumentava.
…
No jardim dos fundos.
A noite era profunda.
A única luz vinha do fundo da piscina.
Um azul frio.
Hipnótico.
— Tia, onde estão os peixes?
Sofia se inclinou à beira da piscina, curiosa.
Bianca ficou atrás dela.
A voz baixa:
— Os peixes estão lá no fundo.
— Olha… ali está sua mãe.
Sofia virou a cabeça, confusa:
— Onde está a mamãe?
— Aqui.
Bianca estendeu a mão—
e empurrou com força.
— Pluft!
A água espirrou alto.
Sofia nem teve tempo de gritar—
caiu direto na água.
O frio invadiu seu corpo.
A água entrou pelo nariz e pela boca.
As mãos pequenas se debatiam:
— Soc…
Bianca se agachou.
Pressionou a cabecinha dela com força—
afundando-a na água.
— Bebe… bebe mais!
— Sua mãe desgraçada roubou o que era meu… você paga por ela!
Bolhas subiam à superfície.
A força da criança diminuía—
cada vez mais fraca.
Nos olhos de Bianca—
só havia prazer.
…
No restaurante.
A pálpebra direita de Amélia começou a tremer sem parar.
A colher em sua mão caiu na tigela com um som seco.
Seu coração disparou.
— O que foi? — perguntou Daniel.
— Demorou demais. — Amélia se levantou de repente — Vou ver a Sofia.
Ao chegar ao corredor que levava ao jardim—
ela deu de frente com Bianca voltando.
Sozinha.
Enxugando calmamente a água das mãos.
— Srta. Jingjing? — Amélia a parou — E a Sofia?
Os olhos de Bianca vacilaram.
— Está brincando… voltei só para pegar água.
Amélia encarou aqueles olhos—
e, de repente—
todo seu corpo se arrepiou!
— Sai da frente!
Uma sensação horrível tomou conta dela.
Empurrou Bianca—
e correu como uma louca para o jardim.
Abriu a porta de vidro.
O vento era frio.
A superfície da piscina—
completamente calma.
Sem risadas.
Sem vozes.
Um silêncio mortal.
Amélia correu até a borda.
Com a luz azul iluminando—
ela viu.
No fundo da piscina—
um pequeno corpo.
Como uma boneca quebrada.
Imóvel.
Os cabelos espalhados—
como algas escuras.
— NÃO—!
As pernas de Amélia cederam.
Ela caiu com força no chão.
A dor no peito—
como se estivesse sendo rasgada viva.
Aquilo era sua vida.
Era o único motivo que a fez continuar—
em todas aquelas noites em que quis morrer.
E agora—
tudo estava destruído.