Helena enxugou as lágrimas e enfiou um saquinho de Erva Qingling nas mãos de Luna:
— Luninha, leva isso com você. Se for envenenada, mastiga uma folha na hora.
Os cinco noivos também se aproximaram.
Leonardo lhe entregou uma adaga afiada:
— Essa é melhor do que a sua adaga de pedra. Se encontrar perigo, enfia direto no olho da fera.
Dante colocou em seu pescoço um colar feito de escamas de dragão:
— Isso ajuda a segurar um pouco o veneno. Usa.
Matheus tirou de dentro da roupa um mapa da Floresta das Ervas:
— Ontem eu fui dar uma olhada. Esse é o caminho. Dá pra evitar alguns pântanos.
Adrian então se abaixou e arrumou a barra do vestido dela:
— Amanhã eu vou esperar do lado de fora da floresta. Se eu ouvir sua voz, entro na hora pra te salvar.
Sebastian balançou as nove caudas e sorriu:
— Sua maluquinha, se realmente não der conta, grita meu nome. Eu vou lá e arranho aquelas feras até a morte com minhas garras de raposa.
Luna olhou para tudo o que eles lhe entregavam e resmungou por dentro:
— A competição é só amanhã, e eles já estão todos nervosos desse jeito. Quem foi que pediu ajuda? Eu consigo sozinha. Isso tudo vai ficar como “taxa de serviço de ferramenta”. Depois, quando eu juntar mais pontos, devolvo.
Ela ia sair andando—
mas cambaleou por causa do ferimento na perna.
Adrian foi mais rápido e a segurou na mesma hora:
— Eu levo você de volta.
Sem dar espaço para recusa, ele a pegou nos braços, abriu as asas brancas e levantou voo.
O coraçãozinho de Luna tremeu.
Por instinto, ela agarrou a roupa dele e olhou para os membros-besta ficando minúsculos lá embaixo, sentindo ao mesmo tempo susto e alegria:
— Uau! Irmão águia! Você voa alto demais! É mais estável do que helicóptero no apocalipse!
Um traço de sorriso passou pelos olhos azuis de Adrian.
Ele voou ainda mais firme.
— Onde fica esse “apocalipse”? No futuro, se você quiser ir a algum lugar, eu levo você voando.
Augusto olhou os dois se afastando, e um pequeno sorriso puxou o canto de sua boca. Nos olhos dourados havia um pouco de alívio.
Helena se agarrou ao braço dele:
— Augusto, você acha que a Luninha consegue ganhar amanhã? A Floresta Nebulosa das Ervas é perigosa demais.
— Consegue.
Augusto apertou a mão dela e respondeu sem hesitação:
— Ela é filha da família Valente. Não vai perder.
De volta ao Vale Valente, Adrian colocou Luna sobre a cama de madeira.
Meia hora depois, Helena já estava trazendo água quente para limpar os ferimentos dela.
Luna entrou na água e usou o sabonete que tinha acabado de trocar pelo sistema. O corpo inteiro ficou fresco e limpo, e ela soltou um suspiro satisfeito:
— As coisas do mundo moderno são muito melhores mesmo.
Depois do banho, trocou para um vestido limpo e foi se sentar no banco de pedra do lado de fora.
Rafael e os outros já tinham assado a carne de cervo, e o cheiro ia longe.
Luna agarrou um espeto e começou a comer em grandes mordidas, falando entre uma e outra:
— Amanhã, naquela floresta de ervas, eu vou ganhar. Não só vou achar as dez ervas, como também vou matar mais feras e ganhar ainda mais pontos de fofura!
No instante em que ela disse “ganhar pontos de fofura”, toda a família parou o que estava fazendo e virou o rosto para ela ao mesmo tempo.
— Luninha… esse tal de “ponto de fofura” é o quê? E essas coisas que você vive falando, “apocalipse”, “zumbi”… o que significam? — perguntou Helena, deixando o espeto de carne de lado, completamente confusa.
Dante também arregalou os olhos grandes:
— Isso mesmo, Luninha. É algum tipo de feitiço muito poderoso?
A carne quase entalou na garganta de Luna.
O coração esfriou na hora.
Pronto.
Ela tinha se distraído demais e esquecido completamente desse detalhe.
Ficou gaguejando, incapaz de responder.
Por dentro, a mente já era um novelo inteiro embolado.
Meu Deus, como eu explico isso agora?
Não dava para dizer simplesmente que veio de um apocalipse onde gente comia gente.
Quase por reflexo, ela cutucou a “larva” na cabeça e começou a despejar desespero em pensamento:
— Me diz uma coisa: se eu contar a verdade, será que eles vão me achar um monstro e me achatar até eu virar panqueca de coelho?
A larvinha virou o corpo preguiçosamente:
— Hum. Grande chance. Talvez ainda chamem algum sacerdote pra te exorcizar.
— Merda. Então como é que eu conto uma mentira boazinha dessas?
Luna já estava arrancando os cabelos mentalmente.
A larvinha pensou um pouco e então sugeriu:
— Que tal dizer que você sonhou com um imortal? Fala que um velho de barba branca apareceu e disse que matar feras te daria esse tal de “ponto de fofura”, e que isso faria sua força crescer.
Ela girou no ar.
— Aí você também pode dizer que “apocalipse”, “zumbi” e essas palavras foram só nomes que ouviu no sonho. Você mesma não entende direito o que significam. Só sonhou.
— Porra… será que cola? Me ajuda a montar isso direito!
Luna achou a desculpa meio absurda, mas naquele momento não tinha opção melhor.
Será que uma mentira por uma boa intenção não faz cair raio na cabeça?
Ela limpou a garganta e tentou montar a expressão mais sincera, inocente e honesta possível:
— Então… na verdade, ontem eu tive um sonho muito estranho. Sonhei com um velhinho de barba branca. Ele disse que era um imortal do céu.
Ela observou discretamente a reação da família.
Vendo todos atentos, criou mais coragem:
— Esse imortal me disse que eu tenho um tipo especial de constituição. Quanto mais eu matar feras más, mais esse “valor” vai crescer. E, com isso, minha força e meu poder também ficam mais fortes. Esse “valor” se chama ponto de fofura.
Ela fez uma pausa e continuou, cuidadosamente:
— E esses nomes… “apocalipse”, “zumbi”… eram os nomes que esse imortal usava. Eu também não entendi muito bem o que era ponto de fofura, nem o que eram zumbis. Foi só um sonho.
Para reforçar o teatro, ela ainda ergueu o punhinho e balançou no ar, fingindo estar cheia de poder:
— Ele também disse que isso era um segredo do céu e que eu não podia sair contando para qualquer um. Por isso eu não tinha falado antes.
A família inteira trocou olhares.
Nos rostos, surgiu uma mistura de espanto e fascínio.
Leonardo franziu a testa, como se ainda tivesse algo a perguntar, mas no fim tudo o que saiu foi uma recomendação baixa e suave:
— Se foi orientação de um imortal, então guarda isso bem no coração. Amanhã você precisa tomar muito cuidado.
Já Helena acreditou na hora.
Passou a mão na cabeça de Luna, toda orgulhosa:
— Como eu imaginava. Minha Luninha é mesmo especial. Até os imortais gostam de você.
Luna soltou o ar bem devagar, aliviada, e mentalmente fez um joinha para a larva.
A mentira tinha funcionado.
Meu Deus, quase morri de susto.
……
Depois do jantar, cada um voltou para o próprio quarto para descansar e guardar energia para a competição do dia seguinte.
Luna também foi para sua casinha de madeira, fechou a porta, pensou no espaço do sistema—
e entrou num instante.
Lá dentro, Borboleta estava rolando na grama, toda inchadinha e maior do que antes, parecendo um bolinho branco de arroz glutinoso.
Quando viu Luna entrar, veio rolando até ela, com a voz meiga cheia de empolgação:
— Mestra! Olha! O espaço ficou muito maior! E agora tem peixe no rio!
Luna olhou ao redor e seus olhos foram se abrindo cada vez mais.
A terra preta, que antes tinha só algumas centenas de mu, agora se expandia por uma área enorme, mais de mil.
Ali cresciam repolho, cenoura, batata, batata-doce e tomate.
Num canto, já havia até um pequeno pedaço de arrozal.
As mudas de fruta ainda não tinham dado frutos, mas os galhos e as folhas estavam vigorosos e cheios de vida.
— E tem mais, tem mais!
Borboleta rolou até a área de criação.
— Os coelhos que você pegou tiveram filhotes! E as galinhas e os patos selvagens também aumentaram muito! Daqui pra frente, você nunca mais vai ficar sem carne!
Luna foi até o cercado dos coelhos e olhou para aquela ninhada de coelhinhos peludos.
Na hora, ficou meio travada por dentro.
Ela também era coelho.
Será que comer carne de coelho não seria cruel demais?