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Quando Luna saiu tropeçando da Floresta das Feras, faltava menos de meia vareta de incenso para o fim da prova.
Na mesma hora, a entrada explodiu em vozes.
Metade da multidão estava chocada porque ela tinha voltado viva.
A outra metade já estava pronta para zombar.
— Meu Deus, ela voltou mesmo! E ainda trouxe orelhas!
— Uma C-rank ganhando de tantos A-rank? Isso é absurdo!
— Absurdo nada, ela deve ter usado truque sujo!
— Claro! A família Valente deve ter dado algum tesouro pra ela!
Camila estava no meio da multidão, as unhas enterradas na palma da mão.
Vendo Luna cercada pela família Valente, a inveja dentro dela só aumentava.
As fêmeas-cervo ao lado também atiçavam:
— Irmã Camila, essa Luna tá se achando demais. Amanhã ela não sai viva da Floresta das Ervas.
A família Valente não ligava nem um pouco para o que os outros falavam.
Helena abraçou Luna e chorou sem parar.
Os olhos dourados de Augusto varreram os membros-besta que cochichavam, e a pressão fria que saiu dele fez o povo calar na mesma hora.
Rafael tirou a armadura prateada e a colocou sobre os ombros de Luna. Sua voz ainda trazia o medo que ele tinha passado:
— Luninha, nunca mais faz uma coisa dessas. Seu irmão ficou preocupado.
Luna, porém, nem se abalou. Acenou com a mão, puxando o vestido rasgado em tiras:
— Tá tudo bem, tá tudo bem. Só uns arranhões. Não vou morrer por causa disso.
Ela tocou o embrulho das orelhas junto ao peito e quase riu por dentro.
Aquilo era ponto de fofura puro.
Sem falar nos corpos das feras que o sistema já tinha convertido automaticamente dentro do espaço.
Somando tudo, ela já tinha passado de duzentos mil.
【Hospedeira! Agora você já pode trocar por sabonete e shampoo do mundo moderno! E também absorventes!】
【Quer que eu organize uma lista de itens urgentes? Assim fica mais fácil trocar depois!】
A voz de Borboleta soava elétrica de empolgação, rolando sem parar dentro do mar da consciência dela.
— Troca! Claro que troca!
Luna gritou por dentro, quase vibrando.
— Primeiro me dá dez sabonetes, cinco frascos de shampoo e dois pacotes enormes de absorvente! Dos dois tipos! Não importa se vou usar agora ou não, tem que ter reserva!
Enquanto pensava nisso, ela apalpou discretamente o bolso, onde estava um dos sabonetes recém-trocados.
Ficou até emocionada.
Finalmente não precisava mais esfregar o corpo com pele de fera igual uma selvagem.
Depois de meia xícara de chá, ouviu-se de novo movimento dentro da floresta.
Mais de trinta membros-besta saíram cambaleando.
Todos estavam cobertos de ferimentos.
Alguns tinham as roupas rasgadas pelas vinhas.
Outros ainda sangravam pelos braços.
E, nas mãos, levavam pouquíssimas orelhas.
O que tinha mais mal segurava três.
Quando olharam para as dez orelhas junto ao peito de Luna, os olhos de todos ficaram vermelhos.
Na frente vinha Shi Hang.
As vinhas tinham deixado seu corpo inteiro coberto de cortes, e ele parecia quase desfeito. Ele apontou para Luna e berrou:
— Grande sacerdote! Luna Valente trapaceou! Ela armou emboscadas pra matar os nossos! E ainda roubou nossas presas!
Os outros seguiram o coro:
— Isso! Ela usou feitiço! Aquelas vinhas cresciam mais rápido que A-rank!
— Ela deve ter tomado droga proibida! Senão não teria como vencer a gente!
— Tirem a classificação dela! Ela não merece ganhar!
Luna arqueou a sobrancelha, soltou-se dos braços de Helena e foi mancando até ficar diante de Shi Hang.
Os olhos amendoados se estreitaram.
— Trapaceei?
Ela ergueu o queixo.
— Qual dos seus olhos viu eu trapaceando? Foi você que não deu conta, correu das feras igual cachorro molhado, e agora ainda quer me culpar?
— Você…!
O rosto de Shi Hang ficou roxo de raiva.
Ele levantou o machado para atacá-la—
mas Leonardo segurou o pulso dele antes.
Os olhos dourados de Leonardo estavam frios como metal.
— As regras foram claras. Vida e morte são responsabilidade de cada um. Perdeu? Então aceita. Não se faz de vítima como uma velha fofoqueira.
Dante também veio logo depois, lançando um olhar duro para Shi Hang:
— Quando você armou cilada pra machucar a Luninha, por acaso falou que aquilo era baixo? Agora que perdeu, vem chorar? Que coisa vergonhosa.
Shi Hang ficou sem fala.
Mas ainda não desistiu.
— Ela matou gente do nosso povo! Isso não foi competição! Foi assassinato!
— Assassinato?
Luna soltou uma risada gelada.
A voz subiu de tom.
— Quando vocês me cercaram e tentaram me empurrar do penhasco, por acaso lembraram da palavra “assassinato”? Eu matei em legítima defesa!
Ela deu mais um passo à frente.
— Se você tem coragem, então tenta me bater agora. Vai. Eu ainda arranco suas orelhas e fecho onze.
Enquanto falava, puxou a manga e mostrou os arranhões no braço.
— Tá vendo isso? Foram os seus homens que fizeram! Se eu não revidasse, agora já teria virado esterco de fera!
A raiva nos olhos dela ficou ainda mais nítida.
— Um bando de inúteis que não sabe perder e só sabe inventar desculpa. Vocês envergonham o mundo das feras inteiro!
Os membros-besta abaixo da plataforma ficaram calados.
Alguns até riram sem conseguir evitar.
Aquela pequena da família Valente era maluca, sim.
Mas o que estava dizendo fazia sentido demais.
Sebastian balançou as nove caudas e entrou na discussão rindo:
— A maluquinha tá certa. Perdeu, engole. Não inventa desculpa. Se ainda não estiver satisfeito, eu posso descer aí e brigar com vocês também.
O grande sacerdote avançou apoiado no cetro e bateu a ponta dele no chão:
— Silêncio.
Sua voz ficou pesada.
— As regras da prova são claras. Vida e morte ficam por conta de cada competidor. Luna Valente trouxe o número necessário de orelhas. Vitória da segunda fase para Luna Valente.
Shi Hang ainda queria discutir.
Mas, da plataforma alta, o olhar de Zhu Liang caiu sobre ele.
Foi o bastante.
Shi Hang fechou a boca na hora.
No alto, Zhu Liang encarava Luna por trás da franja cinzenta, fazendo contas em silêncio.
A Floresta das Ervas no dia seguinte seria ainda mais perigosa.
Lá haveria oportunidades de sobra para fazer aquela garota desaparecer para sempre.
O grande sacerdote limpou a garganta e continuou:
— A terceira fase será realizada amanhã.
Ele ergueu o cetro.
— As regras são as seguintes: em quatro horas, os competidores deverão entrar na Floresta Nebulosa das Ervas e encontrar dez ervas medicinais raras específicas: Flor de Sangue Rubro, Erva Qingling, Vinha de Barba de Dragão, Folha de Nove Caudas, Flor da Vesícula de Dragão, Erva de Osso de Tigre, Flor de Veneno de Lobo, Alga-Cauda-de-Raposa, Erva Pena de Águia e Incenso de Saliva de Dragão.
A voz dele ficou ainda mais séria.
— Dentro da floresta há criaturas desconhecidas, pântanos e venenos. Vida e morte serão responsabilidade de cada um. Todos devem assinar o termo de vida e morte.
A praça inteira ficou muda.
Até a respiração da multidão pareceu ficar mais pesada.
A Floresta Nebulosa das Ervas era ainda pior do que a Floresta das Feras.
Dois anos antes, mais de cem membros-besta entraram ali.
No fim, pouco mais de dez saíram.
Os outros simplesmente desapareceram sem deixar corpo sequer.
— Quem quiser desistir pode sair agora. Quem quiser entrar pode se registrar.
Assim que as palavras caíram, mais de dez membros-besta viraram as costas na mesma hora.
Eles não estavam dispostos a apostar a vida.
Mas ainda mais gente deu um passo à frente.
Entre eles, vários dos A-rank derrotados por Luna.
Também havia membros do povo da pedra e do povo dos lobos.
Era óbvio.
Queriam usar a fase seguinte para eliminá-la.
— Eu me inscrevo!
— Eu também! Vou matar a Luna Valente!
— Vamos vingar os irmãos da nossa tribo!
Luna olhou para aquele bando cheio de intenção assassina—
e, em vez de sentir medo, sorriu.
— Venham.
Ela ergueu o queixo.
— Quanto mais, melhor. Eu já tava mesmo achando que minhas presas eram poucas.
O grande sacerdote a encarou.
— Luna Valente, você tem certeza de que vai participar? A Floresta Nebulosa das Ervas é dez vezes mais perigosa do que a Floresta das Feras.
— Tenho.
Luna bateu no próprio peito.
Os olhos firmes, sem recuo nenhum.
— Eu nunca aprendi a escrever a palavra “desistir”.
Mas, por dentro, ela já pensava em outra coisa:
As dez ervas?
Flor de Sangue Rubro e Erva Qingling ela já tinha no espaço.
As outras também não deviam ser impossíveis de achar.
Além disso, tudo o que encontrasse podia ser jogado no espaço para cultivo acelerado.
E, numa floresta cheia de ervas raras, os pontos de fofura com certeza iam subir de novo.
Augusto quis impedi-la.
Mas, no fim, deu um passo para trás.
Soltou um suspiro e falou apenas:
— Certo. Seu pai apoia você. Mas toma cuidado.