Capítulo 1
No Hospital Militar Central, todos sabiam: o marido de Amélia Duarte era o homem perfeito — dedicado, apaixonado, rico.
Seu único “defeito”? Diziam que ele era incapaz na cama.
Todas as vezes, com os olhos vermelhos, Mel tentava explicar que Leonardo havia escolhido um relacionamento platônico por causa dela.
E ele, sempre gentil, a interrompia com um sorriso calmo:
— Não importa… sua reputação é mais importante.
Ela sabia que ele a tratava como um tesouro.
Que ele valorizava aquele amor puro, acima do desejo físico.
Até aquela noite.
A enfermeira responsável pelo exame íntimo, com o rosto corado de constrangimento, anunciou o estado da paciente trazida às pressas:
— Laceração na região íntima… dizem que foi causada por… atividade sexual intensa.
Mel se preparou para examinar.
Mas, no instante em que viu o rosto da paciente deitada na maca, seu corpo inteiro congelou.
Era Bianca Ferreira.
Sua prima.
Antes que conseguisse reagir, uma voz familiar soou atrás dela:
— Doutora, como está minha namorada?
Mel levantou a cabeça abruptamente — e encontrou os olhos de Leonardo.
Ele parecia ter vindo às pressas. A camisa mal abotoada, o peito à mostra… ainda marcado por arranhões e manchas vermelhas ambíguas.
Enquanto se inclinava, enxugando o suor de Bianca e murmurando palavras suaves para acalmá-la, aquelas marcas em seu corpo gritavam uma verdade impossível de ignorar.
No prontuário, as palavras queimavam como ferro em brasa:
“Lesão causada por relação sexual…”
Então…
não era que ele não pudesse.
Ele apenas…
não podia com ela.
…
A mente de Mel ficou em branco.
Seu coração parecia ser rasgado em pedaços.
Ela cambaleou, quase caindo.
Uma mão forte a segurou de imediato.
— Doutora, você está bem?
Ela ergueu o olhar — e encontrou, de novo, o olhar inquieto de Leonardo.
Mel desviou o rosto.
Respirou fundo, engolindo à força o gosto metálico que subia pela garganta.
Pegou os instrumentos e começou o exame.
Quando levantou as roupas de Bianca, as marcas eram impossíveis de ignorar.
No pescoço.
Na clavícula.
Marcas de beijos, profundas… intensas.
Violentas.
Até a camisola de seda que ela vestia… era exatamente aquela que Mel mais gostava.
Na noite anterior, Leonardo havia dito, com um sorriso baixo:
— Você fica linda com isso… me deixa com vontade.
…
Durante o exame íntimo, o estado da lesão era claro demais.
Inchaço.
Ruptura.
Aquilo não era acidente.
Era o resultado de um desejo desenfreado.
O estômago de Mel se revirou.
Ela terminou o procedimento com esforço e saiu apressada do quarto.
No banheiro, apoiou-se na pia e começou a ter ânsias.
Nada saía.
Apenas o amargor queimando sua garganta.
Leonardo veio atrás dela.
Parou às suas costas. A voz, rouca:
— Mel… a culpa é minha. Eu pensei que não conseguia com ninguém… até aquele dia, no jantar da empresa. Ela bebeu por mim… quando eu a segurei… percebi…
Ele fez uma pausa.
— …que só com ela… eu reajo.
Só com ela.
Essas palavras foram como lâminas afiadas, rasgando o coração de Mel sem piedade.
Ela não quis ouvir mais nada.
Virou-se para sair.
Mas Bianca apareceu de repente e segurou sua mão.
— Irmã!
Com um “ploc”, ela se ajoelhou no chão, lágrimas escorrendo sem parar:
— Me perdoa, irmã! A culpa é toda minha!
Todos ao redor olharam.
Mel sentiu o sangue subir ao contrário, gelando seu corpo.
Ela puxou a mão com força:
— Me solta!
Mas Bianca caiu para trás de propósito, cobrindo o rosto e chorando ainda mais alto.
— Irmã… eu não fiz isso por amor… nem por desejo…
Ela olhou para Mel, com uma expressão “sincera” que dava náusea:
— Eu só queria… te ajudar a ter um filho… para retribuir tudo que você e a tia fizeram por mim…
O corpo de Mel tremia de raiva.
Sua visão escureceu.
…
Ela e Leonardo cresceram como vizinhos.
Rivais desde pequenos.
Se ele tirava primeiro lugar hoje, ela tomava de volta amanhã.
Depois da escola, se escondiam atrás da porta só para assustar o outro.
Até que, aos dezesseis anos, depois de uma briga…
ele a beijou.
Não era ódio.
Era amor.
Um amor secreto, mútuo.
Mas aos dezoito… o pesadelo começou.
Seu pai biológico saiu da prisão.
Naquela noite que ela jamais conseguiria esquecer…
ele a pressionou no chão.
Foi Leonardo quem arrombou a porta, espancou o homem quase até a morte e chamou a polícia.
Desde então…
Ela passou a temer qualquer aproximação masculina.
Até mesmo a dele.
Sua mãe a chamou de amaldiçoada.
Disse que ela havia destruído a família.
E trouxe Bianca para casa… dando a ela todo o amor.
No mundo inteiro…
Só restava Leonardo ao lado dela.
Ele era sua única luz.
Ele desistiu da arquitetura — seu maior sonho — e foi estudar computação, apenas para ganhar mais dinheiro por ela.
Aos vinte e dois, preparou um pedido de casamento perfeito.
Prometeu dar a ela um lar seguro.
Aos vinte e três, um casamento grandioso, que realizou todos os sonhos dela.
Na noite de núpcias…
Quando ele se aproximou, cheio de desejo, ela se encolheu de medo.
Ele parou.
A abraçou repetidamente, sussurrando:
— Mel… não tenha medo. Eu espero por você.
E ele esperou.
Cinco anos.
Até tomou remédios para conter o próprio desejo.
Dizia que um amor platônico era mais puro.
Quando finalmente ela começou a se curar…
descobriu que os efeitos colaterais haviam feito com que ele não tivesse mais reação com ela.
Ela se sentiu culpada.
Desesperada.
Mas ele apenas sorriu:
— Não tem problema. Assim ninguém vai dizer que o problema é você por não conseguir ter filhos.
Seus sogros a insultavam constantemente.
Ele chegou a ter a perna quebrada… apenas para tirá-la daquela casa e viverem sozinhos.
Ela acreditava…
que ele a amava profundamente.
…
Foi ela quem apresentou Bianca a ele.
Ele chegou a reclamar:
— Sua prima fala demais, é barulhenta.
Ela riu:
— Ela só quer trabalhar. Tenha um pouco de paciência.
Sim.
Paciência.
Até levá-la… para a cama dele.
…
Um sorriso amargo surgiu nos lábios de Mel.
Quando o coração morre…
nada mais importa.
Ela voltou silenciosamente ao seu consultório.
Pegou o telefone.
— Doutor Santos… preciso que entre com um pedido de divórcio para mim.